sexta-feira, 27 de maio de 2016

“Ciao Bello”

Ensaio [*]
Recebido em 25 de abril de 2016
Por Betto della Santa, comunista-internacionalista, jornalista e doutor em Ciências Sociais pela Unesp Campus de Marília-SP.


“Ciao Bello”[**] ou Arrivederci ao camarada comunista Edmundo

“Questo è il fiore del partigiano…”
Canção Revolucionária

Um filósofo da práxis brasileira: Edmundo Fernandes Dias
   
Edmundo Fernandes Dias, o camarada comunista Edmundo – como certamente preferiria –, foi parte de uma aguerrida geração de intelectuais de novo tipo. Conheceu a vida adulta em meados dos anos 60, no Rio de Janeiro, em meio ao combate socialista à ditadura civil-militar brasileira e, junto a muitos mais, viveu um exílio político em Santiago del Chile. Das cátedras cariocas à Facultad de Ciencias Sociales, na universidade chilena, travou contato com um vocabulário marxista fortemente arraigado no estruturalismo francês. Da herança filosófica de Louis Althusser reteve o interesse pela linguística e a psicanálise – os estudos da linguagem e a questão da subjetividade deviriam preocupações duradouras do escritor, orador, docente e pesquisador; “Fur Ewig” – e renunciou, em uma vigorosa antítese, às concepções de mundo, de homem e de conhecimento mesmas pressupostas no espólio racional do pensador francófono. O deslocamento sócio-espacial, RJ-SP, deu lugar à hora da condensação político-temporal, teoria-prática. A crítica, os questionamentos e, enfim, a “negação da negação” do que os partidos comunistas oficiais concebiam como análise e caracterização da formação social brasileira levaram-no, pari passu, a determinado modo de sentir e pensar a transição política conservadora e, simultaneamente, aproximaram-no do détour para o marxismo crítico e revolucionário de Antonio Gramsci. Sua memória viva é o motivo gerador para alinhavar uma ou duas pistas a respeito do seu ser-estar no mundo dos homens. O “Outro Gramsci” que defendeu foi, outrossim, um Outro marxismo. E este seu “altermarxismo”, por assim dizer, não deixou de constituir, por fim, um marxismo do Outro. Senão, vejamos.

Edmundo assumiu plenamente o desafio inexorável – e os insoslaiáveis riscos – de tornar a política teoria e assumir a teoria enquanto política. Muitas e muitas vezes relembrou que o marxismo, o qual reivindicamos, é parte indivisível da mesma cena histórico-política que pretendemos transformar. A autocrítica marxista inscrever-se-ia, dessa forma, em teoria da história que implicaria, a sua vez, uma história da teoria e, subsequentemente, um marxismo do marxismo. Foi discursando sobre este assunto “ortodoxo” que conheci, por primeira vez, Edmundo. Era a abertura solene do encontro regional da Associação Brasileira de Psicologia Social em destacada sala-anfiteatro da Unesp Bauru [1] – no fim dos antissocialistas anos 90 – cuja edição tinha como temática nada mais e nada menos do que a relação dialética entre educação emancipatória e práxis revolucionária citada na terceira tese “Ad Feuerbach”, de um então juveníssimo Karl Heinrich Marx.
Éramos parte de um pequeno, mas abnegado círculo de quarenta companheiros ávidos por formação integral, e o que ouvíamos soava a algo como boa música. Por outro lado, muitas e muitos lembrarão de Edmundo como aquele que fundou uma “esfera pública proletária” no país – como o diriam Oskar Negt e Alexander Kluge [2], sob clara inspiração em Rosa Luxemburg –, afeita a uma democracia operária a qual sempre defendeu nos sindicatos, centrais e partidos que ajudou a construir. Uma experiência vivida que envolve momentos fundacionais de órgãos centrais democráticos, em distintos limites e naturezas, tais quais o Andes-SN, a CSP-Conlutas e, a seu tempo e espaço, o próprio Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, secção brasileira da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional. Edmundo sempre esteve a hastear bandeiras à contracorrente e, enquanto viveu, nunca as deixou de agitar, sempre cuidando de passar adiante a flâmula às gerações vindouras. Conheci-o justamente quando de seu recrutamento ao movimento trotskista brasileiro (em minha vã inocência filosófico-nominalista, não me pareceu um fato tão extraordinário. Mal sabia eu das polêmicas marxistas, intrasseguidores de Antonio Gramsci e Leon Trotsky, no país…).
Quando foi preciso recomeçar, ao romper com o Partido e, depois, com a Central Única dos Trabalhadores, o PT e a CUT, mostrou-nos aos mais jovens que nenhuma forma organizativa deveria ser fetichizada. Trata-se, aí, de uma iconoclastia revolucionária; rupturas necessárias. Edmundo seguia adiante (lembro-me bem, quando da Reforma da Previdência, e ele insistir em que um governante do capital não poderia ser chamado por apodo carinhoso. “Lula” deixara de existir para dar lugar a “Luiz Inácio da Silva”, assim como PT e CUT se tornaram obstáculos absolutos para a causa mais alta de nossa era).
À época da fundação do PT e da CUT, era já parte da velha guarda e também teve de ouvir às acusações de praxe sobre um pré-suposto sectarismo que o oportunismo político sói esbravejar quando o “espírito de cisão” do movimento social operário é chamado a se manifestar dividindo águas histórico-politicamente. Mil pragas, tanto antes como depois, foram rogadas às/aos que se atreveram pós-cruzamento do Rubicão: “Alea jacta est”. E se dizia que uma travessia no deserto – derrotas infames, isolamento fatal e redução à insignificância –, entre outras fatalidades de proporções bíblicas, recairiam sobre as cabeças e os pés de hereges, blasfemos e irreligiosos em geral que, hoje como antes, ousaram desafiar o “Deus-obreiro” da hora e da vez. Nesses momentos, cônscio de que se trata de uma processualidade histórica inarredável, o espírito se fazer carne, gostava de rememorar uma anedota sobre a assim chamada Esquerda de Zimmerwald. Após o colapso político da Segunda Internacional, um punhado de marxistas revolucionários colocou-se contra os votos socialdemocráticos alemães pelo financiamento creditício da primeira guerra interimperialista, e começaram a agitar e propagandear guerra à guerra. No primeiro encontro em que de fato se reuniram eram efetivamente tão poucos que cabiam todos em um só modesto veículo. Profundo conhecedor da teoria e da história marxistas, Edmundo sabia que os nexos de cisões e fusões são o caminho incontornável para quem quer edificar a cidade futura do comunismo (o carro levava a Rosa Luxemburg, Leon Trotsky, Vladimir Lenin e outros, o Sal da Terra).
A paciente e meticulosa pesquisa que realizou sobre “Gramsci em Turim” – o jovem Gramsci dos conselhos operários – abriu sendas férteis para uma diametral oposição à fortuna acrítica com que os autoproclamados “jovens intelectuais” do PCB brindaram traduções, prefaciações, comentários e interpretações de um Gramsci “teórico das superestruturas” e de uma hipostasiada “cultura” no Brasil. Ao estudar criteriosamente a produção gramsciana afim ao “Bienio Rosso” – escritos políticos que debatem a “revolução contra O Capital”, a questão meridional italiana e, como atesta o subtítulo da publicação da tese em livro, “a construção do conceito de hegemonia” – Edmundo renunciava à mera redução do pensamento político de Antonio Gramsci à tradição bolchevique-leninista, por um lado e, por outro, negava sua condição de intérprete filo-idealista da assim-chamada cultura europeia. Ao afastar fantasmas pós-stalinistas e socialdemocratóides, de um Palmiro Togliatti ao Eurocomunismo italiano – em trabalho intelectual, diga-se, posterior ao aparato crítico do Istituto Gramsci – Edmundo combatia simultaneamente o espectro liberal de Norberto Bobbio e o espírito positivista (e nada original!) de uma pré-suposta “ruptura epistemológica” entre o jovem Gramsci e um Gramsci maduro.

Gramsci em Turim (2000)

Ao cruzar sabres com Carlos Nelson, Leandro Konder e Aurélio Nogueira – sempre de modo, a um só tempo, fraternal e consequente – Edmundo não cedeu terreno ao lavrar a cultura teórica e política que possibilitou efetivamente a descoberta historiográfica e filológica de um Outro Gramsci. Se as leitura e recepção hegemônicas de Gramsci nos anos 60 e 70 no país retratavam-no como um protohabermasiano avant la lettre (assunção, leviana e superficial, que aproximava seus contendores do centrismo kautskiano…) o que emergia da letra era o dirigente comunista, o marxista não só crítico qual revolucionário e, sobretudo, um real combatente em armas. A sofisticada e instigante reflexão crítica – do jornalismo político à obra carcerária – deste comunista sardo não poderia ser novamente encarcerada: nem pela vulgata stalinista nem pela expropriação liberal de um saber-fazer voltado para a revolução social. Não à toa trata-se de uma pesquisa inserida, textual e contextualmente, no ciclo histórico de revoltas do trabalho no Brasil. No início dos anos 80, novos personagens do drama histórico ocupavam o proscênio criticando – com atos mais que palavras – a conciliação de classes, dos PCs, e reivindicando uma nova força social autônoma.
Ao se arrogar este debate teórico e político – sobre movimentos, sindicatos e partidos, operários e socialistas – Edmundo sabia-se organizador coletivo. E, como podemos conferir na leitura de sua introdução, não se tratava de um tópico escolástico desprovido de critério prático. Enxergar a revolta do trabalho do ABCD paulista sob as lentes crítico-revolucionárias dos conselhos de fábrica da Itália setentrional era, contudo, não só uma questão de conteúdo, mas também de forma. Edmundo costumava dizer que com a publicação do ensaio “Rabo preso” na principal revista do PT (Teoria & Debate, nº 14, 1991) intencionava “pregar um susto” em Coutinho e seu grupo. A arguta análise genético-diacrônica dissecava o discurso, palavra por palavra, daqueles que pretendiam recontar a história “na primeira pessoa do singular”.
A concepção de demiurgos da “Operação Gramsci” – ao que Edmundo nos alertava que as escolhas léxico-semânticas nunca são inocentes… – era, ali, francamente combatida. Afinal, hoje, sabe-se bem que o que o comunismo oficial brasileiro detinha, mais do que a “hegemonia cultural de esquerdas” (como escrevera – e eternizara – um tão celebrado Roberto Schwartz com conhecimento filologicamente débole de causa…), era quasi-monopólio sobre os meios fundamentais de produção intelectual – e, em especial, editorial – à esquerda no país. Vozes dissonantes ao coro dos contentes da antiga geração não entravam, portanto, em “igualdade de condições” para a batalha de ideias. O epicentro revolucionário da crítica de Edmundo à concepção liberal de mundo tornava-se, aqui, aríete contra a cidadela amuralhada da Velha Esquerda (o nódulo central da opúscula “A liberdade impossível no capital” [3], de edição limitada, criticava com aguda perspicácia toda e qualquer Robinsonada sob a Ordem…).
Nas trincheiras – da teoria ou da política – Edmundo foi, como queria Bertolt Brecht, um dos imprescindíveis. Não defeccionou um só dia de sua vida à luta. Mas o fez de modo ímpar. Não guardou ressentimentos de seus adversários. Cultivou intimorata solidariedade com seus iguais. Amou a vida e a luta com toda a força de seu ser. E, o que gostaria de ressaltar aqui, não se dividiu. O homo sapiens e o homo faber, aquele que pensa e o que sente, o mapa dos afetos e as coordenadas das convicções permaneceram, no mais íntimo âmago de seu ser, unos e indissociáveis. Nesse sentido foi um intelectual de mui rara cepa. Nunca foi aquilo que Vladimir Lenin chamou de marxista legal. Jamais fez parte da categoria de marxista ocidental de Perry Anderson. Para nada se constitui como aquilo que Luiz Fernando da Silva denomina marxista acadêmico [4]. Se historiadores sociais e bibliólogos operários do futuro algum dia se aventurarem pela edição sistemática de suas obras escolhidas terão, diante de si, um labor de Sísifo. Seus escritos teóricos e políticos perfazem-se de modo nada convencional. Atas e informes, manifestos e declarações, panfletos e congêneres terão de ser reconstituídos. Os vários discursos e conferências terão de ser rastreados/transcritos. Os muitos “Grundrisse”, provisórios, terão de ser arqueologicamente escavados.
A vasta correspondência política – e a epistolografia pessoal – constituir-se-á em arsenal para as lutas que virão. Diferentemente de seus “pares”, pouco se importava com editoras canônicas, revistas especializadas ou traduções redentoras. Edmundo vivia o que pensava e pensava o que vivia. Essa era sua “direção de vida” (Goethe). A direção (e sentido) de vida de Edmundo – como irredutível comunista e revolucionário – se põe/pôs com nervos e músculos, mentes e corações, pensamento e ação, de muitas e muitos estudantes, trabalhadores e intelectuais que ajudou a formar integralmente. Para além de produtivo autor – e de prolífica obra – Edmundo referenciava suas realizações político-intelectuais em pessoas de carne e osso. Como um marxista, crítico e revolucionário, sempre foi cientista social público, educador total e jornalista integral. Mas, sobretudo Pessoa que, como Fernando, era Pessoas e, não fosse assim, não seria. Foi grande, plural, maior que a vida. Não à toa gesto largo e intenção longeva. Não à toa capacidade de iluminar toda uma sala com sua presença. Não à toa aptidão de aquecer todo ambiente com tão só um seu sorriso.
Edmundo circulava pelos corredores do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp com camiseta estampada e calças surradas. Ostentava vasta barba grisalha. Trazia, em si e para si, o sinal dos tempos-espaços que o constituíram. Nunca vi Edmundo de terno e gravata. Enquanto seus (ím)pares ocupavam-se de engordar todo poderosos Currículos Lattes, pleitear bolsas-produtividade e/ou disputar posições no aparelho universitário, a mera existência de Edmundo no interior do sistema acadêmico constituía um perigoso lembrete do que a universidade brasileira já foi e daquilo que poderia vir a ser. Tinha verdadeiro pavor das burocracias sindicais, partidárias e/ou acadêmicas que perfazem o mainstream do cenário político-intelectual brasileiro. Uma certa feita, conversando com o camarada Valério Arcary, explicou o porquê de levar sempre consigo um botton, adesivo e/ou camiseta trotskistas em plena ilha de excelência “scholar” da Unicamp que este, preocupado e amigo, considerava, ao gesto, uma exposição desnecessária, maximalista, provocativa: “Você não está entendendo. Aqui eu sou obrigado a conviver com muita gente chata. Isso aqui é um verdadeiro amuleto espanta-chatos. Me poupa a polidez fingida, a odiável hipocrisia e, sobretudo, tempo livre. Já as pessoas interessantes não se sentem incomodadas. Sabe, é tal qual um talismã, um antivampiresco dente de alho”.
A profissionalização, burocratização e institucionalização da intelectualidade brasileira não fora de todo eficaz em descafeinar, amansar e apassivizar a alguns dos bons. Edmundo, óbvio, era um membro arredio desta camada social e política. Como poucos reteve a lucidez crítica e revolucionária a respeito das afinidades negativas entre as ciências sociais acadêmicas e a filosofia da práxis, em particular, e a Universidade e o marxismo, em geral. Neste sentido, foi um fiel herdeiro da verve crítico-satírica de Marx e Engels, os quais nunca ocuparam qualquer cátedra. O establishment enojava Edmundo e, é claro!, Edmundo incomodava o establishment. As regras do “bem falar”, do “falar bem de” ou – ainda e por fim – “falar em nome do bem”; premissas do consenso forçado dos “homens de bem”, nunca foram as suas. Não o espantava que fosse o mal falar e o falar mal de a etichetta – ou “ética pequena” – da pequena política de seus adversários. À micropolítica de corredores opunha a grande política de metanarrativa. Era além de um grande companheiro, um companheiro grande, de agudo senso de proporções.
Nos distintos tempos históricos e espaços sociais nos quais transitou, a ideia força que movia Edmundo era a da formação de um trabalhador intelectual coletivo que mobilizasse a teoria para “o quo podemos compreender” + “o que devemos fazer”, do conceito ao real, e a este retornando. Mais que um programa de pesquisas acanalhado à mera República de Letras, o seu marxismo ortodoxo envolvia um pensamento tendendo ao ser social e, ousada e ambiciosamente, tomava o Brasil e o mundo como um canteiro de obras dos subalternos. Edmundo foi o elo imprescindível para a transformação necessária das millieux socialistas e revolucionárias em um momento histórico em que o velho não acaba de morrer e o novo não logra nascer. Esboçou os contornos de um edifício em construção, facilitou a comunicação entre suas e seus construtoras/es, coordenou a divisão da tarefa coletiva e impulsionou o projeto de prévia ideação do trabalho conjuntamente organizado. Foi como a parteira de um rebento por vir. Sabia, contudo, das dores de parto.
Eram os ossos de seu ofício que hoje se nos é oferecido como legado de uma luta que não conhece fim fora de sua própria realização. A estrutura hierárquica do sistema universitário brasileiro, bem como suas tradições ultraconservadoras, perfazem contratendências inarredáveis contra qualquer intelectual coletivo. O espectro da mera reprodução de receituários, ou o “centralismo burocrático”, assombra… As notas em que Gramsci se dedica ao sistema acadêmico, e a crítica que faz à alienação entre docentes e estudantes – e à ausência, mesma, de algum contacto organizado –, podem ser coextensivas/contemporâneas à realidade vivida por intelectuais orgânicos recém-formados. A formação de intelectuais dos “de baixo”, como sempre insistiu, se faz à contracorrente. Não é tema fácil. E nem de longe se dá em igualdade de condições com os “de cima”. E no que diz respeito à autoformação da classe trabalhadora – permitam-me a comparação apaixonada! – o trabalho intelectual de Edmundo é equivalente ao melhor do ideário e imaginário socialistas ingleses. Edmundo Dias apresenta envergadura moral e intelectual dos cultural studies de um Raymond Williams, da history from below de um Edward Thompson e do political cinema de um Ken Loach. Seja como narrador épico ou historiador marxista, Edmundo é um mestre. Um mestre de obras. Um mestre-artesão. Suas obras-primas remontam a um saber-fazer coletivo, operário, autônomo. Tal Richard Hoggart, sabia que seus “uses of literacy” deveriam poder servir a Outro Amo.
São pouco conhecidos, até hoje, os parágrafos gramscianos sobre o modo de produção intelectual dos conselhos de redação das “revistas típicas” – que funcionam tal qual círculos de cultura – no que este, preservando as especialidades técnicas de cada um, exerce a crítica qual órgão colegiado, sintetizando um trabalho intelectual que, para além de pertencer a um domínio exclusivo da produção cultural, encontra-se – por meio e desde as suas tarefas teóricas e políticas, as mais amplas – continuamente à prova do diálogo crítico entre teoria e prática lato sensu e, enfim, constantemente reexaminada/revisada/revista. É este o “novo tipo” de trabalho intelectual – típico de centros democráticos – que emerge das intenções do autor. A assim chamada “educação de educadores”, em meio a sugestões recíprocas/autorreparos, observações metódicas/comentários críticos, põe e repõe a necessidade mesma de construir intransigentemente, qual princípio, a independência intelectual.
Não à toa Edmundo foi um entusiasta do modus operandi de Universidade & Sociedade, da revista Outubro e, em seus últimos momentos, alentava-se colaborador futuro deste Blog Convergência. Contra o sistema acadêmico elitista e um complexo midiático oligopólico, Edmundo inventariou a formação de uma nova camada de intelectuais públicos, plebeus e orgânicos ao mundo dos trabalhadores. Passar em revista exércitos envolve, mais que anedotas de caserna, eternal camaradagem em armas. A fundação mesma da Associação Brasileira de Educadores Marxistas – junto àqueles companheiros antifeurbachianos, da Unesp-Bauru – e o Manifesto do I EBEM [5] e os congressos da CSP-Conlutas – de Sumaré a Santos – e suas resoluções bem como, tal contou a Ruy Braga em seus estertores, a vontade férrea de ministrar cursos de formação à juventude do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, tinham este propósito. A bela tradição de formação/propaganda de Zinoviev, Lenin e Gramsci.
Gramsci. O nome sardo, de origem adriática, já não era desconhecido no país quando Edmundo – ao desencarcerá-lo do complexo categorial protoliberal e de sua versão euro-americano-comunista, levantando a poeira do senso comum acadêmico-jornalístico a respeito – aproximou-o da política brasileira, das lutas de classes na semiperiferia do capital e sua ordem e, enfim, da estratégica socialista aclimatada ao país. Em um só e mesmo movimento foi a obra de sua vida legar às novas gerações um Gramsci totalizante e dialético, comunista e revolucionário, reiventando, no/para o Brasil, um Outro Gramsci. A expressão “o Gramsci verdadeiro” causaria espécie ao bom e velho Edmundo. Não à toa não foi a de sua escolha. Sua ojeriza a canonizações de toda estirpe o fariam, certamente, alçar sobrolho por sobre as lentes dos óculos como, de fato, só ele lograva fazê-lo.
Se é verdade que ele se sabia parte da luta por um legado, é agora o seu legado o que se apresenta ao desafio da luta de hegemonias. Os deslocamentos nas relações de forças sociais e políticas de longa duração no país são critério ulterior para explicar e compreender a racionalidade histórica que possibilitou um tal feito. A formação mesma do juveníssimo proletariado brasileiro encontrou, no ritmo do pensamento de Edmundo, distintamente do ciclo temporal anterior de seu desenvolvimento, um intelectual à altura dos interesses imediatos e das necessidades históricas de uma classe in the making. A primeira versão do texto de seu livro, de 1984, dizia: “Que significado pode ter, hoje, no Brasil, uma reflexão sobre a formação do pensamento de Antonio Gramsci? Que sentido teria um estudo sobre Gramsci em um momento tão rico e contraditório como o que vivemos hoje?” (p.17) [6]. As pertinentes interrogações ao movimento do real destacavam, no interior da “questão democrática”, o que Edmundo chamou de a “questão operária”. O movimento do conceito traduzia filosófica, política e historicamente o devir, de contingente em necessário: o tempo histórico fora fragmentado/acelerado/convulsionado por novos personagens em cena.
Anos depois, trabalhos como os do cientista político Alvaro Bianchi (Unicamp), do historiador operário Carlos Zacarias (UFBA) e do sociólogo do trabalho Ruy Braga (USP) reapresentam um velho desafio em novas roupagens – o de reelaborar e tornar coerentes os problemas postos pelas massas, traduzindo e reinterpretando as lutas dos subalternos –, demonstrando-se-nos tal importantes conquistas do pensamento (e da ação) para a decifração do enigma de efígie da realidade contemporânea das lutas de classes nacionais e internacionais. Os não tão novos personagens ora alçados à razão de Estado – e ao Palácio do Planalto –, muito antes do que Os sentidos do lulismo (André Singer) ou mesmo Hegemonia às avessas (Francisco de Oliveira), receberam o devido combate teórico, e de próprio punho, em Política brasileira: embates de projetos hegemônicos (Sundermann, 2006). Em História e Revolução: das teses ao manifesto (Sundermann, 2011) Edmundo enfrentou a seguir os dilemas histórico-mundiais da “classe universal” debatendo-se com antediluviana relação entre teoria e prática.

Política brasileira (2006)

Mas, é a sua última obra – Revolução passiva e modo de vida: ensaios sobre as classes subalternas, o capitalismo e a hegemonia (Sundermann, 2012/2013) – a que melhor traduz as inquietações e anseios que mais afligiam a alma, irredutível e insubordinada, deste ateu irreconciliável em seus últimos momentos e, neste sentido, não é exagero considerá-la algo como um seu testamento teórico-político. No último trabalho lançado pela editora do partido que ajudou a construir, Edmundo expõe uma preocupação que de há muito lhe perturbava. Os temas e problemas da cultura, da cotidianidade e do modo de vida (“Byt”) no interior da esquerda socialista brasileira e mundial. Mais e melhor do que ninguém, Edmundo enfrentou praticamente todos os assuntos tabu que pode haver entre aquelas e aqueles de fato interessadas/os em mudar a vida e transformar o mundo. Em sua inquietação pela objetivação de uma subjetividade antagonista e pela subjetivação de uma objetividade independente do mundo daquelas e daqueles que nada tem a perder repousava um núcleo humano-societário que, qual partícula decisiva do destino histórico de todo ente-espécie, emulava o ser genérico.

Revolução passiva e modo de vida (2012)

Trata-se de um livro seminal, urgente e, sobretudo, um “anticlássico” por excelência. Explico-me. A palavra “clássico” pressupõe que – como observou Alvaro Bianchi, por conta de seu mais novo lançamento, o livro Arqueomarxismo [7] – um autor, ou obra, encontram-se “embalsamados” no passado, formam parte de um “cânone” ou, enfim, já se converteram em receituários a serem mimetizados (para todos os efeitos, o próprio conceito de “marxismo clássico”, de Perry Anderson, é uma contradição em termos). O que mais perturba, contudo, é o caráter conservador da ideia de “clássico”.
Em Latim a palavra “classis” indica uma das cinco divisões da população romana promovidas por Servius Tullius. Segundo o escritor Aulus Gellius, do séc. 2 a.C., o vocábulo “classici” designava àqueles homens que possuíam renda elevada, enquanto que os despossuídos restariam “infra class em”, qual seja, abaixo dos “classici”. O mesmo autor parece ter sido um dos primeiros a fazer uso da expressão “classicus” para referir-se a escritores, falando do “‘classicus assiduusque scriptor, non proletarius” que, em um exercício de livre tradução, quereria dizer algo como um “escritor clássico e abastado, não proletário”. Ora: não! Em primeiro lugar, pelo autor. Defendemos e reivindicamos o seu legado – do camarada Edmundo – como o de um cientista social público, da plebe, um intelectual orgânico ao mundo dos trabalhadores.
Em segundo lugar, pela obra, que, salvo um ledíssimo engano, é uma das mais potentes e imaginativas criações recentes do marxismo brasileiro e mundial. A assinatura indelével, de uma sua profunda originalidade, é resultado compósito de recíproca fertilização entre rigor e paixão. Mas, mais do que isso, é um momento dialético específico de sua produção. Edward Said [8], ao perquirir a fase tardia de distintos escritores (e, em especial, Theodor Adorno) chegou à conclusão de que a exposição e pesquisa sem peias são aquilo que melhor as distinguem. O lugar último donde falam já não mais arrogar-se-ia nem o argumento de autoridade nem a autoridade do argumento. Tratar-se-ia de uma espécie de ulterior “reino de liberdade” criativa. Desfeitos os nós mais prementes e respondidas as questões ao fim do dia, o que resta impõe-se, inclusive à redação e ao estilo, como forma nunca antes vista. Do velho deviria o novo, quando se precipita o começo do fim, que é onde – segundo consta o princípio esperança de Ernst Bloch [9] – reside a autêntica gênese.
Um dos mais afamados conceitos do quiçá mais citado intelectual no interior das assim chamadas ciências humano-sociais (i) e a categoria das mais obscuras do talvez mais outsider marxista no bem falar acadêmico (ii): Revolução passiva e modo de vida [10]. Antonio Gramsci, ou Nino, para um círculo íntimo; e Liev Davidovitch, ou Trotsky, para as vastas multidões. À problemática conceitual de “revolução passiva”, apropriação metódica de Antonio Gramsci da alta cultura teórica europeia, contrasta-se o complexo categorial do “modo de vida”, objetivação orgânica de Leon Trotsky da cultura de massas prática soviética. De um lado, a teoria-programa de dominantes aspirantes a eternos dirigentes e, de outro, o programa-teoria de dirigentes que anseiam (e ousaram!) abolir toda relação de dominação. Uma impostação programática a ser combatida, verso a verso, e um acento teórico a ser construído, golpe a golpe. Como poderia haver interação possível entre as reformas de cima para baixo impregnadas no que Gramsci reelabora como “revolução passiva” e as revoluções de baixo para cima pressupostas naquilo que Trotsky evoca sob o “modo de vida”? Que diálogo pode se dar entre o texto do cárcere fascista e o con-texto da insurreição soviética? A questão Gramsci-Trotsky, apesar da bibliografia produzida no mundo de fala inglesa, ainda está longe de ser amplamente conhecida no Brasil. Como dizia Edmundo: “Qui si convien lasciare ogni sospetto” (Dante Alighieri).
Os resultados parciais da fricção realizada por Edmundo roçam o agitador de pouco para muitos + o orador de multidões anônimas (Trotsky), e beiram o propagandeador de muito para poucos + o formador de próximos companheiros (Gramsci). Edmundo sabia transitar em ambos ambientes e, afora quando sua enfermidade já não o permitia, frequentemente o fazia. Curiosamente, levava algo de seu trotskianismo para tertúlias de salão miúdo e um pouco de seu gramscianismo para congressos de ginásio lotado. Sabia baixar e levantar a voz quando necessário e nunca concebeu a guerra de posições como excludente da revolução permanente. Era tanto algo próximo a um parlamentar comunista quanto um organizador de exércitos, e sempre compreendeu a Ocidente e Oriente em uma dialética interação. Edmundo era mestre, sobretudo, da dialética. O produto de sua crítica reflexão não é uma aborrecida historiografia-padrão ou metateoria social diletante.
Sua peça de resistência é uma vibrante, imaginativa e ousada forma-ensaio tal qual György Lukács e Theodor Adorno jamais lograram sequer nos mais delirantes sonhos. Se Edmundo abrira as picadas no interior da mata que conduziriam um programa coletivo de pesquisas à constatação de que Gramsci jamais fora stalinista ou simpatizante, nunca abandonara a estratégia revolucionária e, enfim, em momento algum defeccionara à insurreição socialista desde seu primeiro escrito; suas últimas linhas tem o céu – sob/por assalto – como limite a ser ultrapassado. Para leitores sérios de Gramsci e Trotsky é claro que o gramsciano “Americanismo e fordismo” não poderia vir-a-ser sem o trotskiano Europe & América (por primeira vez traduzido aqui pela Sundermann, em 2008, sob título de Imperialismo e crise econômica mundial) e o trotskiano “O futurismo” não seria o mesmo sem os comentários de crítica literária gramscianos. Diferentemente da geração catedrática que lhes sucedeu, os marxistas revolucionários desenvolveram vasta correspondência – apesar e contra o limitado (e angustiado) tempo livre, a menor sistematização filosófico profissional e um amador conhecimento de idiomas – que não encontrou paralelos. O que Perry Anderson chamou de o “paroquialismo teórico” de intelectuais do porte de um Sartre ou Horkheimer encontra pálido, nanico, e, patético reflexo, nas correntes marxistas da universidade brasileira.
A forma-ensaio de Edmundo pode não usar de escrita automática ou livre-associação de ideias – e sequer flertar com a noção de “acaso objetivo” – mas é uma autêntica realização sûr-real. É obra de um escritor teórico gramsciano que ajudou a construir uma organização política trotskista. É algo próprio de quem educou como quem faz política e fez política como quem educa. É tão deslocado quanto um militante na academia e um acadêmico no sindicato. Faz parte da alma comunista de quem defende o “movimento espontâneo” perante a “direção consciente” e vice-versa. É tal qual fora de lugar quanto pode ser um revolucionário em um momento histórico de passivização. Versa sobre a luta antimanicomial tanto quanto o Black Panther’s Party for Self-Defense. Assunta o Autumno Caldo mais a “imaginação no poder”. Fala sobre aparelhos privados de hegemonia + aparatos estatais de coerção. Do discurso do poder ao poder do discurso, Edmundo Dias recoloca a questão que seu tempo impõe, e ensaia reelaborar a interrogação já de sobra conhecida – “Pode o subalterno falar?” (…) –, a partir de uma problemática teorética e praxiológica que desconhece anátemas entre verbo e ação, mãos e cabeças, atividade e consciência.
Seu ensaio é surreal. Pela paleta de cores e a máscara de texturas que mobiliza, a filigrânica consistência dos detalhes que tece, pelo inusitado – e, às vezes, insólito – de seu registro. É nada menos do que surreal a combinação explosiva entre sofisticada profundidade e popular extensão dos temas e problemas que trata. Por detrás da aparente diversidade temática, a essencial unidade teórica: não é possível escapar-se, por simples decreto, dos efeitos reais da subalternidade e, tampouco, por uma mudança de vocabulário, léxico ou “discurso” dominante, se a realidade das relações de forças não for, em nada, transformada. O recado, singelo, de Edmundo, já fora anunciado de diversas formas. Goethe e Luxemburg, antes de Edmundo, já insistiram sobre o novo evangelho dialético no qual “no principio era a ação”. Muitas e muitos anteriormente ao autor já insistiram no nexo inexpugnável entre teoria e prática, economia política e modo de vida, austera determinação estrutural e motivação subjetiva geradora. Mas nunca tal esse verdadeiro mestre dialético da semiperiferia. Seu ensaio é um aviso de incêndio, um anjo da história, um freio de emergência.
Edmundo inventariou aí grandes pequenas recusas e resistência parcial – gênero, etnia, sexualidade – reenviando-as para a lógica total do governo do capital. Reatou, delicadamente, o assunto da pluralidade do homem e da multiplicidade do eu ao ser genérico do ente espécie. Mas, o que permitiu a Edmundo igual proeza surrealista contra a razão instrumental? Falar sobre sua obra é, enfim, falar sobre sua vida. E camarada Edmundo foi ser humano singular. Irrepetível. Mas foi, também, um homem comum (que digam feministas socialistas que, por vezes, repreenderam seus costumes típicos do século passado…). Reza a lenda que um velho do Povoado de Neguá, da costa colombiana, conseguiu subir lá no mais alto dos céus e, à volta, recontou a façanha. Disse que tinha contemplado, lá de cima, toda a vida humana. E disse que somos como um mar de fogaréus. O mundo é isso, revelou. Monte de gentes. Mar de fogos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria, entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos. E fogos de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem se inteira do vento. E existe gente de fogo louco, que enche o ar de centelhas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros, ah!, outros ardem a vida a tantas ganas que não se pode olhar sem pestanejar e, quem se aproxima, se incendeia.
Quem me contou isso – tête a tête – foi Eduardo Hughes Galeano, em uma tertúlia pública de Porto Alegre. Quem recontou isso a Edmundo Fernandes Dias, bem de perto, fui eu mesmo, numa das prazerosas tardes em que partimos pão em sua casa-oficina, como gostava de chamar sua própria moradia em Barão Geraldo, a poucas quadras do sindicato e da universidade que ajudou a construir. Intelectual sem modos – modos de ser e agir, roupa e cabelo, falar e pensar –, não sentia vergonha de ser tal qual era. Sentia, aí sim, algo da castelhana “verguenza ajena”. Para os arautos da Ordem, será sempre gentuça, patuléia, ralé… Conheci Edmundo na primavera de meus dezessete anos – junto de meu primeiro amor – e me deixei incendiar. Seu legado é uma centelha e, como toda centelha, é capaz de incandescer. Nunca há de se apagar. Edmundo será lembrado como deve, isto é, alguém que ardeu a vida e a luta com tantas ganas que sua luz e calor serão, hoje e ‘fur ewig’, uma pira a ser repassada de geração em geração, como o aceso fogareiro de um Prometeu singular, irrepetível e Comum. Comunitário. Comunista. Ciao Edmundo. Ciao compagno. Oh, Bello Ciao | Bello Ciao | Ciao, ciao, ciao…[**].

"(...) educou como quem faz política e fez política como quem educa"

[*] Publicado originalmente em http://blogconvergencia.org/?p=1542
[**] A canção revolucionária “Bella Ciao” era uma das prediletas do comunista Edmundo. A figura anticlássica do taumatúrgico “Partigiano” (companheiro que partilha, aquele que toma partido e/ou camarada em armas) não só remonta historicamente às batalhas antifascistas como ressoa e reverbera filologicamente à sua própria persona. Não bastasse isso, a própria palavra italiana “Ciao”, incorporada plenamente ao português do Brasil, na forma “Tchau”, bastaria. Em seu uso cotidiano na península itálica pode servir tanto para aquele que se despede e vai embora quanto para o que chega e cumprimenta. Em vários idiomas europeus há um vocábulo próprio para a expressão “Até mais ver” (Aurrevoir, Arrivederci etc.). Na ausência deste em português, “Tchau” não deixa de constituir alternativa de menor gravidade, pompa e circunstância ao terrivelmente solene, definitivo (além de, inapelavelmente, deísta) “Adeus”. Ciao Bello, inverte a ordem e intercambia o gênero, subvertendo-os. O novo título – em sua relação forma-conteúdo – traz, portanto, algo do pícaro leoncastelhano, do trickster anglo-saxônico, do malandro carioca que Edmundo soía encarnar quando dizia preferir perder o amigo a perder a piada. O velho-jovem, bell’partigiano, não se furtaria a fazer ecoar e repercutir a sua tão característica gargalhada de corpo inteiro. Para logo depois, com expressão facial a mais séria possível, dizer-nos que piada não se explica. “O senso de humor”, dizia, “é uma invenção da economia moral da plebe; e é uma herança da revolução proletária”. A dor de sua perda foi motivo de lágrimas. A alegria de sua lembrança merece um sorriso.

Intervenção nos 30 anos do Andes-SN:

Notas
[1] MARTINS, Sueli et al. Método Histórico-Social na Psicologia Social. Vozes: São Paulo, 2005 [vide transcrição da palestra (Notas) sobre o marxismo contemporâneo de Edmundo Dias, para o assunto “ortodoxo”].

[2] NEGT, Oskar and KLUGE, Alexander. The Proletarian Public Sphere and Experience: towards an analysis of the bourgeois and proletarian public sphere. Minneapolis: Minnesota University Press, 1993.

[3] DIAS, Edmundo. “A Liberdade (Im)Possível no Capital: reestruturação e passivização”, Textos Didáticos, nº 29, IFCH/Unicamp: 1997.

[4] A elogiosa comparação do livro-tese de Luiz Fernando da Silva – de cuja defesa Edmundo compôs banca examinadora – às obras de Vladimir Lenin e Perry Anderson é de autoria do próprio mestre.

[5] SILVA, Célia Regina et al. Marx, ciência e educação: a práxis transformadora como mediação para a produção do conhecimento, mimeo, Unesp-Bauru: 2005 (Carta de Bauru/Manifesto I EBEM).

[6] DIAS, Edmundo. Gramsci em Turim: a construção do conceito de hegemonia. São Paulo: Xamã, 2000.

[7] BIANCHI, Alvaro. Arqueomarxismo – comentários sobre o pensamento socialista. Alameda: São Paulo, 2013.

[8] SAID, Edward. Estilo Tardio (e últimas obras). Companhia das Letras: São Paulo, 2009.

[9] BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança. Vol. I | Vol. II. Rio de Janeiro: Contraponto, Ed. UERJ, 2005-2006.

[10] A Editora Sundermann reeditou, recentemente, a obra síntese Questões do modo de vida | A nossa moral e a deles (2009) + as últimas palavras de Leon Trotsky após o ataque mortal desferido pelo stalinista catalão Joan Mercader (a esse mesmo respeito leia-se o excelente romance histórico O Homem que adorava cachorros, 2012, Leonardo Padura), infelizmente, sem a belíssima prefaciação de Anatole Kopp que constava da tradução lisboeta da edição parisiense. Nosso querido amigo, Deni Rubbo, em amável resenha ao material, sugeriu que os autores do assim chamado “marxismo ocidental” teriam aprofundado o labor dos pioneiros arqueomarxistas em temas e questões tais como a cultura, a cotidianidade e o modo de vida (com maior desenvoltura, sistematicidade e profissionalismo) – qual Lukács, Adorno, Lefebvre, Heller, Kosik etc. – mesmo sem os traços da paixão crítico revolucionária destes, e o marxismo que lhe antecedeu ter-se-ia circunscrito à economia política anticapitalista. Quem discorda amigo é. Não poderia ter juízo mais diametralmente oposto a este. O cárcere e o exílio, os sovietes e os conselhos, a guerra e as revoluções foram melhores companheiras de viagem do pensamento marxista mundial do que se provaram os assentos escolares, sobre toda e qualquer esfera da vida a qual se possa arguir. Muito embora as antinomias do próprio Perry Anderson – ocultamente reveladas na designação de “clássicos” às obras e autores do marxismo mais “não-não-proletário” que já houve sobre a face do planeta –, sabemos que este é o pensador capital a estabelecer os contrastes entre as mudanças formais e inovações temáticas trazidas pelo advento do “marxismo ocidental” e o que, de modo duplamente conservador, classifica como “tradição clássica”. Até hoje, os escritos de Anderson, e do conselho editorial da New Left, seguem as mais profundas e extensas análises de conjunto sobre esta heterogênea vertente da quarta geração de autores marxistas mundiais; e o seu vaticínio é inequívoco: “A tradição nascida com Trotsky constitui assim um pólo antagônico, nos aspectos mais essenciais, àquele do marxismo ocidental. (…) Falava uma linguagem da clareza e da urgência, e a sua melhor prosa possuía, nada obstante, uma qualidade literária igual e/ou superior à de qualquer outra tradição” (p.119). Tanto no que se refere a um minucioso desvelamento das tendenciais leis político-econômicas deste sistema metabólico social e um vivaz interesse pelas estratégia e tática para além d’O Capital quanto a assuntos tão heteróclitos quais o suicídio ou a Cabala, nada do que é humano foi estranho à pena do arqueomarxismo pioneiro. Enquanto o destino de uns foi o de cargos acadêmicos e prestígio intelectual, o de outros foi o assassínio infame e a proscrição absoluta. Concordamos com Anderson quando ele diz que nos trilhos férreos a caminho de qualquer renascimento do marxismo crítico revolucionário em escala internacional (p.120) e em qualquer cultura de classe socialista futura (p.124) há de se passar pelas estações da herança teórico política de Leon Trotsky e pelos estudos histórico-culturais de Raymond Williams. Quanto ao evidente valor cognitivo da teoria da cotidianidade de uma Agnes Heller ou de um Lucien Lefebvre, por exemplo, nossa hipótese diretiva é, em outro sentido, baseada no historicismo crítico, radical e “absoluto” de um Antonio Gramsci. As vagas revolucionárias mundiais de 1967-1975 – os “anos das barricadas” (Tariq Ali) –, parece-me, são elemento decisivo do elã cultural que possibilitou historicamente uma revaloração teórico-temática da cotidianidade nos termos que o Maio de 68 exigiu à filosofia de sua época. São placas tectônicas destes verdadeiros anos incríveis que explicam as perturbações de superfície. Por fim, é justo assinalar que a forma e o sentido projetados d’além-resenha, pela escrita carinhosa e urgente de Deni, colaboram – independentemente de nossas apreciações; adjetivamente diversas e substantivamente unas – com o propósito de dar a conhecer vocabulários marxistas distintos ao pessimismo, à consolação e à impotência. Como bom amante do marxismo-militante, Deni é pródigo em afirmar o interesse de Trotsky por temas de crítica literária e psicanálise freudiana, surrealismo francês e cinema soviético, estudos de linguagem e a questão da mulher, além de versar sobre a arte militar e a crítica ao fascismo, formular a teoria do desenvolvimento desigual e combinado e desenvolver a teoria da revolução permanente, fundar um internacionalismo metodológico e afirmar a centralidade filosófica, política e histórica do que um jovem Marx denominaria a práxis revolucionária (In: ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental, São Paulo: Boitempo, 1976 | 2004). O marxismo ocidental encerrou o seu ciclo histórico. O marxismo revolucionário é contemporâneo ao tempo presente. Esta obra, há muito esgotada, ressurge das cinzas pelas firmes mãos político-editoriais da Editora Sundermann em nova e mais atenta tradução e uma capa que fala mais que mil verbos: Trotsky pescando (“nem só de política vive o homem”). Para marxistas que consideram a dialética algo mais que um “método de análise de textos” e não se comprazem em “picar o aço marxista”, trata-se de uma boa nova bastante inspiradora.



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