sexta-feira, 6 de maio de 2016

A crise política brasileira

Ensaio
Recebido em 25 de abril de 2016
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.

O símbolo da justiça em frente ao Supremo Tribunal Federal

Neste último fim de semana, um amigo e editor de blog me perguntou se estava tudo bem. Se for possível separar a vida privada da vida pública, posso responder que sim. Afinal, a vida de professor não é tão ruim como se pensa. Mas se pensarmos da perspectiva da vida do cidadão brasileiro, aí a coisa muda de figura. Não há quem não sinta um verdadeiro asco da política brasileira. Nem sequer o Senado instalou a comissão que vai decidir sobre a admissibilidade do pedido da Câmara sobre o afastamento ou não da Presidente Dilma, reconhecidamente ilegal, os conspiradores se movimentam impudentemente para formar um novo governo, distribuindo cargos, nomeando ministros, anunciando agendas e procurando convencer o mundo de que o que foi feito, foi de acordo com a Constituição do país. Falta, naturalmente, acordar com o povo brasileiro, que deu 54 milhões de votos à Presidente da República. Transformar um golpe de mão, mesmo embalado numa pseudo-legalidade, não é fácil. Sobretudo no ambiente de suspeição interna e externa ao Brasil. É possível que os aliados de Temer e Eduardo Cunha achem que, na ausência de apoio popular, podem simplesmente reprimir pela força as manifestações de protesto que pipocarão pelo país, de ponta a ponta contra a manobra golpista.
A essa altura vão ficando claras as reais motivações do golpe. Elas nada tem a ver com qualquer fundamento legal ou jurídico. Trata-se de uma imensa coligação de interesses espúrios, antirrepublicanos, que conjuga a crença na impunidade do Judiciário e da Polícia Federal em relação aos deputados e senadores hoje investigados, o revanchismo da oposição e a ambição do senhor Michel Temer de se tornar Presidente do Brasil a qualquer preço. A manobra vai custar caro ao povo brasileiro. Ela deve radicalizar o corte orçamentário (o chamado superavit primário) para agradar os portadores da dívida pública brasileira, os bancos, a plutocracia da Avenida de Paulista, os evangélicos e sua agenda reacionária, os agroexportadores e as empresas multinacionais, de olho no que resta do patrimônio público nacional, a ser oferecido por Temer e seus asseclas na bacia das almas, a preço de banana, como contrapartida ao endividamento do país.
Ninguém espere tranquilidade ou pacificação neste governo de traição. Tanto os movimentos sociais progressistas como os deputados e senadores fiéis à Constituição prometem obstruir as votações dessa agenda iníqua, antipopular e antinacional. Deve-se esperar um governo refém dos interesses que o ajudaram e uma imensa dificuldade de convencer à sociedade que dispõe de legitimidade para encaminhar propostas que tirem o país da crise econômica e social. Os acenos que serão dirigidos aos setores de cima, como forma de quitar a fatura do impeachment agravarão a crise dos de baixo, a estabilidade do emprego, a garantia de que as dotações orçamentárias para saúde e educação não seja ameaçada.
E o Judiciário, o que tem a dizer sobre isso? Vai cruzar os braços e dizer que o processo é de competência do Legislativo e que não interfere, mesmo diante de flagrantes ilegalidades ou vícios de origem? Os nossos magistrados terão que assumir a sua parcela de responsabilidade pelo que vier acontecer ao país. Quando há uma evidente crise nos demais poderes, a judicialização das questões políticas é inevitável. Se furtar dela é entregar o país ao caos, à ingovernabilidade, à força dos mais fortes, dos mais poderosos, não necessariamente dos que estão com a razão.

Temer (PMDB) poderá ser o 1º presidente ficha-suja

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