sexta-feira, 29 de abril de 2016

Relatos de uma avó

Ensaio
Recebido em 29 de abril de 2016
Por Roselle Siqueira, aposentada de tudo, inclusive da luta, mas que está voltando por causa do Grupo de Idosos 'Alegria de Viver' Sancho-Totó.

Luta pela desativação do "Presídio Aníbal Bruno",
situado no bairro do Sancho em Recife-PE

Minha profissão? Sou do lar, pelo lar e para o lar. Idade? Mais de 70. O que está me acontecendo? É que depois de mais de 40 anos morando na mesma casa, comprada com o sacrifício de toda a família, vem o Paulo Câmara e Pedro Eurico querer derrubar nossas casas para tentar resolver o problema do Complexo Prisional do Curado. Lá existem 7000 detentos onde cabem apenas 2000. Depois que o Aníbal Bruno foi dividido em três para se transformar em Complexo, sem nenhuma ampliação do espaço interno, foi que as populações do seu entorno começaram a sofrer. Vejo todo dia a retirada de cadáveres de dentro do presídio e o arremesso de armas, drogas e celulares para dentro dele, e isso feito por jovens aliciados na nossa comunidade.
E a nós, do lar, o que vai nos restar? Nada. Fico em casa chorando? Não, vou protestar. Fui lá na Assembleia Legislativa, onde nunca entrei, cobrar dos deputados e do Governo. Fui lá na Praça do Arsenal, na Secretaria de Justiça, falar para Pedro Eurico, que me criei no bairro e que o presídio é que avançou em cima da minha casa, meu lar, e não eu em cima do Presídio. Diante da resposta sorridente dele, Pedro Eurico, de não aceitar nossas propostas de negociações, saio em passeata arrastando minhas dores, físicas, emocionais e morais, pelas ruas e pontes até o Palácio do Governador para arrancar uma negociação. Estou indo com os jovens, que felizmente param e sentam no chão para parar o trânsito, o que me dá uma folga nas dores do caminhar. Votei nele, Paulo Câmara, mas estou arrependida.
Eu sou cristã, mas tenho usado palavras nunca dantes ditas para xingar Paulo Câmara e Pedro Eurico. A comissão entra. Não estou me sentindo bem. Pego uma carona com uma alma piedosa e volto para casa. Hoje cedo quando fui botar o lixo na calçada, uma jovem me falou que o governo pediu para fazermos uma proposta. Amém. Graças a Deus. Agora vão nos ouvir.
Mas se isso não der certo, vou acampar na porta deles. Quem quiser que passe, limpe e cozinhe. Agora não quero mais só a minha casa, quero o presídio fora do meu bairro, fora das nossas vidas.

Roselle Siqueira, 61, historiando a amiga Detinha de mais 70 anos.

2 comentários:

  1. Muito bom Roselle, nossa luta está perfeitamente representada por essas mulheres que se descobriram poderosas como minha mãe Valdete França com 70 anos, mulher/mãe/amiga de quem sempre me orgulhei e agora me orgulho muito mais.
    Nos manteremos na luta.
    Ursula Barbosa

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