quarta-feira, 6 de abril de 2016

Para onde vai a esquerda?

Ensaio
Recebido em 28 de março de 2016
Por Alex Bandeira, ex-militante metalúrgico da Convergência Socialista/PSTU. Foi fundador da CUT e do PT. É atualmente ativista da Insurgência/PSOL.

Lula discursa em ato contra 'impeachment' na Avenida Paulista/SP

O que está em jogo é a capacidade de o proletariado lutar pelo seu lugar na história. Não é a primeira vez que as organizações que se reivindicam com ideário socialista se fragmentam na primeira curva dos grandes acontecimentos da luta de classes. O impressionismo dá lugar aos simples cálculos da resposta imediata. As ideias episódicas, de improvisação, surgem rapidamente sob a pressão dos acontecimentos. Foi uma vitória apertada que conduziu ao segundo mandato Dilma Rousseff.

Entretanto, as urnas nos estados não tiveram tanta sorte e as expectativas institucionais do petismo não se confirmaram. A polarização eleitoral envolvendo PT-PSDB terminou proporcionando um avanço de setores conservadores no Congresso.
No meu ponto de vista, isso representou, de forma distorcida, a realidade de um governo que enfrentou nas ruas a juventude e uma parcela importante do proletariado precarizado que protagonizaram as espetaculares manifestações de junho de 2013. A combinação de não ter alcançado as metas eleitorais e o esgotamento do modelo econômico desenvolvimentista – baseado num programa de exportações das commodities, preferencialmente para o mercado chinês, IPI zero e expansão de crédito subsidiado pelos bancos públicos, que embalou os bons momentos da economia – chegou definitivamente ao fim. A situação levou o governo a adotar medidas ainda mais recessivas em direção ao ajuste fiscal.
Essa crise se torna ainda mais profunda, com os índices de inflação fechando o último quadrimestre com 11,28%, seguida de perto pelo desemprego na casa do 10%. O retrato do mercado de trabalho para 2016 promete, até o final do ano, queimar 2,2 milhões de postos de trabalho com carteira assinada.
Sem nenhuma credibilidade, o governo Dilma (PT) navega à deriva. Por outro lado, a oposição de direita tenta capitalizar as insatisfações da classe média branca e conservadora. O que realmente podemos afirmar é uma profunda crise de regime das instituições da democracia burguesa, crise que deve ser compreendida pela impossibilidade de um acordo político entre as várias frações da burguesia com o lulismo, que não consegue manter a direção de uma coalizão num governo de frente popular. Nessas circunstâncias, não é mais possível uma saída negociada diante da crise econômica e dos escândalos de corrupção que solaparam a base popular do governo. Por esse motivo, o desembarque do seu principal aliado, o PMDB, passou a ser iminente.
A entrada de Lula no governo é a última cartada possível de tentar recompor a base governista. Sua chegada tem gosto de antecipação de um terceiro mandato em meio à brutal crise de representatividade. Na medida que mais se aprofundam as investigações da Operação Lava Jato, maior é a dificuldade para uma possível recomposição através de acordo político dentro da base aliada do ex-presidente.
A direita, percebendo o que representaria a chegada de Lula, colocou todos os esforços junto ao Judiciário, via Sérgio Moro e seu operativo seletivo nos casos de corrupção no país. Atropelando os ritos processuais num verdadeiro “vale tudo” para impedir a nomeação de Lula à casa civil, o exagero na conduta de Moro era tudo que o governo queria. De maneira habilidosa, a chegada de Lula trouxe consigo a “defesa da liberdade democrática” e o “não vai ter golpe” como um sinal de igualdade na permanência do governo Dilma-Lula.
Os estardalhaços de um golpe fascista que estaria em curso, criado pelo governo, soou para amplos setores de massas como um retrocesso no regime, o que inclusive já vem sendo implementado gradualmente pelo próprio governo com a lei antiterrorismo, que naturalmente ficou de fora das manifestações chamadas pelo lulismo no dia 18 de março na Avenida Paulista e capitais.
Com isso, passaram rapidamente a recompor a base dos movimentos. O apelo teve ressonância em parte da esquerda do PSOL e MTST que, atraídos pelo canto de sereia, confirmaram já estar no mesmo campo da Frente Brasil Popular. Claro, com críticas pontuais e fraternas.
Reafirmo que não há golpe militar ou bonapartista em curso. Não existe um esquema preestabelecido para qualquer que seja a realidade. Porém, quero afirmar que vivemos uma crise profunda de regime que, dependendo dos acontecimentos, pode evoluir independente da saída do governo Dilma-Lula, pois o pior aspecto continua sendo, ainda, a falta de alternativa pela esquerda para as massas trabalhadoras.
Primeiro: mesmo que se abrisse uma ascensão de massas espontânea, não teríamos condições de disputá-la e de tornamo-nos protagonistas. Segundo: não há uma ascensão que busca romper a ordem institucional estabelecida no pacto social desde a Nova República com a Constituição Cidadã de 1988. Uma resposta vinda dos quartéis não estaria na ordem do dia.
Terceiro: não surgiram setores de massa independentes do governo que apontem para uma saída através de um caudilho; nem pela direita, nem muito menos de esquerda incompatível com atual regime. Quarto: mesmo com o impeachment patrocinado pela direita com apoio do PMDB com características de um golpe institucional do tipo Lugo no Paraguai, o cenário mais provável é que o PT aceite as regras do jogo e participe da transição política e que a Frente Brasil Popular esvazie os atos ajudando no que for possível, contendo os insatisfeitos na sua base social em nome da democracia burguesa.
O marxismo é uma ciência que define os governos pelo seu carácter de classe, e a partir daí busca as diferenças que possam existir entre eles. O emaranhado de razões falsas e impressões episódicas confunde o melhor da vanguarda. A verdadeira razão para levarmos as tarefas urgentes de nosso movimento consiste na independência política diante da polarização entre esses dois campos. Além disso, devemos construir um terceiro campo da esquerda socialista, sem vacilação, com o firme propósito de se apresentar como alternativa política para classe trabalhadora.

Aécio e Alckmin (PSDB) são hostilizados em ato a favor do 'impeachment'

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