terça-feira, 12 de abril de 2016

Misturar alho com bugalho…

Ensaio
Recebido em 05 de abril de 2016
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Dilma discursa após vitória eleitoral em 2014 

Não por acaso as esquerdas em geral continuam fazendo uma grande confusão quanto à conveniência de se defender, ou não, a democracia tal como ela se apresenta, validando o “Estado Democrático de Direito”. É o que tem ocorrido no presente em toda a América Latina e no Brasil, em particular, tendo em vista o ressurgimento do populismo que, devido as suas próprias limitações, depende (tão somente) da aplicação de uma política de conteúdo social-liberal. Enquanto isto, na outra ponta, viabiliza a cooptação de grupos sociais organizados com discursos falaciosos e, desse modo, leva–nos a uma falsa polarização e a um intrigante “beco sem saída”.
Todavia, evidente está que não deixa de ser uma premência vital a clara opção por não se conviver novamente com regimes ditatoriais, nos quais as liberdades “ditas” democráticas e de associação, são tolhidas e cerceadas, em todos os níveis. E, em consequência, numa situação dessas, todos os que lutam por melhoria das condições de vida e emprego, bem como pela imprescindível transmutação da sociedade capitalista, ficam encurralados e desprotegidos no dia a dia, com sérios obstáculos para viabilizar um trabalho de conscientização das massas e, especificamente, da classe trabalhadora. Um contexto crucial no qual militantes políticos opositores passam a ser submetidos, covardemente, a perseguições, prisões, torturas e assassinatos, em decorrência das arbitrárias e permanentes ações repressivas.
De outro lado, a alardeada Democracia – como um conceito universal já aprovado – não deixa de ser um instrumento útil ao possibilitar variadas formas de organizações e permitir o “livre exercício do direito de expressão”. Contudo, quando em situações de crises graves que podem colocar o sistema “em xeque”, o uso da força se faz indispensável para os conservadores. E aí, não custa nada acionar os órgãos de segurança e as Forças Armadas para restaurar e assegurar o pleno domínio de classe, implantando-se, se for preciso, um regime de exceção, uma Ditadura. Ocasião esta que servirá como possível justificativa de resguardo do Capitalismo que, eventualmente, está sendo questionado e até “ameaçado” em sua vigência institucionalizada, segundo a interpretação feita pelos que querem manter o “status quo” a todo e qualquer custo.
Isso, não obstante, faz parte da conhecida estrutura “democrática” do Estado regulamentado, mas que só existe na prática para se colocar sempre a serviço das classes dominantes, da burguesia, enfim. E, por conseguinte, quando um representante e/ou seu partido não têm mais credibilidade para respaldar os interesses do Capital, o sistema logo vai procurar afastá-lo do “poder administrativo” e buscar outro para ocupar o lugar. Seja através de novas eleições, ou de dispositivos institucionais, alocados na Constituição para serem aplicados em algumas circunstâncias. É um mecanismo que será utilizado pelos setores hegemônicos que detêm o poder real e que governam de fato, operando de forma pragmática as crises. Isto é, os conglomerados financeiros e as corporações empresariais, principalmente.
Por isso, tem-se que ficar por fora dos apelos de defesa da “democracia consentida” e de “governos híbridos” como se isto fosse a única alternativa exequível para os movimentos sociais e demais excluídos. Em contrapartida, propõe-se não enganar nem iludir ninguém, pois o compromisso maior deve ser com a verdade política e o providencial trabalho didático, desmistificando o que acontece no seio da luta de classes sem subterfúgios.
Então, esse não deixa ser, portanto, um bom momento para se processar informações e esclarecimentos que se fazem necessários. Pois, não se trata de se defender a “democracia” de forma abstrata, visto que o que está em jogo é a necessidade de organização autônoma e independente da classe trabalhadora e não a de colocá-la “à reboque” da burguesia e seus prepostos. Ora, nada se tem a ver com a disputa entre partidos que defendem a ordem vigente e que dela se beneficiam, e muito menos com os processos eleitorais, nos quais se mente e se faz promessas que não serão cumpridas. Um engodo! Uma farsa que precisa ser desconstruída para quem ainda acredita em mudanças de profundidade através de eleições, onde votos são canalizados para uns enquanto se elegem outros, devido ao coeficiente eleitoral partidário.
À esquerda socialista e anticapitalista, cabe a tarefa revolucionária de não enganar as massas, estimulando e ajudando no processo de estruturação pela base, sem nenhum controle sobre as suas próprias iniciativas. Ou seja, vale só estimular e colaborar para que se efetivem novas experiências na direção das transformações política e social, visando-se a perspectiva de construção de uma sociedade que seja justa, fraterna e igualitária.
E, com certeza, nessa luta renhida e sem tréguas contra um regime falido, mas que ainda tem sobrevida e continua tão predatório quanto antes, não se deve misturar jamais “alhos com bugalhos”.

Presidente e vice unidos antes da ruptura do PMDB com o governo

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