segunda-feira, 25 de abril de 2016

Borges, o obscuro?

Ensaio
Recebido em 08 de novembro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

Tela do escritor e poeta Jorge Luis Borges

Borges dizia que a sensação visual advinda de sua cegueira em nada se comparava à escuridão. Ao contrário, reflexos de várias tonalidades, cores fortes embaçavam e acompanhavam o ofuscamento de sua visão. Os desencantos políticos, amorosos e, por fim, a perda da visão, deixaram marcas profundas no ser humano Jorge Luis Borges. Em seu livro de poesia O outro, o mesmo é nítida a referência a Heráclito, pré-socrático conhecido como o obscuro. Ao remeter-se ao pai da dialética, não estaria Borges reconhecendo o próprio estigma da obscuridade? Tal consciência, tal sinceridade, não seria um acerto de contas de Borges com a posteridade, já que o passado não pode ser refeito?


A biografia escrita por Edwin Williamson, Borges, uma vida, revela detalhadamente os sofrimentos do jovem Borges em relação aos amores e à política. O próprio Borges tenta se redimir de seu apoio à ditadura argentina evocando sua situação de saúde, que não lhe permitia ter acesso aos jornais e acompanhar de perto o cotidiano político. Mas basta conhecer um pouco a obra de Borges para não nos iludirmos com suas desculpas. Ele era um discípulo de Nietzsche e Schopenhauer, um romântico anti-iluminista defensor do conservadorismo político e contrário aos ideais libertários. Mesmo assim, autores com García Márquez e Cortázar o admiravam bastante e tinham nele uma referência literária de primeiro plano.
Borges assume que se arrepende de apoiar os militares argentinos, assina um manifestos em solidariedade aos parentes de presos políticos e escolhe Genebra como autoexílio para esquecer os traumas vividos em Buenos Aires. Talvez ele realmente tenha sido um obscuro. Não nos cabe aqui condenar Borges; mas ele tinha plena consciência de suas contradições, deixando-nos vestígios para compreendê-las. Antes de perder a visão, o amor parece ter cegado Borges. As paixões políticas e os debates estéticos também revelam o traço febril de sua personalidade, tanto marcada pelo elitismo cultural. Ele era chamado de o acadêmico mesmo sem nunca ter frequentado estabelecimentos formais de ensino. Tinha pelo apreço aos arrabaldes da capital, onde apreciava as milongas e os tangos.
Não é possível compreender a visão política de Borges sem reconhecermos que o acaso, os sonhos, a tragédia pessoal e os desencontros o conduziram para o extremismo político. Talvez toda a obra de Borges seja um grito contra os desencantos, uma fuga desesperada da realidade, algo que nenhum vanguardista ou modernista conseguiu realizar como ele. Não tomar a vida concreta de um homem para compreender sua visão política é um grande erro para os críticos da cultura. Não obstante, Marx reconhecia a grandeza de Balzac, mesmo discordando de seus posicionamentos políticos. Borges foi um grande escritor porque revelou as profundezas dilaceradas da alma humana. A cada mergulho que Borges realizava no abismo, nos contava um pouco como era sofrer e penar sem esperança. Por maior que seja sua alienação política, encontramos em Borges um sincero escritor que não ocultou seus dramas, suas tragédias e que não teve vergonha de se arrepender de seus erros políticos, erros que ele próprio atribuiu à sua cegueira: “Toscas nuvens cor de borra de vinho aviltarão o céu; amanhecerá em minhas pálpebras apertadas”.

Uma das edições de 'Ficções', de 1944

Um comentário:

  1. Prezado Gutemberg, saudações. Umberto Eco na sua obra monumental: "O Nome da Rosa", apresenta um personagem enigmático. Trata-se dum monge sábio e cego conhecedor da quarta poética (?) de Aristóteles. Texto, se existiu, esquecido nas brumas do tempo. Tal escrito do professor de Alexandre "O Grande", versaria loas a respeito da alegria do viver em contraponto com a rigidez religiosa daquelas priscas eras. Jorge Luís Borges, mestre no estilo: "Realidade Fantástica", dono de dores abismais, teria inspirado Umberto Eco no seu colossal personagem: Venerável Jorge.

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