quarta-feira, 30 de março de 2016

Sobre a Revolução Russa e algumas de suas consequências político-ideológicas

Ensaio
Recebido em 24 de fevereiro de 2016
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Trabalhadores russos da primeira metade do século 20

É claro que não se pode ignorar jamais a importância ímpar da Revolução Russa, que “abalou” o mundo inteiro no início do século passado. Um evento extremamente importante, emblemático e complexo, que instiga o livre pensar sobre como e em que condições ela se deu. Portanto, não custa nada se perguntar ainda hoje: qual a diferença entre a Comuna de Paris e a Revolução Russa? A primeira durou 72 dias e a segunda 72 anos, tomando-se como marco a “queda do muro de Berlim”. Karl Marx disse enfaticamente naquela oportunidade, referindo-se à Comuna de 1871, que: “Os trabalhadores quiseram alcançar os céus com as próprias mãos!”. Então, pensando bem, se vivo ele estivesse nos tempos atuais, talvez até dissesse a mesma coisa em relação a revolução que ocorreu na Rússia em 1917, guardadas, evidentemente, as devidas proporções de espaço e tempo.

Decerto, não era o império russo uma “nação” extremamente atrasada do ponto de vista industrial e com uma colossal massa camponesa analfabeta e pobre, que se constituía na maioria da população? No entanto, logo cuidaram de justificar o triunfo daquele acontecimento, afirmando-se com ênfase que “o capitalismo se quebrou no elo mais fraco...!”. Que conversa fiada essa, hein? Ora, pode-se igualmente deduzir que ela foi, de certo modo, um “acidente” ocasional alimentado pelas circunstâncias geradas no decorrer da 1ª Guerra Grande Mundial (1914/1918). Concomitantemente, associadas às atividades dos revolucionários russos que souberam “tirar proveito” do estado de extrema miséria no qual se encontrava a maioria da população, revoltada com o regime czarista e seus parasitas.
O choque bélico imprevisível, entre potências que visavam expansão e domínio sobre as demais, por interesses econômicos, veio a exacerbar e pôr às claras todas as contradições latentes. Uma guerra entre nações imperialistas, tão somente; porém altamente destrutiva para todos os povos envolvidos. Ali, tal como (anteriormente) na Guerra dos Bálcãs nos anos de 1912/1913, tanto os socialistas quanto os social-democratas renegaram de vez o “internacionalismo proletário”. E assim passaram a apoiar, quase que incondicionalmente, os seus respectivos países em guerra, votando a favor dos créditos financeiros para sustentar o insensato confronto e jogando grandes contingentes de pessoas, movidas pela campanha do nacional patriotismo, nos campos de batalha (como “buchas de canhão”) em infectas trincheiras, incluindo principalmente muitos trabalhadores iludidos por suas direções sindicais e partidárias.
No conflito, algumas das dinastias tinha que ser possivelmente suplantada, dentre as quais foram destroçados os Romanov, num dado momento em que a incipiente e frágil burguesia russa não tinha as mínimas condições nem a necessária coragem de assumir um processo transformador e progressista. O que se explica, em parte, pelo sobejo medo frente à força organizada dos trabalhadores, mesmo estabelecendo um governo democrático burguês. Isto porque o duplo poder, através dos sovietes, já tinha se instalado abertamente desde o ano de 1905.
Aquela era, sem dúvida, uma realidade que assustava de fato a burguesia na Rússia, mas não foi só por isso que ela deixou de cumprir um papel. Tal como a nobreza russa, ela também se mantinha na dependência do “poder czarista” que, apesar de todo o seu tradicional conservadorismo, procurava realizar uma “modernização da sociedade russa“ diante de uma “nova” Europa que se industrializava. O endividamento financeiro junto a vários bancos estrangeiros foi realizado para impulsionar alguns bolsões fabris, nas principais cidades do império, entre elas: Odessa, Petrogado, Kiev e Moscou, às quais vão se colocar como berço das lutas trabalhistas e políticas da época. Entretanto, isto não alterava a precária situação que sustentava as relações que se davam no meio rural, sob o forte domínio dos grandes “proprietários” de terras. E, por conseguinte, desinformada e alienada, por força do atraso em se encontrava, a massa camponesa, inculta e profundamente religiosa, submetia-se a estes senhores, à Igreja e ao Czar, considerado como um divino “Paizinho” – mas, que nada tinha de “bonzinho” ou mesmo de “protetor” dos desvalidos e despossuídos, tal como ficou confirmado no conhecido massacre do Domingo Sangrento de janeiro de 1905, quando, de surpresa, as tropas sediadas no palácio imperial dispararam, indistintamente, contra os manifestantes que queriam apenas entregar uma petição.
Nesse contexto agudizado, que se estendeu por anos de guerra, em 1917, a célebre fração leninista (dita bolchevique) do então Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR) e outros social-democratas revolucionários russos, que vieram a aceitar as Teses de Abril, propostas por Lenin, tentaram (e conseguiram) levar adiante uma revolução de conteúdo socialista, num período de tempo muito curto: de fevereiro, com o tal governo provisório democrático burguês, até Outubro, com a consigna de “todo poder aos sovietes”. Mas, com efeito, desde o início já se manifestava, na ordem do dia, as impossibilidades da promissora construção do socialismo “num só país”, isolado de tudo, numa disposição contrária à premissa internacionalista de edificação de uma nova ordem revolucionária a ser então estabelecida em todas as partes do mundo. Isto é, naquela difícil e amarga ocasião, a revolução socialista mundial estava sendo extensa e fragorosamente derrotada pela reação da contrarrevolução em todo o continente europeu.
O que restava, por conseguinte, como uma possibilidade genuína, era a factível necessidade de construção do “capitalismo de Estado” que não foi assumido, honesta e abertamente, pelos principais dirigentes nem mesmo para explicitar o “desvio” histórico da revolução, a qual não tinha como se sustentar sozinha e sem o devido apoio de outras nações. Muito embora tenha enfrentado bravamente as ações dos “exércitos brancos” das burguesias europeias, que tentaram cercá-la e destruí-la no seu nascedouro. Ou seja, não alcançaram este intento diante das firmes contraofensivas do Exército Vermelho soviético, que os rechaçaram em todas as frentes de batalha e mantiveram, mesmo a custa de incomensuráveis sacrifícios, o controle administrativo por todo o imenso território pan russo herdado do antigo império.
Todavia, para viabilizar esse projeto econômico de caráter emergencial, justificado em discursos como se fosse a implantação do “socialismo” na Rússia, imprescindível foi constituir-se um Estado policial apto a reprimir quaisquer questionamentos críticos. E em face disto, no X Congresso do partido, em 1921, numa conjuntura completamente desfavorável à sustentabilidade do processo revolucionário, aprovaram-se resoluções contrárias ao debate aberto e de irrestrito apoio a todas as decisões da cúpula dirigente, que vieram viabilizar uma estrutura estatal que foi se colocando a serviço da burocracia e do seu líder máximo, Joseph Stalin, o qual veio ascender à liderança suprema da União Soviética poucos anos depois, utilizando-se dos recursos da polícia política, dos campos de concentração e de execuções sumárias, além da mentira e da calúnia para neutralizar e eliminar os opositores.
Logo depois da vitória da Revolução de Outubro de 1917, começou a ser gestado esse crucial impasse, e de nada adiantou a criação artificial de um novo movimento multinacional de caráter revolucionário (formalmente conhecido como a Terceira Internacional), com o objetivo de reproduzir a experiência russa em escala mundial. Inclusive reeditando-se, de maneira inconsequente, a organização partidária leninista (“bolchevique”) na sua forma e na sua inusitada concepção de “partido da revolução” expostas no livro “O que fazer?” de Lenin (1902). Um organismo fundamentado exclusivamente na ideia de uma sólida organização (partido) de vanguarda, composta por quadros profissionais dirigentes, bem treinados para executar a “tomada do poder”.
Entrementes, embora tivesse recebido críticas contundentes de Rosa, de Trotsky e de outros revolucionários, em contraposição ao que estava sendo sugerido, mesmo assim veio a prevalecer como uma proposta revolucionária pretensamente exequível. E, destarte, todos os PC's pelo mundo afora foram criados a partir deste conceito imaginário que, por consequência direta, vai passar a representar o stalinismo e a burocracia partidária de ontem e do presente, encoberto de forma sútil por um eficaz e providencial sofisma que se alicerçou ao longo do tempo e que também ficou conhecido vulgarmente pela militância como marxismo-leninismo.
Não obstante, necessário se faz esclarecer que isso somente se tornou possível de ocorrer pela desagregação e consequente eliminação dos sovietes (Conselhos Populares) que, ao serem “forçados” a desaparecer pelo abandono das suas funções práticas, por parte dos mais destacados líderes, não tinham mais como fundamentar a continuidade do uso da sigla URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Uma tragédia sem fim, que se dá até os dias de hoje, desarticulando as esquerdas e levando-as a seguidos equívocos, na carência de autocrítica. Enquanto isto, o capitalismo mantém sua cruenta e predatória hegemonia globalizada, mesmo encontrando-se numa profunda e aguda crise sistêmica, situação na qual vai arrastando toda a humanidade ao caos generalizado, justamente por falta de um ininterrupto e decisivo combate a ele em todos os países.
Mas, independentemente das denúncias pontuais contra os imperialismos, cabe agora, mais do que nunca, buscar novas alternativas e os meios possíveis para se estimular e respaldar a organização pela base, através do fortalecimento do poder popular. Opção em busca de uma maior conscientização das massas e de resgate dos verdadeiros princípios revolucionários para se efetivar com toda a clareza a luta antistalinista e anticapitalista, sem a qual não é possível avançar de modo consequente, como tem nos ensinado a História.

Líderes bolcheviques

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.