quinta-feira, 24 de março de 2016

Rosa Weber deu o salve e o golpe começou

Ensaio
Recebido em 22 de março de 2016
Por Armando Coelho Neto, que é delegado aposentado da Polícia Federal e jornalista.

Livro com as confissões de John Perkins,
publicado originalmente em 2004

Corrupção, suborno, extorsão, sabotagem, bajulação, aliciamento de pessoas. Não só. Sexo, e quem sabe até drogas e rock n roll, quem garante? Os personagens diabólicos envolvidos nessa trama são muitos: grandes empresários, líderes políticos, militares, jornalistas, ativistas, governantes de países pobres. Em jogo, muito dinheiro e muita mentira. Enredos que dariam filmes impactantes. Lucro a qualquer custo. Quem garante que o Brasil tenha estado de fora disso tudo? Aliás, com o salve de Rosa Weber, hoje, o golpe já está em curso.

Rosa é apenas um detalhe de mais um assassinato econômico. Senão, vejamos. “Somos muito bem pagos para enganar países ao redor do mundo e subtrair-lhes bilhões de dólares. Grande parte do trabalho é encorajar os líderes mundiais a fazer parte de uma extensa rede de conexões operacionais que promovem os interesses comerciais americanos. No final das contas, tais líderes acabam enredados nessa teia de dívidas que assegura a lealdade deles”, disse John Perkins, numa entrevista concedida à revista “Caros Amigos”, matéria da jornalista Natália Viana.
John Perkins confessa ser um “assassino econômico”. Sua missão principal, junto com outros assassinos, seria favorecer interesses comerciais e políticos dos Estados Unidos. Na prática, promover um deliberado endividamento em vários países como forma de criar dependência. Os relatos sobre a atuação dos tais assassinos econômicos são tão instigantes que viraram livro – “Confissões de um assassino econômico”, uma obra contestada por autoridades, sobretudo pelas dos Estados Unidos, suposto maior interessado nas falcatruas, já que os tais assassinos atuariam em prol daquele país.
Perkins é o nome do assassino e autor do livro. Ele confessa ter produzido inúmeros relatórios e estudos econômicos falsos, de forma a seduzir países a tomar empréstimos que mais tarde se revelariam impagáveis. “Assim, os países endividados se tornariam economicamente dependentes dos credores, e uma das artimanhas era primeiro encontrar um país pobre com petróleo, depois, conseguir um grande empréstimo para ele”, diz o assassino numa entrevista encontrável no You Tube.
Diante do empréstimo impagável, instaurada a crise, algumas estranhas soluções eram sugeridas, tais como empréstimos para refinanciamento de dívidas, privatizações de empresas de água, esgoto, energia elétrica, entre outras, como a venda barata do petróleo e o envio de tropas militares para zonas de conflito de interesse americano, e até um simples “vote com a gente na cúpula da ONU”.
Os relatos de Perkins nos vídeos disponíveis na internet são convincentes. De tão aparentemente reais, por certo dariam intrigante filme, repleto de ingredientes com o condão de alimentar a denominada teoria da conspiração universal. As atividades dos “assassinos” teriam começado em 1950, no Irã, quando conseguiram derrubar o líder Mohammed Mossadegh, então conhecido como fervoroso anti-imperialista, que nacionalizou a economia de seu país.
Outra atuação teria ocorrido no ano de 1954, na Guatemala. “Quando Arbenz (Jacobo Arbenz Guzmán) virou presidente da Guatemala, o país estava sob o jugo da empresa United Fruit, das grandes corporações internacionais... e abraçava o seguinte discurso: ‘Queremos devolver a terra ao povo’. Tão logo assumiu o poder, adotou políticas sociais naquele sentido e a United Fruit não gostou. Houve então uma grande mobilização corporativa para convencer os Estados Unidos de que a Guatemala teria se tornado uma marionete soviética”. “Foi o bastante”, diz ele, “para que os Estados Unidos se mobilizassem para derrubar Arbens. Seu sucessor se encarregou de devolver tudo às grandes empresas”, relata Perkins em sua entrevista no You Tube.
Os relatos do assassino incluem suspeitas sobre o “acidente” aéreo que matou Jaime Roldós Aguilera, fundador do Partido El Pueblo, do Equador, eleito por voto direto, quando até então teria sido governado por ditadores sanguinários. Entre as propostas de Aguilera, estava devolver os recursos do país para a sociedade; e ele seria um político aparentemente incorruptível, que ao implementar suas promessas de campanha diminuiu o lucro das grandes corporações. Perkins não tem dúvidas de que ele foi assassinado e diz que, durante as investigações, duas testemunhas-chave morreram a caminho do depoimento.
Por razões semelhantes, o presidente do Panamá, Omar Torrijos, também foi assassinado num acidente aéreo após fazer concessões a Jimmy Carter (EUA) no Canal do Panamá. Ele fala da tentativa de golpe na Venezuela (Hugo Chávez) e dos lucros da “reconstrução de um país que ajudamos a destruir”, numa alusão ao bombardeio americano no Iraque.
As ações de Perkins propriamente ditas teriam começado em 1968, segundo a revista “Caros Amigos”, quando ele, ao terminar a faculdade de Economia, “tinha os mesmos sonhos de qualquer americano típico – casar, ter família, vencer na vida”. Até que o amigo de seu sogro, o “Tio Frank”, figurão da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, mudou sua vida. “Perkins submeteu-se a uma bateria de entrevistas extenuantes que incluíam testes psicológicos e detectores de mentira e tornou-se voluntário no Corpo de Paz do exército americano no Equador”. Haveria um firme propósito da Casa Branca em tornar os países de economia frágil em nações endividadas, como forma de consolidar influência e dependência. Depois, “do Panamá à Arábia Saudita, da Colômbia ao Irã, ele atuou defendendo os interesses do que chama de 'corporatocracia' – uma aliança entre as corporações, os bancos e o governo de seu país”, informa o Portal G1, em nota sobre o livro.
Fez, fez e depois “se arrependeu”(?), dizem, após descobrir as consequências do seu trabalho – o empobrecimento de muitos países e a consolidação de um império mundial e a consequente concentração da riqueza nas mãos de poucos. Com “remorso”, Perkins mudou de lado e o resultado não poderia ser outro – riscos pessoais e ameaças de morte, “enquanto sua obra literária se tornou fenômeno de vendas nos Estados Unidos”, diz a reportagem de “Caros Amigos”.
Seu livro foi sucesso em seu país, mas só foi publicado no Brasil, em 2005. Virou uma celebridade ao denunciar a lavagem de dinheiro e outras ações veladas da corporatocracia, cujo efeito colateral mais leve foi insuflar o sentimento de antiamericanismo ao redor do mundo. Entre os mais graves, estariam o terrorismo e o atentado de 11 de setembro, informa a revista “Caros Amigos”.
Com esse histórico, o livro de Perkins deveria sair em 1987, mas foi interrompido por uma irrecusável “oferta”, pois foi contratado para fazer nada na empresa Stone & Webster Engeneering Company, desde que abandonasse qualquer ideia de publicar o seu livro, o qual só viria a sair mesmo no ano de 2003, informa Natália Viana, autora da matéria veiculada na “Caros Amigos”.
A derrubada das duas torres gêmeas no fatídico dia 11 de setembro de 2001 teria detonado “arrependimento” de Perkins. A tragédia instalada em seu país teria feito com que o “assassino” reavaliasse “o seu passado e chegasse a um forte sentimento de culpa por ter contribuído para a construção do império que tantos danos causara ao mundo, a ponto de provocar reações tão violentas”, informa a repórter. Foi a partir daí que teria retomado a ideia do livro e, desta feita, com o singular título: “Confessions of an economic hit man” (Confissões de um sabotador econômico), lançado no Brasil pela Editora Cultrix com o título “Confissões de um assassino econômico” (outra tradução possível), diz Viana.
Em texto anterior, cheguei a falar do clima de duplicata vencendo. As notícias de hoje mostram bem mais que isso. Rosa Weber deu o salve e já estamos no dia seguinte.

Rosa Weber, ministra do STF

Um comentário:

  1. Vou ler o livro. Cá com meus botões e cochando minha rala barba reflito: quando será que a face feiosa e mefistofélica do poder do Capital não irá mais me surpreender?

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