segunda-feira, 14 de março de 2016

Psicanalisando o “panopticum” da cidade universitária

Ensaio
Recebido em 11 de março de 2016
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.

Campus da UFPE

Nos anos 1930, Sigmund Freud escreveu um ensaio famoso e profético sobre a civilização ocidental (O mal-estar na civilização) tratando de uma espécie de patologia social – a violência e o desejo de autodestruição. Nos anos 1950, foi a vez de Erich Fromm fazer a sua psicanálise da sociedade (americana) contemporânea, apontando para uma estranha patologia da normalidade ou da massificação. Eis que em pleno século XXI, surge diante de nós, na comunidade universitária da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE], um corajoso estudioso que se propõe a fazer o diagnóstico e a psicanálise da instituição universitária. Há [alguns] dias, a [professora Rosana Machado] falava da doença da vaidade no meio universitário, em ensaio muito comentado nas redes sociais [ver aqui]. Não me surpreendi, porque seguindo as intuições de Nietzsche e do jovem Walter Benjamin, venho acompanhando a transformação da cultura acadêmica numa “cultura filisteia”, de resultados, sem vigor crítico ou utópico. Desde que foi estabelecido como padrão de produção científica o neotaylorismo, ou o produtivismo acima de tudo, e o modelo cartorial e autodeclaratório do “currículo lattes” na universidade brasileira, a nossa vã e precária ciência virou uma decalcomania da cultura universitária americana.
O manifesto do referido professor, que é um educador, falava da existência de uma “pulsão de morte” na UFPE, que procurava demonizar o outro a todo custo. Essa pulsão de morte teria abolido o livre debate das ideias pela criminalização sistemática daqueles que se opunham a atual administração da universidade pública. Ou seja, as ações, as palavras e resoluções coletivas que questionavam os atos dessa administração estavam sendo tratados como crime, e seus responsáveis como réus em processos administrativos e policiais.
Essa pulsão de morte, que transformaria a UFPE numa espécie de espaço concentracionário, se manifestaria através dos seguintes indícios ou sinais: (1) o gradeamento da UFPE, segregando-a da comunidade adjacente; (2) a farda de guerra vestida pela guarda patrimonial da universidade; (3) o uso exagerado de tecnologias nos centros e no campus em nome da “segurança”; (4) o emprego de uma linguagem estigmatizadora ou rotuladora; (5) a incapacidade de escutar o outro (os moradores do entorno, os estudantes, os críticos etc.); (6) a manutenção do estatuto universitário oriundo do regime militar, recusando o novo, fruto de um amplo e democrático consenso universitário. O pesquisador, utilizando referências teóricas como Max Weber e [Eugène] Enriquez (da sociologia clínica), fala da instituição de um imaginário burocrático, excludente e autoritário dentro da UFPE. Em oposição a um “locus” da liberdade de opinião e criação.
Imagino que essa tarefa não deve ter sido difícil para o atual reitor e seus fiéis colaboradores, em razão das condições em que se deu sua reeleição: trocando apoios por cargos, coordenações, nomeações, núcleos de pesquisas etc. Com tais métodos de persuasão e convencimento, criou-se uma rede de clientelismo na universidade que minou a autoridade moral e acadêmica da instituição, mas garantiu a reeleição do dirigente universitário. Ex-pró-reitores transformaram-se em oficiais de gabinete; servidores foram investidos da função de pró-reitores; e docentes egressos de campi do interior passaram a integrar comissões de inquérito para criminalizar estudantes e funcionários em função de suas ações contra a invasão policial ao campus (por duas vezes), a privatização da gestão do hospital universitário, corte de bolsas, não pagamento às empresas prestadoras de serviço, cujo o triste espetáculo é a degradação física das instalações universitárias etc.
Como diria Freud e Fromm, há um mal-estar na comunidade universitária da UFPE. A impressão que se tem é de um gerente de gastos, não de um educador à frente da UFPE. O que faremos, antes que essa coisa toda degringole num regime falsamente meritocrático, mas profundamente autoritário e intolerante?

Basta de fascismo!
Basta da hipocrisia meritocrática!
Basta de autoritarismo!
Basta de criminalizar o direito de crítica e de opinião!

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