quarta-feira, 16 de março de 2016

Crise política e crise ideológica

Ensaio
Recebido em 07 de março de 2016
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

O ex-presidente Luiz Inácio da Silva

A crise do cenário político brasileiro é muita séria para ser resumida apenas ao âmbito do político. Trata-se de uma crise do imaginário social, com profunda relação com arquétipos dos quais ainda não nos libertamos, numa demonstração patológica do estado de nosso inconsciente coletivo. O PT e o ex-presidente Lula estão sendo responsabilizados por todas as mazelas nacionais, e por mais que pareçam indefensáveis, não podemos fazer coro aos alardes midiáticos preocupados apenas em estigmatizar e higienizar o ambiente político nacional. As relações espúrias do ex-presidente com os empresários sempre foram vistas como uma qualidade do sindicalista saudado pelas elites por sua capacidade de negociação. Mas o porquê da mudança de tratamento em relação aquilo que antes era considerado a maior virtude do estadista Lula? Quando Lula passa a prescindir de setores poderosos sem os quais não poderia ter ascendido ao cargo de presidente da república, certamente ele passa a ser visto como uma ameaça aos setores mais conservadores do país.
As classes dominantes resolveram se livrar de Lula de uma única vez, numa espécie de recado aos setores populares para não se envolverem nas coisas públicas do Brasil. A crise econômica foi o elemento-chave para a Operação Lava Jato, sem a qual seria impossível atacar a imagem do ex-presidente, conforme assistimos nos últimos dias. Lula não se sentia um corrupto ao angariar favores pessoais das elites brasileiras; sua consciência deve estar tranquila quanto a isso. Enquanto as empreiteiras presenteavam Lula, ele não se sentia um ator político. Quanto mais presentes Lula ganhava, mais se sentia despolitizado, desprovido de ação política. E quanto mais se distanciava da política e se rendia à ideologia neoliberal, Lula não percebia o quanto estava sendo engolindo pelos setores conservadores da elite nacional.
Deixar a política e partir para o misticismo político foi o grande erro de Lula. Considerar-se um semideus acima dos mortais foi um erro político desastroso. Lula está sendo acusado pelo que não cometeu, ou seja, politizar a corrupção, instrumentalizar a corrupção para fins políticos. Uma reeleição de Lula só serviria para deixar as coisas como estão, ou seja, entregues ao grande capital, e para isso ele não precisaria fazer muito esforço. O fato de não necessitar da corrupção para ser reeleito é a grande ofensa que Lula não poderia ter cometido contras as elites perversas. Ao assumir a identidade de um ser imortal, Lula acabou construindo sua própria tragédia. Como nos mitos de Narciso, Édipo e Antígona, Lula entra para a história como um herói trágico, cujo destino já havia sido traçado pelos oráculos da elite conservadora e que ele não soube decifrar.

Apoio a Lula após depoimento dado à Polícia Federal por meio de
'condução coercitiva'

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