quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Viatura policial

Ensaio
Recebido em 05 de outubro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

Viatura policial em Pernambuco

É estranho ver num carro de polícia o slogan Pacto pela Vida. Talvez o lugar em que a palavra vida nunca devesse estar estampada seria nesse, numa viatura policial. A polícia enquanto sinônimo de vida é algo difícil de se imaginar. Não que os policiais não sejam seres humanos, ou que não representem enquanto seres humanos a vida humana, mas a história da instituição, o seu sentido histórico e contemporâneo está em desacordo com a vida. É como se numa ambulância estivesse escrito pacto com a felicidade. É trágico que exista polícia, que a humanidade precise ser vigiada, coagida. Foucault, em Vigiar e Punir, nos revela o quanto nossa subjetividade sofre com os mecanismos de repressão e o quanto a lógica do controle se dissemina na sociedade numa atmosfera de resistência e domesticação.
Os perigos da alienação promovidos pelos aparelhos de Estado, levados às últimas consequências, são preocupantes e a História nos mostra até onde isso pode chegar. Hannah Arendt [coloca] que não precisa-se ser um monstro para se tornar uma nazista; o pater famílias foi o agente indireto, aquele que a pretexto de manter a simples subsistência foi capaz de cometer as maiores atrocidades do mundo contemporâneo. Não existe espaço para um pacto pela vida através da natureza dominadora do Estado. A sociedade pernambucana deveria reagir contra esse engodo promovido pelas autoridades estatais. A propriedade privada se beneficia dessa aparente docilidade das forças de repressão, enquanto os excluídos da sociedade sabem a verdadeira face anti-humana dos sistemas jurídicos, policiais e prisionais.
Por uma cultura sociológica, devemos combater as mentiras que ditas muitas vezes tornam-se [verdade]. Por consciência histórica, não podemos nos esquecer quantas injustiças foram praticadas contra os movimentos sociais em nome da ordem. Por razão filosófica, devemos nos colocar contra toda forma de controle. Dentro de um camburão não existe vida nem para policiais, nem para os detidos. A violência urbana tem raiz no sistema econômico, nas desigualdades sociais; portanto, o verdadeiro pacto pela vida deve se dar nos investimentos em educação, saúde, moradia e lazer para todos, inclusive policiais. Pacto pela vida deveria ser estampado nas escolas, nos hospitais, nos contracheques dos servidores públicos e do proletariado em geral.
A realidade econômica do Estado é um pacto pela morte, e enquanto a vida continuar difícil para todos, deveríamos rechaçar as propagandas enganosas. A redução da violência urbana é uma questão social e não questão policial. A imensa tarefa de um pacto pela vida não deveria se resumir a um projeto de segurança, mas deveria ser a finalidade da política econômica e do sistema social. Enquanto houver capitalismo, não há vida digna para a maioria da população. Portanto, a questão da vida deveria ser amplamente discutida e as viaturas policiais, em respeito à vida, não deveriam mais simbolizar um pacto pela vida, pois muita injustiça ainda hoje é cometida em nome da ordem e da legalidade burguesa. Em defesa da vida, contra a banalização da vida, pela poeticidade da vida, façamos um verdadeiro pacto pela vida, a começar por restituir a dignidade e respeito à palavra vida, que não deve nunca se confundir com vigilância e dominação.

Um dos célebres livros de M. Foucault (1975)

Um comentário:

  1. (1) Segurança pública sem polícia ou prisões é irresponsabilidade esquerdista; (2) As instituições de Segurança podem reduzir a criminalidade; diversas experiências ao redor do mundo, e no Brasil, comprovam isso; (3) As "causas sociais" da criminalidade não são mutáveis no curto prazo, mas ações de curto prazo são possíveis, como o 'Fica Vivo' de MG demonstrou; (4) O capitalismo é a causa do crime "lá". Diversos países são capitalistas e não têm os índices de criminalidade do Brasil ou da América Latina; (5) Quem critica o "controle e a disciplina" em termos absolutos é intelectual-chique. Uma sociedade sem Estado ou ordem não é uma anarquia organizada, como sonhavam alguns liberais e anarquistas, mas um império de pequenos tiranos e ladrões. Vide a Somália ou Pernambuco, quando a PM entrou em greve. E (6) Mais uma vez, vemos que a esquerda não tem projetos para a segurança pública. Apenas repete as mesmas críticas contra a PM, diz que a solução do crime é social (apesar dos indicadores sociais terem melhorado e a criminalidade ter piorado), e fala de um futuro longínquo, pós-capitalista, quando a PM será desnecessária, e estaremos todos mortos...

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