terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Populismo e marxismo

Ensaio
Recebido em 13 de fevereiro de 2016
Por Diogo Valença, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Getúlio Vargas (1882-1954)

O populismo assume diferentes feições, de acordo com a base social que o sustenta e com o seu contexto histórico. Nesse sentido, há um populismo conservador e um populismo de tipo radical, revolucionário. O primeiro é mais conhecido devido à forma como ele se desenvolveu no Brasil, como manipulação demagógica das massas populares. Já o segundo tipo deteve a sua expressão mais característica no chamado populismo russo de fins do século XIX, um movimento de base camponesa que afrontava a autocracia czarista. O populismo no Brasil foi um instrumento de dominação de frações de classe da burguesia, por isso os seus germes de radicalismo não floresceram de modo autônomo e independente.

Entre esses dois polos extremos, podemos encontrar um populismo de extração pequeno-burguesa, de teor sectário e oscilante quanto à defesa do status quo e de mudanças sociais progressistas. Na América Latina talvez o maior exemplo desse tipo de populismo foi a Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA), fundada como uma frente anti-imperialista continental em 1924 e depois transformada num partido político peruano em 1931. Pode-se dizer que, após se tornar um partido, a APRA e seu líder, Víctor Raul Haya de la Torre, se tornaram cada vez mais conservadores. Apesar disso, a APRA possui um papel importante na história latino-americana por ter proporcionado para seus quadros a experiência de uma universidade popular.
O populismo conservador se manifesta toda vez que frações de classe da burguesia disputam a hegemonia política, mas nenhuma delas consegue impor sua vontade às demais. A figura do líder populista utiliza então a chantagem da presença ameaçadora das massas, a fim de domesticar setores renitentes da burguesia que procuram abocanhar pedaços maiores do bolo da mais-valia. O populismo termina por favorecer os setores mais avançados do capital, que passam a subordinar suas frações mais atrasadas. Não se pode esquecer que o populismo é um fenômeno típico de países de capitalismo dependente, caracterizando-se pelas promessas de participação popular dentro dos marcos de uma estrutura burocratizada de Estado, avessa por definição à democratização de suas instâncias decisórias.
O populismo radical é um sentimento autêntico e sincero de transformação social que emerge das massas. Ele sempre foi tolhido no Brasil, embora tenha existido e exista em estado larvar nas insatisfações das classes trabalhadoras e da maioria de nossa população. Uma de suas características se apresenta na noção de justiça social, a qual muitas vezes não leva em conta a correlação de forças entre as classes sociais. Trata-se de um lamento utópico e de um desejo difuso de mudanças. A consciência culpada da classe média assume para si tais insatisfações e, por se considerar um grupo mais esclarecido do que as demais categorias da sociedade, acredita poder educar e guiar o povo no caminho da defesa do que denominam de forma abrangente e pouco precisa como sendo o “social”. O populismo é uma ideologia de classe média que teme a proletarização e o seu nivelamento por baixo na escala social.
Na América Latina, o populismo de tipo radical teve canais autênticos de expressão intelectual e, quando pensadores marxistas, a exemplo do peruano José Carlos Mariátegui, souberam aproveitar seus ensinamentos, o marxismo conseguiu ir além da repetição enfadonha dos esquemas simplificados de evolução histórica dos povos que nos foram legados pela vulgata stalinista. Esse é o segredo da união entre socialismo e indigenismo pelo pai do marxismo latino-americano.

José Carlos Mariátegui (1894-1930)

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