sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A Era da Fortuna

Ensaio
Recebido em 30 de setembro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

A deusa da Fortuna - Tyche, na mitologia grega

Quando Maquiavel estudou minuciosamente a relação entre virtude e fortuna, não imaginou que tais categorias iriam se desgarrar para sempre no jogo político vindouro. Os liberais colocaram a virtude num segundo plano, pois à medida que o interesse privado favorece e fortalece o bem comum, a fortuna passa a ser mais importante que a virtude, o egoísmo desenfreado passa a depender do irracionalismo e a sorte passa a ser a justificativa para as injustiças e dominação entre os homens. Essa lógica instrumental da fortuna, que não é aquela preconizada por Maquiavel, passou a ser banalizada seja por Nietzsche, seja pelo protestantismo. Deus e o anticristo estão unidos em nome do mercado e da fortuna, e os ideais formativos do romance moderno não encontram ressonância num mundo entregue ao consumismo desenfreado.

Cabe-nos repensar a fortuna nos dias de hoje; restituir o seu caráter dialético, tal como fizera Maquiavel ao pensá-la em relação à virtude. O historicismo com sua tendência ao progresso não deixa de ser um apelo à fortuna, e isso pode ser comprovado através da filosofia de Hegel, que pensava em termos otimistas os rumos da história. O capitalismo banalizou a fortuna, a sorte, o acaso. A fortuna passou a ser sinônimo de sucesso a todo custo; as pessoas só pensam em tirar vantagens das mínimas coisas, não enxergam a fortuna de forma mais ampla, como, por exemplo, a sua aplicação na mudança dos rumos da história. Um conceito que deveria ser utilizado no plano macro-histórico esvaziou-se pela lógica liberal que o reduziu aos ganhos imediatos e nas vantagens obtidas num sistema de concorrência desigual.
Maquiavel ensina que ser virtuoso passa pela forma de se relacionar com a fortuna. Os liberais não querem arriscar nada. Tudo tem de ser calculado e administrado. O sucesso tem de ser garantido, e no mundo da política e dos negócios não se pode pensar em termos de riscos. Vivemos num mundo em que a maior virtude é não possuir virtude alguma. A banalização da fortuna é a banalização da própria história. Quanto mais dependentes da fortuna, mais os homens procuram prescindir da história. Precisamos politizar a fortuna, submeter o historicismo à crítica e aprender com o fracasso, com as derrotas e com as crises. Num mundo em que não há mais espaços para a virtude, o que restou foi uma visão deturpada da fortuna.
Devemos enxergar a fortuna como otimismo, progresso e vitória obtida por agentes aptos e qualificados a transformá-la em benefício do bem comum. A visão neoliberal fez da fortuna um projeto pessoal, clientelista e patrimonialista. Apenas a classe trabalhadora pode resgatar o caráter sociológico e político emancipador da fortuna. Num contexto desfavorável aos dominados, lutar para reverter o quadro de opressão e [combater] os dominadores não depende apenas da virtude dos oprimidos, mas também da fortuna, das forças objetivas historicamente propulsoras da liberdade e da dignidade humanas. Resgatar a história a favor dos oprimidos é um exercício que também depende da fortuna. As revoluções também são obra do acaso, da sorte. Ao criticar o historicismo, Walter Benjamin não descarta o messianismo, a redenção dos oprimidos, uma forma de fortuna às avessas. [Este messianismo] não deixa de ser uma forma de otimismo, de esperança.
O marxismo é a filosofia que se aproxima de uma crítica benjaminiana do progresso, por isso ele dirige suas Teses sobre o conceito de História aos historiadores marxistas. O proletariado não pode desprezar a fortuna no processo de luta política. As leis da história, associadas aos nossos esforços e virtudes, poderão mudar os rumos das coisas. Aquele príncipe moderno, o partido político que Gramsci associou ao projeto científico de Maquiavel, deve saber conciliar virtude e fortuna. Na era da fortuna, em que não restou nenhum espaço para as virtudes pessoais, a história representa um manancial de sonhos e desejos reprimidos. Abdicar da própria sorte em defesa da sorte dos trabalhadores é a tarefa dos revolucionários de hoje. A era da sorte pode ser também a era da revolução, ou seja, a hora de reivindicarmos a sorte para todos, de socializar a fortuna e não almejá-la enquanto projeto pessoal.

Estátua de Nicolau Maquiavel (1469-1527)

Um comentário:

  1. Virtude e Fortuna no mundo clássico - pagão e antigo - estavam intimamente relacionados. Virtude, prima-irmã da Beleza; Fortuna, paixão-labor da Virtude. Deuses e homens se relacionavam em busca coletiva; sonhos, encontros e desencontros. O mundo romântico - católico e medieval - inicia inflexão. O "Renascimento", tenta um tanto e tonto resgate. Combatido por forças fortes, religiosas, feudais e mercantilistas, virtude e fortuna clássicos refluem...(afora as artes)... O poder dos burgos tomam o poder. Fortuna e virtude são transmudados em ouro e posse. O texto do Gutemberg, a meu ver, desvela e revela nosso pouco sentimento virtuoso-afortunado momento atual. Temo, deveras temo, o "perverso-adocicado-sensual-mefistofélico" e individual senhor chamado Capital. Quem sabe, Prometeu nos ajude... Mesmo acorrentado no Cáucaso. Prezado Gutemberg, um abraço.

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