terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A carnavalização do mito

Ensaio
Recebido em 22 de fevereiro de 2016
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.

Os filhos de Eduardo Campos nomeados

Devemos a um conhecido estudioso da cultura de massas no Brasil a chave hermenêutica precisa para entender determinadas manifestações político-culturais em nosso país, em nosso estado e a nossa cidade. Refiro-me ao uso da categoria estética de “grotesco”, associada [pelo] russo Mikhail Bakhtin à “carnavalização” da cultura ocidental. Originalmente empregada para o estudo da cultura popular na Idade Média, especificamente a obra do monge Rabelais, a poética do grotesco tornou-se uma espécie de cânone literário e estético de larga aceitação na análise de contextos culturais distintos e distantes da límpida e elegante linguagem simbólica da cultura oficial dos bem-pensantes e bem-comportados ou socialmente aceitos pelo asceticismo da tradição judaico-cristã que nos formou.

Segundo o crítico da cultura de massas, nada definiria melhor a identidade do brasileiro (e certamente do pernambucano e do recifense) do que o carnaval enquanto manifestação da estética do riso ou do grotesco. E seu maior intérprete teria sido, aliás, um pernambucano, Abelardo Barbosa [Chacrinha]. Este seria o modelo, por excelência da alma “brincante”, “lúdica” “bioenergética” do povo brasileiro. O que o tornaria resistente às crises ou propenso a esquecê-las. Como diz a propaganda da cerveja patrocinadora da folia: “Crise? – Que crise?”. O carnaval, como estética do grotesco, é um rito de inversão simbólica que empodera “imaginariamente” os de baixo contra os de cima, durante o ciclo momesco.
Assim, não haveria nada mais estranho do que a imagem de um carnaval organizado pelos poderes públicos como principal produto turístico a ser vendido a turistas e visitantes do mundo inteiro, sob a justificativa do “exótico”, do “diferente”, do “telúrico” ou “regional”. Que a tapioca de côco ou a batida de limão sejam oferecidas como a marca da nossa identidade cultural, entende-se. O carnaval, como rito de inversão, não pode e não deve ser transformado numa espécie de “ativo cultural” ou uma “vantagem cultural civilizatória”, destinada a fazer do Brasil o lugar da confraternização das raças.
Mais surpreendente é ver a folia transformada em altar, monumento ou consagração de notabilidades políticas de aldeia, com a participação de familiares, apaniguados e clientes de toda espécie, para que depois possa ser usado em cartazes de campanha eleitoral antecipada, nas barbas da inerte e cega justiça eleitoral. Como a política de Pernambuco, com ou sem Ariano Suassuna, vem se tornando o palco de um espetáculo armorial, com rainhas, infante e um cordel de áulicos sempre dispostos a aplaudir o espetáculo mambembe, talvez possamos aplicar aos políticos pernambucanos a categoria de “grotesco”, oriunda da poética do riso, da mofa, do escárnio ou da sátira. A política de Pernambuco hoje é objeto da carnavalização, no sentido mais preciso (e profundo) do termo. O sentido bizarro, grotesco, risível das nomeações pós-carnavalescas do atual representante do Poder Executivo Estadual, só podem ser entendidas no registro da política do grotesco e do risível. Pernambuco está sendo objeto de gozações e de riso no Brasil todo como uma espécie de reino armorial onde o seu mandatário (ou mandado) não governa, não administra, cumpre ordens dinásticas ditadas por eminências não tão pardas assim, que apresentam seus pedidos e são regiamente atendidas. Mesmo quando essas medidas contrariam os princípios comezinhos da impessoalidade, da moralidade, da legalidade, que caracterizam a administração republicana. Aqui a famosa tese dos cidadãos “super-integrados juridicamente” e dos “sub-integrados” virou a tese dos filhos de algo (“fidalgos”) e a vala comum dos outros cidadãos, que estudam, trabalham duro, prestam concursos, não recebem salário, mas são obrigados a pagar impostos para sustentar a vida nababesca dos primeiros.

Quando isso terá fim?

Mandatários do PSB cumprem agenda carnavalesca

Um comentário:

  1. Falta muita educação política ao povo! É lamentável ver uma aristocracia comandar o destino do povo Pernambucano desta forma. Uma família raizada em tantos cargos importante no governo de Pernambuco.

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