quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A barbárie e a instituição

Poesia
Recebido em 26 de janeiro de 2016
Por Edelson Albuquerque, professor e militante social.

Aprisionamento de pombas

[prosa virtual com Euclides, conectando o sertão ao litoral]

O Estado penetra a favela;
O aço e o pavor furam caminhos e placentas;
Carapaças anônimas mastigando ossos;
O corpo e a ordem estão aquecidos;
Borrachas listradas no lombo e no rosto;
Cápsulas deflagram o adiamento do sonho;
Transfixam lonas, dentes, artérias e aglomerados;
Tombam cruzes em lembrança a Zezinho,
Nandinho, Carlinho, Vandinho, Aninha, Paulinha,
Netinha, Sandrinha;
O Estado desemboca da favela;
Hemácias, leucócitos, plaquetas gotejam e
Recepcionam o rabecão do IML;
3 horas passam como em três longos dias;
A pólvora resfria em corpos sem RG;
Fragmentos de pele ofuscam patentes;
Outras cruzes são erguidas no caminho;
Não há compensado que compense tantas cruzes;
As orações transmitidas pelos murmúrios dos órfãos;
Filhos de Luquinha, Tequinha, Belinha, Betinha,
Tavinho, Marinho, Toinho, Dadinho;
Não há vida que possa dar conta dessa conta
Liquidada com juros nessa trama abusiva
entre a navalha e o pescoço.
2º, 3º, 4º, 5º operações orquestradas;
O sentimento coagulado novamente se aproxima;
As vielas já acolhem o deserto em tom de cinza;
O formol incendeia narinas e paladares;
Não há mais crianças, peões, cirandas;
O silêncio rompido pelo estúpido estupido;
Que lhe encara olhos nos olhos;
A terra ferve como uma chapa aquecida;
Os nervos permanecem aflorados;
Porém, ao final de uma tarde nublosa;
A liberdade derruba os muros da Rua da Apatia;
A centelha retoma suas luzes e batimentos;
E a vida ressurge nos jardins dos céus;
Que se encontram a 20m do nível do mar;
É, caro Euclides, em breve estaremos prontos para amar.

As cruzes como a paisagem do deserto fabricado

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