quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Origens do movimento operário e do socialismo no Brasil (3 de 4)

Antonio Piccarolo (1863-1947)
Artigo
Recebido em 24 de dezembro de 2015
Por Osvaldo Coggiola, professor titular de História Contemporânea da Universidade de São Paulo [USP].

Exotismo socialista?
O socialista ítalo-brasileiro Antonio Piccarolo apontou uma diferença e uma dificuldade suplementar: “A razão destes insucessos para o socialismo, e para a organização operária, deve se procurar na natureza e no caráter anacrônico que se lhes quis impor. Esquecendo que viviam no Brasil, país saído havia pouco da escravidão, propagandistas e organizadores quiseram criar um socialismo e uma organização baseada nos moldes das existentes nos países economicamente mais adiantados. Os socialistas, em sua maioria italianos, no seu congresso aprovaram um magnífico programa de socialismo italiano. As organizações operárias, sob a influência de elementos generosos, mas com a cabeça nas nuvens, dirigiam a proa para a França, imitando os sindicalistas e traduzindo as obras de Sorel e de outros revolucionários. Os fatos, entretanto, na sua austeridade divina, vingaram-se do desprezo em que eram tidos, condenando ao insucesso o socialismo e a organização operária” [20].

A tese do exotismo da ideologia socialista “europeia” na fase inicial de formação da classe operária brasileira (e latino americana) foi retomada, depois, por historiografias das mais diversas tendências. Insistindo no caráter "europeu" ou “europeizante” do velho socialismo, se pretendeu com isso explicar seu fracasso, inclusive por parte de analistas marxistas: "O problema não é tanto a origem europeia dos precursores (alemães, italianos, espanhóis) mas sim o espelhismo, a assimilação mimética da experiência europeia pelos primeiros dirigentes socialistas autóctones, que não perceberam as particularidades próprias das formações sociais do continente, enquanto países dependentes, explorados e dominados pelo imperialismo (...) Foi bem compreensível que   com a exceção da Argentina, o país mais "europeu" da América Latina, esse tipo de corrente social democrata tenha tido pouca penetração ao sul do Rio Grande, onde muito cedo a reivindicação nacional, em sua dimensão anti-imperialista, tem sido um eixo essencial das lutas populares" [21].
Diversa é a opinião de Evaristo de Moraes Filho: “Não concordamos com os que enxergam nos programas e manifestos socialistas reivindicações estranhas à realidade brasileira, como se fossem meras traduções ou ecos das exigências alienígenas. Inspirados, embora, nas doutrinas e nas teorias que se haviam formado nos países europeus com maior ou menor ênfase, jamais deixaram esses partidos de levar em conta as necessidades do trabalhador nacional. Mergulhados até o pescoço no dia a dia da vida miserável que levava o operário brasileiro, faziam se porta-vozes das suas angústias e anseios. Reformistas em sua maioria, esperando que a conquista do poder se viesse a dar indiretamente, pela conquista do Congresso, pelo voto, pelas leis, pelas mudanças institucionais, pela pressão popular; nem por isso deixavam outros de chegar a apelos revolucionários ou à própria ação direta, pela greve e demais instrumentos de fato correlatos” [22].
Não é de se estranhar que a insistência no caráter europeu e não adaptado à "realidade nacional" do socialismo da Segunda Internacional, a Internacional Socialista, seja maior no caso de Brasil. Neste país, a base imigratória do operariado estendeu-se mais no tempo do que nos outros da América Latina, o que se refletiu no fato da imprensa operária em língua estrangeira abarcar um período maior no tempo. Mas essa imprensa, e inclusive as organizações operárias baseadas em minorias nacionais, cumpriam uma função necessária: a de unir e defender uma comunidade que sofria uma dupla exploração (a "normal" do trabalho assalariado, e a exclusão dos direitos políticos e sociais devido a sua condição de estrangeiros - uma legislação especificamente discriminatória contra os estrangeiros foi usada no inicio do século contra os socialistas e os anarquistas, principalmente na Argentina e no Brasil). Em qualquer caso, a diversidade “cultural” e de língua ao interior do operariado foram uma dificuldade suplementar para a organização política da classe operária, na medida em que essa organização implica a elevação a uma concepção do mundo de tipo universal, e um programa de alcance nacional, dirigido à toda a população, oriunda das classes mais diversas.
Dentre os diversos grupos do socialismo “reformista” no Brasil, o Centro Socialista de Santos, fundado em 1895, foi um dos primeiros. A Questão Social, seu órgão de divulgação, era dirigido à classe operária. Na prática, porém, parecia voltado para uma plateia bem diferente, interessada apenas nas questões intelectuais e prolixas sobre o socialismo. Seu primeiro número divulgou os objetivos do Centro: promover a criação de cooperativas, organizar um partido operário e divulgar as ideias socialistas. Para Silvério Fontes [23], brasileiro e intelectual mais importante da organização, adepto do modelo marxista desde que despojado de sua intenção revolucionária, o proletariado deveria evitar a violência. O Centro Socialista criou o Partido Operário Socialista em 1896, projetado, segundo seus fundadores, não para "provocar o ódio entre indivíduos", mas para mudar a instituição através de reformas: “Dos círculos operários e centros socialistas que se criaram durante a primeira década republicana, em várias cidades do pais, principalmente na região Centro-Sul, o que mais se destacou, por sua organização e orientação, foi, sem dúvida, o Centro Socialista de Santos, fundado em 1895 por Silvério Fontes e seus companheiros do círculo de 1889” [24].
O partido conseguiu pouca influência junto à força de trabalho imigrante de Santos. Teve vida curta, mas seus fundadores continuaram ativos. O próprio Silvério Fontes foi um dos líderes do Congresso Socialista realizado em São Paulo de 28 de maio a 19 de junho de 1902. O “Manifesto do Partido Socialista” de 1902 tem uma data discutível. Astrojildo Pereira supõe que seu texto original date do próprio ano da Proclamação da República (1889), ”com uma segunda redação em 1895 e redação final em 1902”. Ao Congresso Socialista compareceram 44 delegados que supostamente representavam os diversos grupos espalhados pelo Brasil. Na verdade, a grande maioria vinha de São Paulo. A capital federal nem se fez representar, embora Mariano Garcia, editor de Gazeta Operária, tivesse se aproveitado dos princípios estabelecidos no Congresso para tentar criar um partido semelhante e com o mesmo nome no Rio de Janeiro.

Silvério Martins Fontes (1858-1928)

O Congresso criou o Partido Socialista Brasileiro, projetado nas bases do Partido Socialista Italiano (a maioria dos delegados paulistas era composta de italianos). Seu programa inicial preocupava se particularmente com a ação dos sindicatos. Convocava seus membros a estimular a criação de Ligas de Resistência para apoiar greves e conseguir apoio de grupos externos ao Partido, e convidava-os a se envolverem diretamente na luta pela melhoria das condições de trabalho. Durante o único ano de vida do partido muitos de seus organizadores (como Valentim Diego, gráfico nascido na Espanha) continuavam participando da liderança do movimento operário em São Paulo. As metas do Partido eram divulgadas no jornal socialista Avanti, fundado em 1900 e publicado em língua italiana. Todas essas tentativas socialistas tiveram um caráter local e efêmero.

Colaboracionismo classista
Noutra vertente, a tentativa mais bem sucedida, ou pelo menos a mais espetacular, de se apoiar no nascente operariado brasileiro como base para uma ação política, foi a que Boris Fausto chamou de "trabalhismo". Em 1890, o Centro Artístico de Rio de Janeiro transformou se em Partido Operário, sob a presidência do Tenente da Marinha, José Augusto Vinhaes. Sua ação "obreirista" obteve (graças às boas relações de Vinhaes com o General Deodoro da Fonseca) uma alteração de dispositivos do Código Penal de 1890, que definiam como crime a paralisação do trabalho. Mas também combateu as tentativas dos operários e de suas organizações de pôr em pé uma organização criada por eles mesmos, boicotando, por exemplo, o Congresso Operário de 1892.

"O tenente deputado tratou de se ligar às lutas operárias nascentes, ao mesmo tempo em que buscava coloca-las ao serviço de determinadas frações políticas, em disputa nos primeiros e incertos anos da República (...) (O Partido Operário) expressou em embrião dois fenômenos significativos: a existência no interior do movimento operário de um núcleo disposto à colaboração de classes e a aceitar a dependência com relação ao Estado; a presença de setores sociais propensos a algum tipo de aliança com a classe operária. Por frágil que fosse o proletariado, por contaminado que estivesse pelas ideologias revolucionárias, era sempre possível tentar algum tipo de aliança ‘para baixo’, na busca de introduzir brechas no sistema (...) A heterogeneidade dos grupos em que Vinhaes se apoiava e a reduzida importância da classe operária impediram que sua política chegasse a frutificar" [25].

As tentativas de se usar a organização operária para uma política de colaboração de classes, e ao mesmo tempo para opô-la ao setor mais clerical e reacionário da classe dominante, continuaram. O governo do Distrito Federal mantinha ligações estreitas, e talvez até contribuiu financeiramente, com O Operário, jornal anticlerical que em 1909 declaradamente apoiava os candidatos do Partido Republicano e defendia a candidatura de Hermes da Fonseca para a Presidência da República. O namoro com o operariado baseava se no fato de que os trabalhadores careciam de musculatura política própria. Embora fosse o primeiro candidato à Presidência do Brasil a incluir o trabalho urbano em sua plataforma, a consideração de Hermes da Fonseca pelo operariado era vaga e genérica. Apenas reconhecia a existência dos seus problemas, mas não oferecia propostas concretas para sua solução. Chegou a iniciar um projeto de construção de residências de baixo custo para os trabalhadores durante sua administração. Entretanto apenas algumas dúzias foram efetivamente acabadas. Os presidentes que o sucederam negligenciaram a continuação do projeto e, por volta de 1921, a Vila Operária iniciada por Hermes apodrecia, e o governo da época já pensava em vendê-la.
Em 1912, o governo patrocinou a Liga do Operariado no Distrito Federal e auxiliou os preparativos do Quarto Congresso Operário. Embora o governo se dispusesse a pagar as despesas dos delegados, apenas alguns sindicatos importantes enviaram seus representantes ao Congresso realizado em novembro de 1912. Somente alguns sindicatos menores de Rio de Janeiro compareceram. A única organização importante a enviar delegados foi a Federação Operária do Rio Grande do Sul, que logo se retirou alegando tratar se o encontro de mera politicagem. Os sindicatos de São Paulo e Santos não compareceram; para eles o Congresso não passava de uma manobra política.
Na convenção, os delegados acertaram a formação de uma Confederação Brasileira do Trabalho, cujo programa incluía a formação de um partido operário com sede no Rio de Janeiro e representações locais espalhadas pelo Brasil, a naturalização de imigrantes, a jornada de trabalho de oito horas diárias, a obrigatoriedade de instrução primária, a elaboração de leis para melhorar as condições de trabalho na indústria e benefícios de aposentadoria para os funcionários públicos. Pinto Machado foi nomeado Secretário Geral da nova organização; Mário da Fonseca, filho do Presidente da República e patrocinador do Congresso, Presidente Honorário. Ao encerrar-se o Congresso, os delegados realizaram uma passeata em homenagem a Mário e Hermes da Fonseca. Como nenhum dos dois homenageados concedeu o que a recém-criada central operária necessitava para iniciar seu funcionamento, a Confederação morreu logo ao nascer.
Outro Partido Operário (aquele que se dirigiu à Internacional Socialista) combateu o grupo colaboracionista de Vinhaes e assemelhados: “O Partido Operário não parou de combater essa astúcia e de orientar os trabalhadores para fora desse impasse sinuoso, mostrando lhes o horizonte puro, o socialismo libertador dos oprimidos” [26]. Retomava-se assim o caminho do socialismo como expressão autônoma de classe. Sem muito sucesso, aliás, pois não conseguiram superar a dispersão geográfica e a descontinuidade política, o que levou um dos criadores do Partido Socialista de 1902, Antonio Piccarollo [27], a escrever: "Sendo o movimento atual da economia agrícola dirigido para a pequena propriedade, os socialistas favorecerão e propugnarão tudo o que sirva para aumentar o número destes trabalhadores independentes (...) Olhando com simpatia o desenvolvimento industrial que carrega nas suas entranhas o proletariado socialista, esforçar-se-ão para dar aos operários uma consciência clara e exata o que eles serão amanhã... Tudo isso não é rigorosamente socialismo, mas é tudo o que de bom e prático podem fazer aqui os socialistas, se não querem perder seu tempo em discussões teóricas prematuras e de nenhum valor".
Novamente colocava-se perante os operários a necessidade de uma aliança de fato com o setor industrial. O que era mais duvidoso é que esse setor estivesse disposto, como aparentemente pensava Piccarollo, a favorecer o advento da pequena propriedade agrária (ou seja, a afetar a grande propriedade). O Manifesto do Partido Socialista Brasileiro, de 1902, situava-se nessa linha: "O Conselho Geral do Partido faz um apelo às duas diferentes classes, a dos possidentes e a dos despossuidos, em que a população deste país se acha dividida, como em toda parte, para que se compenetrem da urgente e indeclinável necessidade de atender ao que se passa nos outros países civilizados com referência à questão social (...) Aos dirigentes, aos que compõem a classe possidente e opressora, neste país, cumpre não cerra' os olhos à miséria, que transparece por toda parte, nem obturar os ouvidos ao clamor, que a toda parte se levanta".
Mais de uma década depois de proclamada a República, não restava aparentemente outro recurso aos socialistas que o de apelar para o bom senso da classe dirigente. Se a República não tinha resolvido a "questão social", os socialistas, por sua vez, não pareciam poder elevar-se acima da fraqueza social da classe que pretendiam representar, nem se estruturar como expressão política estável. Piccarollo acertava no diagnóstico: a debilidade dos socialistas decorria do atraso social e político do país. O movimento operário e socialista brasileiro experimentava, portanto, no início do século passado, grandes dificuldades para superar, social, sindical ou politicamente, o plano da política de colaboração de classes. O movimento já tinha um bom caminho percorrido no final do século XIX, mas foi com a industrialização acelerada de inícios do século XX que se transformou em uma das principais forças sociais e políticas de sua época. Ele só passou a ser considerado enquanto tal, na historiografia corrente, a partir de 1888 ou de 1889 (datas da Abolição e da proclamação da República, respectivamente), o que constitui um erro. Para Theotônio Júnior, por exemplo, a primeira fase do movimento operário no Brasil se estendeu de 1900 a 1930 [28]. Houve, porém, como acabamos de ver, movimentos sociais dos trabalhadores assalariados na etapa final do Império. As aspirações republicanas, por sua vez, eram levadas adiante pelo seu suporte, por assim dizer, “natural”, as classes médias urbanas. O clientelismo e a “patronagem” vigentes excluíam da participação política a imensa maioria dos trabalhadores, não apenas dos escravos.

Uma industrialização convulsiva
O primeiro passo no sentido da industrialização brasileira foi dado com a substituição da pequena produção artesanal por unidades industriais maiores. Isso começou a acontecer no final da década de 1870, quando a abolição da escravatura encontrava-se na ordem do dia, e a solução pela imigração começou a ser considerada como alternativa. A partir da abolição da escravatura, em 1888, o desenvolvimento econômico do Brasil seguiu um padrão marcadamente capitalista, tanto no segmento agrícola (café) quanto no urbano (industrialização). No bojo desse processo, alterou-se também a estrutura do mercado, com a gradual eliminação do “comissário”, como intermediário no comércio exportador/importador: os exportadores (estrangeiros) passaram a se vincular diretamente com os produtores, e os importadores espalharam representantes pelo interior do país. Até fins do século XIX, a economia brasileira era essencialmente agrária e exportadora. Na região amazônica, produzia-se e se exportava borracha. No Norte e no Nordeste, o açúcar, o algodão, o fumo e o cacau dominavam. No Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, o café ocupava o primeiro lugar. No Rio Grande do Sul produzia-se couro, peles, erva mate (“chimarrão”), e se exportava para outras regiões do Brasil o charque.
No final do século XIX, esse quadro dominado pela economia agroexportadora começou a se transformar. Entre 1886 e 1894, a industrialização ganhou impulso, embora sua origem fosse anterior a 1880. O surgimento e o desenvolvimento das indústrias estiveram intimamente relacionados ao desempenho da economia primária exportadora, pelo menos até a crise de 1929. A industrialização não ocorreu em todo o país com a mesma intensidade. Seu polo dinâmico situava se no sudeste, particularmente em São Paulo, onde se localizava a mais poderosa economia exportadora: a cafeicultura. A economia cafeeira paulista, desenvolvendo-se no contexto da transição do trabalho escravo para o trabalho livre, e com ampla possibilidade de expansão nas terras férteis do Oeste, converteu-se na mais próspera das economias agroexportadoras: foi ali que a industrialização se desenvolveu mais rapidamente. De início, a industrialização paulista fazia parte da economia cafeeira, ou do "complexo cafeeiro", pois a produção e a exportação do café dependiam de uma complexa organização de fatores. Além da esfera propriamente de sua produção, o complexo incluía ainda seu processamento, um sistema de transporte (ferrovias), comércio de importação e exportação, bancos e, por fim, indústrias.

Industrialização do Brasil | milhares de libras esterlinas investidas em capital industrial

Como se vê no gráfico acima, tratou-se de uma industrialização “por saltos”, fortemente condicionada pelas oscilações do mercado internacional. O processo de industrialização acompanhou o ritmo do conjunto do setor exportador, não apenas do cafeeiro. Em momentos de expansão, os investimentos industriais aumentavam, e se contraíam em momentos de retração do mercado internacional. Resumindo suas conclusões acerca da industrialização brasileira anterior à crise de 1929, Wilson Suzigan aponta que no período anterior a 1914, e em menor grau até 1929, o desenvolvimento da indústria brasileira de transformação pode ser caracterizado como tendo sido induzido pela expansão do setor exportador, havendo uma clara distinção entre o crescimento industrial que ocorreu antes da Primeira Guerra Mundial e a partir desta.
O período anterior à Primeira Guerra Mundial, particularmente no século XIX, pode ser explicado, segundo Suzigan, nos termos da “teoria do crescimento econômico induzido por produtos básicos”. A expansão do setor exportador induziu investimentos não apenas nas indústrias de bens de consumo, mas também em indústrias produtoras de insumos, incluindo maquinário e peças, implementos e outros para o setor exportador; processamento ulterior de produtos de exportação (por exemplo, beneficiamento de café e refinação de açúcar); e outras atividades econômicas complementares ou subsidiárias, tais como transporte (principalmente ferrovias e navegação), bancos, comércio de importação e exportação, comércio interno, etc. [29].
Além disso, e com recursos indiretamente derivados das exportações de produtos básicos, o governo brasileiro financiou (ou garantiu juros sobre) investimentos em infraestrutura (ferrovias, portos, linhas de navegação, melhoramentos urbanos, etc.), na modernização da indústria do açúcar, na promoção da imigração, etc. O imperialismo capitalista provocou, mediante a exportação de capitais, o desenvolvimento do comércio e das forças produtivas de vários países periféricos, incluindo o Brasil (ou, mais especificamente, São Paulo e Rio de Janeiro) e a Argentina (ou, mais especificamente, Buenos Aires), e sua “europeização” econômica e cultural. No Brasil, os primeiros investimentos ingleses em serviços urbanos dataram do começo da década de 1860, com a instalação de companhias de iluminação pública a gás, de transporte urbano e de água e esgoto. A partir da segunda metade do século XIX a capital do Brasil se consolidou como centro financeiro, comercial e portuário, com a maior concentração operária do país - sendo superada por São Paulo somente na década de 1920 -, pois detinha 57% do capital industrial brasileiro, com os maiores investimentos em transporte, ferrovias e no setor manufatureiro. No início do século XX, no entanto, a participação maior no mercado brasileiro já era, em primeiro lugar, de produtos norte-americanos, seguida de produtos ingleses, italianos e franceses. Cidades como Rio de Janeiro e Buenos Aires eram “cosmopolitas”. Consumiam-se as últimas modas de Paris e se convivia com inúmeras empresas de capital estrangeiro, que controlavam quase todas as empresas fornecedoras de serviços públicos (transporte, energia, água potável encanada).
O Brasil entrou na era das ferrovias nos anos 1850, com forte presença do Estado. Políticos imperiais preferiram, para construí-los, mobilizar capitais privados externos garantindo retornos de 7% ao ano sobre o capital investido. Em 1893, todas as empresas estrangeiras com garantia de lucros, excetuando-se a próspera São Paulo Railroad, obtiveram uma média de rentabilidade de apenas 0,3% antes do subsídio. A maioria das empresas não poderia depender da própria rentabilidade, pois ela vinha exclusivamente das garantias de pagamento de taxas fixas. Em 1898, o peso das garantias de rentabilidade comprometeu um terço do orçamento da União, motivando em 1901 o governo Campos Salles, a contragosto, à expropriação de doze companhias. As aquisições de ferrovias estrangeiras em dificuldades cresceram. Em 1898, o governo detinha 34% das ferrovias diretamente, e indiretamente bancava sua rentabilidade: a estatização estava ligada a salvação do patrimônio privado. A captura financeira do Estado brasileiro continuou a todo vapor, assim como em outros países da região. Isto se acentuou a partir de 1893, com a crise mundial de sobreprodução de café, e a manifestação sucessiva dos limites da política de desvalorização monetária até então seguida, que levou o Brasil a contrair cada vez mais vultosos empréstimos externos para suprir suas necessidades financeiras.

Dívida externa brasileira | US$ milhões

Assim, “a indústria nasceu das contradições do desenvolvimento capitalista cujo centro é a expansão cafeeira... A reprodução do capital cafeeiro e das formas de subordinação da economia brasileira levaram ao nascimento e desenvolvimento da indústria que por sua vez, estava em contradição com a reprodução do capital cafeeiro e as formas de subordinação da economia brasileira... Nem a subordinação do Brasil na economia mundial e o capital cafeeiro excluem a industrialização, nem a industrialização implica na destruição dos laços que unem o Brasil à economia mundial” [30].
Em um estágio posterior, durante as décadas de 1900 e 1910, o investimento na indústria de transformação foi induzido pelas necessidades de insumos para a incipiente indústria de transformação. Algumas indústrias novas começaram a se desenvolver para a fabricação desses insumos, tais como sacos de algodão para farinha de trigo e açúcar refinado, garrafas de vidro para cerveja e outras bebidas, latas para acondicionar fósforos, cigarros e alimentos, maquinaria industrial simples como tornos, equipamento têxtil e peças, pequenos motores, etc. A partir da Primeira Guerra Mundial, embora o investimento na indústria de transformação ainda fosse, em grande parte, induzido pela expansão do setor exportador, o padrão de desenvolvimento industrial tomou se mais complexo.
Isso foi explicado pelo fato de que durante a guerra a escassez de matérias primas e insumos básicos, incluindo maquinaria e equipamento, tornou claro que a produção industrial interna teria que ser diversificada para abranger esses produtos. Nesse sentido, a guerra estimulou uma maior diversificação do crescimento industrial induzido pela expansão do setor exportador. Essa diversificação, embora tentada mesmo durante a guerra, começou realmente na década de 1920. Até 1920, a indústria têxtil (com 27% do valor total produzido), e a indústria alimentar (com 33%), indústrias de bens de consumo, concentravam os investimentos (quase 68%, segundo a tabela a seguir), enquanto a metalurgia e a mecânica só produziam 3,4% e 0,1% do valor total da produção, respectivamente. Vejamos outras características dos primórdios do desenvolvimento industrial brasileiro, para termos uma ideia mais clara das bases econômicas do novo movimento social (operário) que a indústria fez nascer.

Brasil: distribuição do capital investido por ramo de indústria

Ramo de indústria
1889
1907
1920
Têxtil
60%
20,5%
27,5%
Alimentícia
15%
26,7%
40,2%
Produtos químicos
10%
9,4%
7,9%
Artigos de vestuário e toucador
3,5%
15,9%
8,2%
Outros
11,5%
27,5%
16,1%
(Fonte: Edgar Carone. A República Velha. Instituições e classes sociais. São Paulo, Difel, 1975).

Brasil: produção industrial por Estado [da federação]

Estados
1907
1920
N° de estabelecimentos
N° de operários
N° de estabelecimentos
N° de operários
Distrito Federal
662
34.850
1.541
56.229
São Paulo
326
24.186
4.145
83.998
Rio Grande do Sul
314
15.426
1.773
24.661
Rio de Janeiro
207
13.632
454
16.796
Pernambuco
118
12.024
442
15.761
Paraná
297
4.724
623
7.295
Minas Gerais
529
9.405
1.243
18.522
Bahia
78
9.964
491
14.784
Pará
54
2.539
168
3.033
Sergipe
103
3.027
237
5.386
Santa Catarina
163
2.102
791
5.297
Amazonas
92
1.168
69
636
Alagoas
45
3.775
452
6.989
Maranhão
18
4.545
89
3.543
Mato Grosso
15
3.870
20
280
Paraíba
42
1.461
251
3.035
Ceará
18
1.207
194
4.702
Piauí
3
355
55
1.150
Rio Grande do Norte
14
560
197
2.146
Espírito Santo
4
90
75
1.005
Goiás
18
90
16
244
Acre
-
-
10
22
Totais
3.120
149.018
13.436
275.514
(Fonte: Edgar Carone. A República Velha. Instituições e classes sociais. São Paulo, Difel, 1975).

Os investimentos industriais foram expandidos para a produção de cimento, aço, papel e celulose, produtos de borracha, produtos químicos, maquinaria e equipamento e produtos de seda e raiom. Investimentos adicionais foram também realizados para o ulterior processamento de "novos" produtos de exportação, tais como óleo de caroço de algodão, carne resfriada e produtos derivados de carne, e para a modernização e expansão da capacidade de produção de algumas das indústrias tradicionais, tais como têxteis de algodão e de lã, açúcar, calçados, moagem de trigo e cervejarias. O desenvolvimento industrial brasileiro se apresentou, assim, de modo convulsivo, como uma série de “saltos” induzidos mais por pressões externas, oriundas das conjunturas sucessivas do mercado mundial, do que por fatores internos (crescimento sistemático da demanda interna de bens de consumo e de bens de capital).
A concentração industrial era forte nos quatro Estados do sudeste (com a exceção de Minas Gerais, Pernambuco e Bahia), notando-se também o crescimento vertiginoso da indústria paulista, transformada em apenas uma década (a de 1910) na maior do país. No que diz respeito à composição da produção, a indústria têxtil, primeira fase do novo processo industrial, foi decrescendo como base da industrialização, cedendo seu lugar à indústria alimentícia, na medida em que avançava a urbanização do país. A produção industrial, por outro lado, tendeu a se concentrar em alguns centros, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo. Com o tempo, São Paulo se transformou no centro industrial do Brasil, e também do movimento operário. A respeito da concentração industrial paulista, Wilson Cano apontou que “a economia cafeeira em São Paulo, exigiu, mais cedo, a instituição do regime de trabalho livre, a fim de que a acumulação cafeeira pudesse ter continuidade. A solução desse problema, pela imigração, não eliminava, apenas, aquele freio à expansão do plantio cafeeiro: fez muito mais do que isso, criando um mercado amplo para alimentos e produtos industriais de consumo corrente, abrindo, dessa forma, excelentes oportunidades de inversão, tanto para o desenvolvimento de uma agricultura mercantil quanto para a indústria...
“Essa imigração, constituindo uma superabundante oferta de força de trabalho, permitiu, ainda, a formação de um mercado de trabalho livre, que funcionou com baixas e flexíveis taxas de salários, resolvendo, precocemente, o problema do suprimento de força de trabalho à economia urbana que se desenvolve a partir da década de 1880. Portanto, a nascente indústria paulista, embora subordinada pelo capital cafeeiro, dele beneficiava-se duplamente: recebia o mercado criado pelo café, ao mesmo tempo em que dispunha de força de trabalho barata e abundante. Café, agricultura, transportes, indústria, comércio e finanças, cresciam, assim, dinâmica e integradamente, ampliando consideravelmente o potencial de acumulação do complexo paulista. Dessa forma, a economia paulista contou com amplas condições para o seu desenvolvimento, ao contrário do que ocorria no restante do país” [31].

Notas
[20] Victor Alba, tentando estabelecer uma "teoria geral" do conjunto da história do movimento operário latino-americano, distinguiu quatro etapas na formação das "ideologias operárias" em nosso continente: a) A importação (socialistas utópicos), b) A imigração (exilados das revoluções europeias), c) A naturalização ("las distintas organizaciones obreras, aunque emplean la retórica importada por los exilados europeos aprendida en las obras de algunos liberales, adaptan esas ideas, en sus programas y en su acción, para utilizarlas en la realidad latinoamericana"), d) a formação da doutrina própria ("surge la necesidad de una interpretación propia de la realidad latinoamericana") (Historia del Movimiento Obrero en América Latina. México, Libreros Mexicanos Unidos, 1964). A teoria do "exotismo" do pensamento socialista na realidade latino-americana só pode ter uma validade limitada ao período no qual a difusão das ideias não ultrapassava o estreito círculo dos imigrantes europeus.
[21] Michael Lowy. Le Marxisme en Amérique Latine. Paris, François Maspéro, 1980.
[22] Evaristo de Moraes Filho. O Socialismo Brasileiro. Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1981.
[23] Silvério Martins Fontes (1858-1928) nasceu em São Cristóvão, então capital do Sergipe. Ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia; na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro concluiu o curso e defendeu tese sobre infecção hospitalar, bem à frente do seu tempo. Mudou-se em 1881 para Santos, onde iniciou o exercício da profissão, tornando-se também um grande líder social. Trabalhou no Hospital de Caridade, onde permaneceu até 1901, revertendo para ele seu salário. Presidiu a Santa Casa de Santos e militou no Asilo dos Órfãos. Além de médico e jornalista, foi um intelectual e sociólogo que reunia em sua residência homens cultos, republicanos e abolicionistas. Fundou o Centro Socialista de Santos e o jornal A Questão Social, divulgador do socialismo no Brasil. Escreveu também o Manifesto Socialista, de repercussão nacional. Seu filho, José Martins Fontes, tornou-se um dos maiores poetas de sua geração e criou uma editora paulista existente até hoje.
[24] Astrojildo Pereira. Silvério Fontes, pioneiro do marxismo no Brasil. Estudos Sociais, vol. III/n° 12, Rio de Janeiro, abril de 1962.
[25] Boris Fausto. Trabalho Urbano e Conflito Social (1890 1920). São Paulo, DIFEL, 1979.
[26] Michael Hall e Paulo Sérgio Pinheiro. A Classe Operária no Brasil 1889 1930. São Paulo, Alfa Ômega, 1979.
[27] Antonio Piccarollo, militante fundador do Partido Socialista Italiano, em 1892, tornou-se um de seus intelectuais proeminentes, tendo dirigido jornais e sindicatos ligados ao Partido. Em 1904, foi convidado pelo Partido Socialista Italiano, seção de São Paulo, para dirigir o jornal Avanti! publicado em língua italiana na cidade brasileira. Já no Brasil, em 1908, publicou O Socialismo no Brasil, livro no qual tentava adaptar o marxismo ao país e defendia a imigração italiana como a mais adequada para o desenvolvimento econômico e social brasileiro. Dirigiu diversos órgãos de comunicação: Il Secolo (1906-1910), La Rivista Coloniale (1910-1924), La Difesa (1923-1926), Il Risorgimento (1928). Foi também colaborador do jornal O Estado de S. Paulo. Nos anos 1920, liderou a oposição antifascista dos italianos de São Paulo. Fundou a Faculdade Paulista de Letras e Filosofia no ano de 1931 e foi um dos primeiros professores da Escola Livre de Sociologia e Política, onde trabalhou até 1946. Parte da documentação amealhada por ele como jornalista e professor encontra-se no Arquivo Edgard Leuenroth desde 1974. O Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, de São Paulo, instituição da qual foi também um dos fundadores, mantém igualmente um Arquivo Antonio Piccarolo. Morreu em sua casa no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, em 1947, deixando mais de quatro dezenas de livros publicados (Frederico Alexandre de Moraes Hecker. O Socialismo em São Paulo: a Atuação de Antonio Piccarollo. Tese de Doutorado, FFLCH-USP, 1996).
[28] Theotônio Júnior. O movimento operário no Brasil. Revista Brasiliense n° 39, São Paulo, janeiro 1962.
[29] Wilson Suzigan. Indústria Brasileira. Origem e desenvolvimento. São Paulo, Brasiliense, 1986.
[30] Sergio Silva. Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no Brasil. São Paulo, Alfa Ômega, 1976, pp. 110-113.
[31] Cano aponta, como exemplos, a Amazônia, com sua típica "economia do aviamento"; o Nordeste, por suas precárias relações capitalistas de produção, bem como por sua concentrada estrutura de propriedade e de renda; o extremo Sul, pela forma de produção da economia camponesa, que fragmentava o excedente e gerava uma indústria constituída, também, pela pequena e média empresa; a região do Rio de Janeiro, pela decadência cafeeira e pela precariedade de sua agricultura; Minas Gerais, por sua indústria dispersa e desconcentrada que, embora protegida por custos de transportes, sofria a limitação de seu próprio mercado (Wilson Cano. Raízes da Concentração Industrial em São Paulo. São Paulo, Difel, 1977).

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