terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Origens do movimento operário e do socialismo no Brasil (2 de 4)

Artigo
Recebido em 24 de dezembro de 2015
Por Osvaldo Coggiola, professor titular de História Contemporânea da Universidade de São Paulo [USP].

Trabalhadores ferroviários do século 19 no Rio de Janeiro
Industrialismo
Apesar dos obstáculos houve, na etapa final do Império, um importante desenvolvimento industrial. Após a construção da primeira ferrovia brasileira, outras se desenvolveram rapidamente, acompanhando sempre a trilha do café. A construção de 57 estradas de ferro, até 1885; o progresso dos transportes terrestres, aliado ao grande desenvolvimento que experimentou a navegação a vapor, concorreu para a melhoria e o barateamento da distribuição dos produtos no mercado interno e, por conseguinte, para o estabelecimento de bases para o advento da indústria nacional. A partir de 1850, ponderáveis parcelas dos recursos provenientes da exportação foram mobilizadas como capitais para empreendimentos na indústria e no comércio. Entre 1850 e 1865 fundaram se 180 sociedades comerciais e industriais no Brasil. A organização do crédito acompanhou a evolução do movimento financeiro e, em 1854, instalou se um “Banco do Brasil” [13].
O movimento se acelerou no último decênio do século XIX; antes de 1880, havia apenas 200 estabelecimentos fabris no país; no último ano do Império seu número chegou a 636. O setor industrial do Brasil passou de 636 fábricas com um total de 54.169 operários, em 1889, para 3.250 fábricas com um total de 150.841 operários em 1907. Já se usava bastante o vapor e a eletricidade, afora a energia hidráulica. Conforme dados desse ano, 30% da produção industrial estava situada no Rio de Janeiro, 16% em São Paulo, 7% no Rio Grande do Sul e 4% em Minas Gerais. A hegemonia paulista teve de esperar o surto industrial da Primeira Guerra Mundial.
Analisando o surto industrial de 1880-1895, Maurício Vinhas de Queirós concluiu que mais do que a quarta parte dos capitais investidos no Brasil em atividades industriais (exatamente 26,2%) tinham sido investidos no período entre 1880 e 1894; antes dessas datas, desde o período da Colônia passando por todo o Império, só haviam sido aplicados 6,4% [14]. O ritmo do desenvolvimento industrial, porém, não acompanhou a velocidade da dissolução das velhas relações sociais pré-capitalistas, o que informa a natureza da classe operária nesse período. Estatísticas de 1882 mostram que em seis das maiores províncias do país, justamente aquelas em que mais estavam se desenvolvendo atividades manufatureiras — Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Ceará —, mais de 50% da população entre 13 e 45 anos de idade era constituída por desocupados. Essa percentagem aumentou ainda mais depois da Abolição, quando o escravo foi deixado ao léu do mercado de trabalho.
Viviam-se os tempos da “grande depressão” da economia mundial, com desaceleração do ritmo de crescimento do volume do comércio mundial (que tinha atingido seu auge na década de 1860), localizada no último quartel do século XIX. Em 1888, a população escrava do Brasil (composta de 600 mil pessoas) constituía 4% da população total do país, enquanto que, em 1840, meio século antes, dois milhões de escravos constituíam 40% do total dos habitantes do Brasil. A massa de libertos, majoritariamente desempregados, aumentou com os milhões de camponeses nordestinos deslocados pela grande seca de 1877-1880. Por outro lado, 200 mil imigrantes estrangeiros chegaram ao Brasil no decênio compreendido entre 1880 e 1889. O desemprego reinante permitia pagar salários muito baixos, constituindo paralelamente um enorme exército industrial de reserva.
Certas estatísticas indicam, para 1872, 282 mil pessoas ocupadas em “atividades industriais”. A maioria, porém, deve tê-lo sido em ocupações artesanais, sequer permanentes, como o demonstra o fato de existirem em São Paulo (um dos polos do desenvolvimento industrial), na última década do século XIX, só 52 estabelecimentos industriais. Embora, referindo se a São Paulo, constatou Azis Simão: “Já na década de 1870, a quilometragem de ferrovias abertas ao tráfego passou de quase 150 para cerca de 1200, subindo a 2239 na década seguinte e a 3507 em 1889 (...) Entre 1873 e 1890, a quantidade de artífices subiu, pelo menos, de 94 para 184; e de oficinas, sem especificação do número do pessoal ocupado, elevou se de 13 para 164. Entre 1871 e 1875, se instalaram com êxito as cinco primeiras fábricas de tecidos de algodão, número que subiu a 13 em 1887. As estatísticas de 1872 e outras do fim do século não são utilizáveis por serem incompletas. Achava-se então instalada apenas uma fábrica de tecidos, com menos de 100 operários, o que justifica o citado reparo. O que importa destacar é o fato de que já no último quartel do século passado um proletariado urbano começava a diferenciar-se no quadro da economia regional” [15].
A importância da imigração na formação do operariado brasileiro não é exagerável. Leôncio Martins Rodrigues calculou que, até 1920, os imigrantes constituíam 95% dos trabalhadores chegados ao estado de São Paulo. A imigração já foi importante antes da proclamação da República, e não foram poucos os imigrantes italianos que chegaram a trabalhar nas fazendas de café paulistas ao lado de trabalhadores negros escravizados. Um viajante chegado a São Paulo em 1900, depois de 30 anos de ausência (Alfredo Moreira Pinto, escrevendo em A Cidade de S.Paulo em 1900) exclamava que “era então São Paulo uma cidade puramente paulista, hoje é uma cidade italiana”.
José de Souza Martins enfatizou a importância da imigração na dissolução das velhas relações de trabalho: “Sem ela, dificilmente correntes migratórias espontâneas teriam se estabelecido para o Brasil, já que sem elas teria sido impossível pôr fim à escravidão negra, como afinal se deu” [16]. Na medida em que a imigração quebrava as velhas relações de trabalho, mas não se produzia a quebra simultânea da velha estrutura da propriedade (pois o desenvolvimento industrial coexistia com ela), contribuiu muito menos ao movimento industrial propriamente dito, através de uma significativa ampliação do mercado interno (como se deu, por exemplo, nos EUA) e criando, por conseguinte, uma maior necessidade de mão de obra industrial.
No ano de 1850 foi promulgada uma lei imperial, conhecida como “Lei de Terras”, que proibia toda outra forma de acesso à terra, inclusive às terras devolutas, que não fosse por meio da compra através de dinheiro. Era um passo decisivo em direção da mercantilização (valorização) de todo o território brasileiro. E também da consolidação da estrutura latifundiária da propriedade e/ou posse da terra, ensejada com as antigas sesmarias coloniais. Com isso se instituíam os critérios de absorção do trabalhador estrangeiro pela sociedade brasileira: sendo imigrante pobre, ele deveria trabalhar primeiro para os fazendeiros para formar o seu pecúlio, e comprar depois a terra que almejava, se quisesse se tornar um trabalhador autônomo, que era o motivo que o trouxera para terras tão longínquas. De certo modo, para tornar se um camponês livre, o imigrante devia oferecer durante tempo indeterminado ao grande proprietário de terras, como uma espécie de tributo, o seu trabalho e o da sua família.
Quando foi proclamada a República funcionavam no Brasil 600 estabelecimentos industriais. O desenvolvimento do capitalismo trouxe consigo o surgimento e o desenvolvimento da classe operária. Em 1907, o primeiro censo industrial realizado no Brasil acusava a existência de 3.258 empresas, nas quais trabalhavam 150.841 operários, com um grau alto de concentração, inclusive para os padrões mundiais da época. Em 222 fábricas de tecidos encontravam se 52.656 operários, mais de um terço dos operários industriais. Quanto à localização do parque industrial, situava se no Rio de Janeiro, 33%, em São Paulo, 16%, e no Rio Grande do Sul, 15%, enquanto que o Estado do Rio aparecia com 7% da produção industrial. O crescimento industrial acelerou se no curso da guerra mundial de 1914/18. Reduziram se drasticamente então as possibilidades de importação e, consequentemente, o mercado interno insatisfeito determinou o aceleramento no ritmo da industrialização. O censo de 1920 acusou a existência de 13.336 estabelecimentos industriais, nos quais trabalhavam 275.512 operários.
Na medida em que o trabalhador estrangeiro era preferido ao nacional, em especial ao negro liberto, para os empregos industriais, em condições em que o desenvolvimento industrial não cobria a oferta de força de trabalho libertada pela quebra das velhas relações escravocratas e patriarcais, criava-se um elemento fundamental da formação da classe operária brasileira. A imigração corria paralela aos primeiros surtos industriais. Colocava se o problema da “nacionalização da classe operária”, pois a condição estrangeira da maioria do operariado se apoiava na exclusão dos potenciais trabalhadores industriais nacionais, acirrando, de modo suplementar, a concorrência pelo emprego industrial, enfraquecendo a classe operária como um todo.

Trabalhadores e industriais
A industrialização fez surgir no Brasil um novo perfil social com o surgimento do operário fabril. As condições de vida dos trabalhadores estrangeiros estavam longe de ser invejáveis. No relatório (de 1891) do cônsul italiano sobre as condições do trabalho de seus compatriotas imigrantes no meio rural, constatava se que “o colono que vive nas fazendas geralmente se encontra em más condições higiênicas no que concerne à habitação. Não ainda livre dos métodos usados durante séculos com os negros, não dão os fazendeiros nenhuma importância às providências educativas, higiênicas, humanitárias. Os gastos com médico e remédios, fantasticamente exagerados no interior, estão todos a cargo do colono. Encontrei colonos que tiveram que pagar por uma visita ao médico até 50 mil réis, isto é, o quanto ele ganha num ano tratando mil pés de café. Em muitas fazendas há o padre, em poucas a escola. O padre, pago pelo fazendeiro pela missa, recebe também do colono uma taxa especial e arbitrária por cada ato do seu ministério exercido por via particular...
E continuava: “A causa principal da penúria frequentemente contínua dos meios do colono é o sistema, seguido geralmente, de comprar, como se fora um tributo obrigatório, nas vendas, que geralmente são uma especulação pessoal do próprio fazendeiro, e nas quais os gêneros são vendidos a preços duplos e talvez triplos do preço na cidade ou no vilarejo mais próximo. Quantas vezes tive que me ocupar com as reclamações dos colonos que, no momento da colheita dos cereais, viam-se expulsos da fazenda, sob pretexto fútil, sem direito ao fruto do seu trabalho, sendo lhes arbitrariamente vedada a colheita que era de sua propriedade, e ficando privados dos animais por eles criados… Os contratos entre fazendeiro e colono, ou o costume e o arbítrio na falta de contratos, impõem ao colono numerosas multas, que às vezes chegam a metade do lucro bruto anual do colono”.
A mão de obra era abundante para uma capacidade produtiva restrita. Nas indústrias, 79% da força de trabalho ocupada nas manufaturas em São Paulo (em 1893), e 39% da força de trabalho do Rio de Janeiro (em 1890) era constituída por estrangeiros. Os lucros nessas indústrias semiartesanais baseavam se na intensificação da exploração da força de trabalho (produção de mais valia absoluta). Estando a produção agrícola voltada para a exportação, era difícil introduzir um barateamento da reprodução da força de trabalho. Se os investimentos em maquinário (que aumentariam a produtividade do trabalho) eram poucos, os lucros provinham principalmente do rebaixamento do salário real, da exploração de mulheres e crianças, da intensificação do ritmo de trabalho, da extensão da jornada de trabalho.
O nível da acumulação de capital era também determinado pelas relações de força existentes entre patrões e operários. Estes tiveram, nos primeiros estágios da industrialização brasileira, a desvantagem determinada pela existência do um grande número de desempregados ou subempregados e, além disso, pela política estatal. Se o Estado não intervinha para proteger a simples reprodução da força de trabalho (ausência de salários-mínimos legais, de férias remuneradas, péssimas condições de trabalho em geral) sua polícia intervinha cada vez que um movimento grevista “perturbava” a “ordem pública”. Latifúndio agrário, “capitalismo (industrial) tardio”, e Estado oligárquico (monárquico ou republicano) fechavam o círculo das condições dentro das quais se formava a classe operária brasileira. O círculo dentro do qual iriam esvaziar se as esperanças dos abolicionistas radicais na “redenção através do trabalho livre”. Nesse atraso geral, a política imigratória era um aspecto orgânico. Cada elo ajudava a fechar a corrente.
Industriais e operários se posicionaram perante a situação econômica do Império. Em 1881, a Associação Industrial, presidida pelo deputado Dr. Antonio Felício dos Santos, deu a conhecer um “Manifesto”, no qual, além de denunciar a situação em que se encontravam as primeiras tentativas industriais do Brasil, se encaravam com rara clareza os problemas históricos da estrutura política e econômica do país, em relação com a sua transformação industrial. O eixo do Manifesto era a demanda de proteção alfandegária para as indústrias brasileiras, contra a política livre cambista praticada pelo governo: “Chamão se livre cambistas os que assim se mostrão realmente proteccionistas... do estrangeiro”: nessa frase do Manifesto encontrava se o resumo do protesto dos industriais.
Noutros trechos, dizia se: "Como todas os factores da riqueza pública, porém, muito mais do que qualquer outro, tem (a indústria) se desenvolvido quasi absolutamente sem direção nem auxílio do centro governativo, quasi ignorada e ás vezes até ridiculisada pelos homens políticos. Só se manifesta a acção do governo pelas pesadas contribuições a nós impostas para ocorrer ás despezas publicas distribuídas exclusivamente ás outras classes sociais. De tempos em tempos um acto desastrado dos altos poderes do Estado, com o fim de obter de prompto algumas migalhas para o Thesouro, vem ferir, talvez de morte, esta ou aquella indústria que prosperava".
Mas, por que os homens políticos agiam desse modo? O “Manifesto dos Industriais” ensaiava uma explicação: “Os homens incumbidos há 50 annos da gestão dos negócios públicos no Brasil se tem ocupado de uma política partidária, estreita, esgotando as forças intellectuaes desta geração em estéreis discussões, em exclusivismos pessoaes sem objetivo ideal nobre nem resultados positivos de progresso. N'ellas consome se a actividade nacional que devêra empregar se na concorrencia industrial com outros paízes, creando as condições mais adequadas para a satisfação das necessidades e aspirações da humanidade no século presente (...) Tamanho erro provêm em linha recta da educação viciosa bebida nas Academias pelos diretores do paíz, theoricos puros, sem conhecimentos positivos, mais litteratos do que homens de sciencia”.
Criticava o “Manifesto” às classes latifundiárias como beneficiárias da política governamental; o governo, porém, não era criticado como expressão dessas classes, mas como um governo incapaz, de "bacharéis" falsamente cultos, que agiam desse modo devido à sua condição intelectual e à sua formação. Notava se como a monocultura e a ausência de imigração maciça possuíam as mesmas causas: “O Brasil, a despeito de tantas vantagens naturaes e tantos recursos para o desenvolvimento progressivo de um grande povo, vê tristemente fugirem de suas plagas as levas espontaneas de homens laboriosos, transbordados continuamente da Europa. Por outro lado o absenteismo, a emigração dos capitaes, actuando como uma torrente esterilisadora que lava o humus do solo, prepara a consumpção lenta, cujos effeitos se farão sentir em todo o organismo social á menor perturbação econômica. Basta uma baixa no valor ou na producção do nosso quase único gênero de exportação, para determinar uma crise de consequencias incalculaveis”. Contrastava-se essa situação com o protecionismo adotado pela Inglaterra nas primeiras etapas do seu desenvolvimento industrial, e com o rumo adotado pelos EUA: “Considera se lá atrazados em civilisação os Estados Unidos da América do Norte que firmão sua riqueza no regimen protector, trilhando o caminho antigo da metropole o por isso attrahindo para seu seio e assimilando uma perenne immigração de operários e pequenos capitalistas (...) Ahi os productos induatriaes já excedem o consumo e exportão-se largamente”.
A situação do Brasil era bem diversa daquela dos modelos mundiais de industrialização: “Não é o Brasil uma simples feitoria commercial e colonia explorada pelos traficantes europeus que com raras excepções nem se fixão em seu solo, nem se identificão com seus interesses? Só um parlamento como o do Brasil, sem representantes das classes productoras, poderia adaptar sem exame o aditivo, que transitou com a Lei do Orcamento no anno passado, mandando reformar a tarifa das alfandegas, alterando os valores officiaes dos objectos importados, prohibindo em todo caso o augmento (mas não a diminuição) na porcentagem ou razão dos direitos fiscaes! (...) Nos paízes novos não póde medrar a industria sem alento dos altos poderes do Estado. Todos os governos civilisados começarão assim, favorecendo o desenvolvimento do orgão industrial, cujos elementos as grandes cidades principalmente encerrarão em seu seio. A moralisação das classes pobres pelo trabalho é, quando mais não seja, uma questão de alta policia. A producção para o consumo, ao menos, é uma noção de economia elementar”.
Pedia-se, em consequência, uma política industrial nacionalista, ao mesmo tempo em que os pobres eram qualificados de “imorais”, mas “moralizáveis” pela exploração fabril. As aspirações industrialistas, por outro lado, eram limitadas à indústria de consumo de bens-salário. O “Manifesto” agregava que a ausência de desenvolvimento industrial comprometia não só a soberania econômica, mas também a soberania nacional pura e simples. Punha como exemplo a falência da cabotagem nacional, “escola de marinha mercante”, o que deixava o Brasil, em caso de guerra ou desastre naval, com o único “triste e perigoso recurso dos mercenários estrangeiros”.

Primeiras manifestações operárias e socialistas
Na época, a escassa e raquítica representação operária, ainda transitando da fase corporativista para a fase de organização sindical, se posicionava perante as grandes opções de política econômica do país em termos semelhantes aos das associações industriais patronais, estabelecendo com elas uma espécie de “frente única pela industrialização do país”, o que refletia uma escassa diferenciação social, e uma nula independência política. Assim, na mesma época da movimentação industrialista, algumas das primeiras organizações operárias colocavam se na perspectiva política dos industriais.
Em 1877, um “Manifesto dos operários chapeleiros”, dirigido às autoridades imperiais, afirmava: “Os abaixo assinados, artistas chapeleiros, sempre incansáveis no trabalho para o engrandicemento do país, promovendo e auxiliando os diversos ramos da indústria nacional, tomam a liberdade de expor vos a decadência desta indústria (que) não provém da imperfeição com que porventura o chapéu seja acabado, senão dos insignificantes direitos a que está sujeito o que o mercador importa do estrangeiro (...) Os pêlos, as drogas para tintas, a gomalaca, os ferros e fitas tanto de lã como de seda, tudo ainda recebemos do estrangeiro, sujeitos a direitos mais ou menos pesados, que junto com a mão de obra e muitas outras despessas que demanda uma fábrica no Brasil, faz com que a fabricante não possa acabar o chapéu por preço, de modo a concorrer vantajosamente com o estrangeiro (...) Protegido deste modo o fabrico nacional, não será desarrazoado esperar que esta indústria crie outras, como seja a aclimação da lebre, do coelho, do carneiro e outros animais que nos forneçam os pêlos, e isto, de certo, trará por outro lado consigo resultados mui benéficos para o país. O fabrico do chapéu de lã e por ora diminuto, mas é de esperar que aumente, logo que cesse de vir do estrangeiro”.
O “Manifesto do Corpo Coletivo União Operária”, de 1885, referia se a “V. M. Imperial, Protetor da Classe Operária” (os industriais empregavam tom semelhante para referir se ao Imperador), e pedia a aprovação de uma série de artigos para obter os fins que seguintes: “centralização dos trabalhos de manufaturas para o Estado no país; auxílio ao desenvolvimento geral de manufaturas no Império... Banca Auxiliar da Indústria no Império do Brasil... Imposto adicional às manufaturas importadas dos portos estrangeiros, as quais são fabricadas no país... Estatística profissional”. As reivindicações próprias da classe operária estavam situadas no segundo plano nessas colocações. A situação da indústria no Império, a fraqueza da organização operária, contribuíam para abrir perspectiva a posicionamentos de unidade dos empresários industriais com os operários em torno de um programa de nacionalismo econômico e político, com o qual inaugurava se uma das vertentes da política brasileira no século XX. Mas, nem a difusão das ideias prevalecentes no operariado europeu de onde provinha boa parte do operariado brasileiro, nem a própria situação social da classe operaria brasileira, deixavam de colocar a necessidade de uma organização e de uma política independentes do movimento operário.
Essa necessidade expressou se nas ideologias e pequenas organizações que se reclamavam do “socialismo” e do “trabalhismo”. As primeiras expressões socialistas no Brasil datam da década de 1840, e correspondem ao socialismo filantrópico dos intelectuais éclairés, que possuíam importante influência na Europa. No livro O Socialismo, do General Abreu e Lima, o autor definia o socialismo como “um desígnio da Providência”. Em 1845, Eugene Tardonnet (discípulo do Conde de Saint Simon temporariamente residente no Brasil) criava no Rio de Janeiro a Revista Socialista. M. G. de S. Rego começou no mesmo ano a publicação de O Socialista de Rio de Janeiro, tri semanário que foi publicado até 1847. Nele, afirmava se: “O vocábulo ‘socialista’, sob cuja denominação sai hoje a luz nossa folha, define exuberantemente o objeto principal com que ela é publicada: a conservação e melhoramento do pouco de bom que existe entre nós; a extirpação de abscessos e vícios provenientes da ignorância, da falsa educação e imitação sem critério; a introdução de novidades do progresso universal... O Socialista tratará de agronomia prática, de economia social, didática, política preventiva e medicina doméstica e, sobretudo, do socialismo, ciência novamente explorada, da qual basta dizer que seu fim é de ensinar aos homens a se amarem uns aos outros”.

General Abreu e Lima (1794-1869)

Logo depois, porém, outro tipo de expressão dos trabalhadores, surgido dos próprios trabalhadores, fez sua estreia. O Jornal dos Tipógrafos foi criado em 1858, no mesmo ano em que os operários desse ramo se organizavam numa entidade própria e deflagravam uma greve, a primeira greve do Rio de Janeiro, talvez do Brasil. A greve de 1858 uniu os tipógrafos dos jornais Diário do Rio de Janeiro, Correio Mercantil e Jornal do Comércio, que, insatisfeitos com os míseros salários que percebiam, declararam se em greve, exigindo uma elevação de 10 tostões diários em seus vencimentos. Essa greve durou vários dias. Os tipógrafos editaram seu próprio jornal, para o qual, como contribuição, uma das primeiras organizações operárias surgidas no Brasil, a Imperial Associação Tipográfica Fluminense, deu onze contos de réis. A greve foi vitoriosa. Contou com a solidariedade dos tipógrafos da Imprensa Nacional que inicialmente negaram se a furar a greve, como lhes exigia o governo. Os tipógrafos, desde então, assumiram a vanguarda não só das lutas como também da organização da classe operária no Brasil.
O movimento operário brasileiro manifestou-se inicialmente, portanto, na mesma época do argentino ou do chileno; outra coisa é que suas manifestações independentes fossem ulteriormente abafadas, no cenário geral do país, pela força e abrangência da campanha abolicionista, ela sim um fato único na América Latina da segunda metade do século XIX. No n° 14 do Jornal dos Tipógrafos podia-se ler: “Já é tempo de acabarem as opressões de toda a casta; já é tempo e se guerrear por todos os meios legais toda exploração do homem pelo mesmo homem”. Um movimento operário, claramente classista, nascia.
As primeiras tentativas de se organizar um "Partido Socialista", como expressão política dos interesses independentes do proletariado, deveriam, no entanto, aguardar até a década de 1880. Em geral, tratou se de tentativas frágeis, temporárias e localizadas, que não atingiram abrangência nacional, mas deve-se lembrar que isso acontecia com os partidos políticos em geral, inclusive os representantivos das classes dominantes. Ainda assim, um Partido Operário (do Brasil), dirigiu se em 1890 à Internacional Socialista, mostrando a intenção de vincular o proletariado brasileiro ao processo que percorria então o movimento operário europeu: “Inúmeras dificuldades impediram a construção de um partido operário a nível nacional. Aliás, as classes dominantes também não conseguiram dar vida real senão a partidos republicanos estaduais (...) Ter em conta o minúsculo peso social específico do proletariado em relação ao conjunto da sociedade é fundamental para entendermos a situação concreta vivida por nossos primeiros socialistas. A estrutura e a composição étnica do proletariado na época, composto de trabalhadores das mais variadas nacionalidades e raças, falando diferentes idiomas, criaram dificuldades suplementares. Sem falar no fator geográfico, que impediu o contato frequente, devido às grandes distâncias que separavam os pequenos núcleos, dispersos e fragmentados num território imenso. Acrescente se o fato de a indústria em geral estar muito pouco desenvolvida, havendo um número reduzido de grandes fábricas e muitas pequenas oficinas, tanto no Rio de janeiro como em São Paulo. Nos demais estados a indústria era ainda mais raquítica, não passando o movimento sindical e operário de uma vida molecular” [17].
Na medida em que os “partidos socialistas” se propunham uma progressão no plano eleitoral como via para a sua implantação, não podiam superar por si sós a fragmentação geográfica da vida política brasileira. A implantação da República, com sua ênfase no federalismo, agravou este problema, em vez de alivia-lo. De qualquer modo, as tentativas de se criar um Partido Socialista aumentaram nos primeiros anos da República. No marco da República oligárquica, os socialistas se apresentavam menos como os portadores de um interesse de classe, e mais como os defensores da modernidade e da moralidade pública, o que evidencia a diferente função que um Partido Socialista devia preencher, no Brasil ou no mundo periférico, em relação aos seus pares da Europa. No Brasil sobrevivia a hegemonia do setor latifundiário, agora principalmente do suleste do país. Juridicamente, a inexistência da Justiça Eleitoral, o voto aberto e a falta de mecanismos eficazes de controle asseguravam a mais absoluta impunidade para a dominação política do latifundiário, invariavelmente o chefe da política local. O jurista Evaristo de Moraes [18], membro da geração socialista das primeiras décadas do século XX, escrevia: “Constituiria, sem dúvida, a realização deste propósito (a organização política do operariado) a única possibilidade de reerguimento de nossa suposta democracia, até agora entregue à dominação absoluta e interesseira de politicantes profissionais, sem programa e sem ideias. Só medraram, até o presente, com o nome de ‘partidos’, as agremiações de interesses eleitorais e de apetites individuais que, em volta de um homem mais ou menos enérgico e maneiroso, souberam apoderar se dos presidentes o souberam dobrá-los para sua serventia (...) De ideias, de princípios, nunca se cogitou seriamente. Tudo sempre foi questão de pessoas, de arranjos, de conluios ou de exibições de mandonismo despótico, para inutilizar adversários, ou convencer vacilantes” [19].

Notas
[13] Maria José Villaça. A Força de Trabalho no Brasil. São Paulo, Pioneira – EDUSP, 1967.
[14] Maurício Vinhas de Queirós. O surto industrial de 1880-1895. Debate & Crítica n° 6, São Paulo, julho de 1975.
[15] Azis Simão. Sindicato e Estado. Suas relações na formação do proletariado de São Paulo. São Paulo, EDUSP, 1966.
[16] José de Souza Martins. Empresários e trabalhadores de origem italiana no desenvolvimento industrial brasileiro entre 1880 e 1914. Dados (Revista de Ciências Sociais) vol. 24, n° 2, Rio de Janeiro, IUPERJ, 1981.
[17] Francisco Foot e Victor Leonardi. História da Indústria e do Trabalho no Brasil. São Paulo, Global, 1982.
[18] Antônio Evaristo de Morais (1871-1939) foi rábula, advogado criminalista e historiador brasileiro. Em 1890 participou da construção do Partido Operário, primeira agremiação partidária de caráter classista e socialista da história do Brasil. Estreou no júri em 1894, trabalhando no escritório Silva Nunes e Ferreira do Faro. Após 23 anos de prática forense, aos quarenta e cinco de idade, veio finalmente a formar-se em Direito. Foi cofundador da Associação Brasileira de Imprensa, em 1908. Na década de 1910 trabalhou na defesa dos marinheiros rebelados na Revolta da Chibata. Tornou célebre a campanha pela anistia dos presos, que somente suspenderam a revolta com a promessa jamais cumprida de o governo brasileiro não cometer represálias contra os rebeldes. Foi advogado de defesa de João Cândido Felisberto, o marinheiro conhecido como “Almirante Negro” pela sua formidável campanha estratégica na condução da rebelião dos marinheiros, imortalizado como o marinheiro da menor patente que derrotou a Marinha. Em 1902 participou da fundação do Partido Socialista, e foi o principal responsável pela sua participação na Segunda Internacional. Evaristo se notabilizou ao defender a tese de que os intelectuais de esquerda tinham uma obrigação revolucionária de se aliar com a classe operária a fim de ajudá-la na intervenção política. Especializou-se na defesa trabalhista, embora tenha notabilizado no tribunal do júri. Graças a seu histórico de defesa das questões laborais, integrou o Ministério do Trabalho, inovação criada por Getúlio Vargas, colaborando na redação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
[19] Evaristo de Moraes Filho. O Problema do Sindicato Único no Brasil. São Paulo, Alfa Ômega, 1978.

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