terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Leituras em Walter Benjamin (4) | A recepção da obra de Walter Benjamin na UFPE

Recebido em 05 de janeiro de 2016
Ensaio
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.

Jeanne Marie Gagnebin
Deve-se à filósofa suíça Jeanne Marie Gagnebin a primeira apresentação da Filosofia da História de Walter Benjamin (1983, 1985) entre nós, apesar de sua tese de doutorado sobre o pensamento deste autor nunca ter sido publicada e traduzida no Brasil (1978). Antes dela, apareceram o livro de José Guilherme Merquior sobre a Escola de Frankfurt (1969) e uma referência de Leandro Konder num livro sobre os marxistas e a arte. A introdução biobibliográfica de Gagnebin tratava de temas e conceitos recorrentes na obra benjaminiana, tais como: memória, alegoria, salvação, crítica e narrativa, e possuía uma forte conotação religiosa (judaizante), muitos anos depois aprofundada num livro maior intitulado História e narrativa em Walter Benjamin (1994).

A recepção “talmúdica” da obra de Walter Benjamin recebeu de Jeanne Marie Gagnebin um tratamento filológico e hermenêutico avesso a todo e qualquer esforço de aplicação, adaptação ou apropriação metodológica por parte de outros estudiosos, a ponto da autora afirmar não existir um método ou possibilidade de aproveitamento metodológico dos ensaios do filósofo judeu. Comentando o “boom” do interesse despertado no público brasileiro pela obra de Walter Benjamin, diria a ensaísta suíça: “Retomar este pensamento nos parece significar mais do que parafraseá-lo com entusiasmo ou seguir uma moda ditirâmbica: entusiasmo e ditirambos dos quais os países latinos são pródigos quando descobriram um pouco tardiamente este autor, judeu, teólogo e marxista aureolado pelo seu trágico e exemplar suicídio” (1994). Em mais de uma ocasião, a autora voltaria a insistir em que não há como extrair qualquer indicação metodológica dos trabalhos de Benjamin, dado o caráter fragmentário e complexo de sua obra, que consistira mais “na destruição crítica” do que na construção de novas verdades.
A posição de Jeanne Marie Gagnebin contrasta vivamente com a do historiador e crítico alemão Willi Bolle, que extraiu um “método fisionômico” do livro O trabalho das passagens e o aplicou no estudo comparativo de três metrópoles: Berlim, Paris e São Paulo (2001). Bolle em flagrante desacordo com a filósofa suíça, não só defende a possibilidade de uma apropriação metodológica da obra benjaminiana a partir do conceito de “imagens dialéticas”, como aplicou essa metodologia ao estudo da metrópole moderna (1994). Mas, ao que parece, o professor alemão desconhece a recepção da obra de Walter Benjamin no Brasil, pois afirma abertamente que até hoje os historiadores não conhecem ou não se apropriaram das sugestões teórico-metodológicas oferecidas pela obra desse autor, limitando-se a comentá-la. A impudente afirmação de W. Bolle ignora solenemente a monumental pesquisa de campo feita, aliás, por um orientando seu, Gunter Karl Pressler, que mapeou – como ninguém antes tinha feito – a recepção da obra de Benjamin entre nós, no período que vai de 1960 até 2005.
Segundo Karl Pressler, a história da recepção do pensamento de Walter Benjamin no Brasil pode ser dividida em quatro fases; e uma das principais fases é justamente a da aplicação criativa da obra benjaminiana ao contexto da redemocratização brasileira, quando o país buscava redescobrir (“inventar”) a sua identidade. É nesta fase marcada pelo início da publicação das “obras escolhidas” pela editora Brasiliense, que as “teses sobre o conceito de História”, “O narrador”, “A origem do drama barroco alemão” e tantos outros passaram a ser largamente utilizados para repensar o país e os problemas de seu povo. Período este que seria substituído por uma fase de estudos filológicos e hermenêuticos. Estudos voltados para o espírito e a letra do texto benjaminiano (2006). A chamada fase da aplicação criativa da obra de Walter Benjamin no Brasil levaria Pressler a refazer a conhecida tríade hermenêutica, da seguinte forma: ao invés de compreender, interpretar e aplicar, aqui seria ler, aplicar e entender.
O que vem a seguir é uma pequena mostra das possibilidades de aplicação criativa do “método benjaminiano”. A ideia de usar o “corpus” crítico-filosófico benjaminiano, a partir de conceitos como alegoria, construtivismo, memória involuntária e crítica salvadora, nos cursos de graduação de História, começou a ser posta em prática na Universidade de Brasília em 1988, durante um semestre sabático gozado no Departamento de História, dessa universidade. No decorrer desse semestre, os textos filosóficos de W. Benjamin [foram trabalhados] na perspectiva de utilizá-los metodologicamente no estudo e na interpretação do passado ou de obras literárias, pictóricas ou cinematográficas. Ensaios como “O narrador”, “As teses sobre o conceito de História”, “A origem do drama barroco alemão” e outros, foram lidos e debatidos pelos alunos para servirem de inspiração metodológica na análise de obras literárias e filosóficas. Dessa experiência pioneira resultou uma pequena brochura Razão e História (1988), depois ampliada e refundida no livro A crise da razão histórica (1989), com o registro integral da rica experiência hermenêutica dos alunos. Este livro é, na verdade, uma coletânea de ensaios de teoria e metodologia da História, de franca inspiração frankfurtiana. Trata do Brasil e do mundo, de Marx, Foucault e da pós-modernidade. Contudo, o que interessava acima de tudo, era o resgate das tentativas de apropriação crítico-reconstrutiva pelos alunos dos conceitos benjaminianos. Afora as tentativas de utilização de textos de autores consagrados como Proust, Baudelaire, Homero, Kafka, etc. O mais importante foi o resultado – altamente estimulante – desse trabalho. Para essa atividade foi fundamental o conceito-chave de “interferência”, estudado mais sistematicamente pelo ensaísta e crítico André Luiz Rezende nas aulas do curso da Pós-Graduação em História. O leitor como interferente – este era um aspecto essencial da estética da recepção, de Hans Robert Jauss. A ideia de que a verdade da obra ou do texto pertence ao leitor (ou ao crítico) foi o caminho para os exercícios de leitura/interpretação de um texto, como reescritura, como coautoria e interferência na obra de um determinado autor. A técnica da interferência levou alguns alunos a relerem obras consagradas, ora modificando, ora alterando ou acrescentando sentidos ao texto original.
Os exercícios de interferências geraram vários produtos: livros, como O palco da História, peças e vídeos gravados (“A casca da serpente”, “O despertar do sonho”, “Faz escuro, mas eu canto”, “O canto das sereias”). Todo esse esforço hermenêutico e reconstrutivo dos alunos extrapolou os muros da universidade, sendo apresentado em outras instituições através das montagens teatrais do grupo “Teatro Vivo”, formado pelos alunos do departamento de História.
A ideia era seguir o conceito de “atualização” benjaminiano (de franca inspiração nietzschiana) em que o presente interage com o passado e o passado com o presente, numa espécie de “transtemporalidade”. Este método de leitura e interpretação da História se opunha à visão linear ou evolutiva do processo histórico, identificada a uma concepção vulgarizada do materialismo histórico. Assim, os alunos não se limitavam apenas a conhecer ou analisar a História, eles “atualizavam” o conhecimento histórico a partir de suas experiências do presente. E o resultado era a transformação do passado. A reescritura do passado.
Depois, vieram as dissertações de mestrado inspiradas em vários aspectos do caleidoscópio benjaminiano: a alegoria, as imagens dialéticas, a história dos vencidos, a filosofia apócrifa, etc., pesquisas na área de Letras e Crítica Literária, Filosofia, História, Comunicação Social. Trabalhos que incorporavam sugestões e inspirações benjaminianas em suas análises e pressupostos. Entre esses, destacam-se as dissertações de: Marcos André de Barros (História e Utopia), na área de Filosofia; a de Alípio Carvalho Neto (A alegoria no imaginário do homem e sua hora, de Mário Faustino), em Letras; a dissertação de Clara Angélica (Imagens dialéticas sob um olhar sociocrítico em Ignácio Loyola Brandão), em Letras; e o trabalho de Telma Rego (A paixão segundo GH), discutindo estranhamento, alegoria e iluminação. Em História, apareceram a dissertação de Simone Garcia (Canudos reconstruída) e a tese de Lucile Granjeiro (O drama barroco dos exilados nordestinos). Em Comunicação Social, o trabalho benjaminiano sobre os Cavaleiros do Zodíaco, da perspectiva da filosofia apócrifa.
O ponto alto dessa larga e fecunda influência teórica foi a comemoração do centenário de Walter Benjamin no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (1992), com a presença de estudiosos da obra benjaminiana: críticos literários, filósofos e historiadores debateram durante toda uma manhã os vários aspectos de [seu trabalho], produzindo um suplemento literário para um jornal local (Jornal do Commercio) e um livro sobre Walter Benjamin (Walter Benjamin e a Cultura Brasileira) publicado pela Editora Universitária, trazendo em apêndice uma tradução inédita do alemão do texto “A história da literatura e a crítica literária”.

Benjamin, Brasil - recepção de Walter Benjamin,
de Gunter Karl Pressler


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