segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Leituras em Walter Benjamin (3) | A concepção mágica da linguagem

Recebido em 05 de janeiro de 2016
Ensaio
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.

Escritos sobre mito e linguagem
(1915-21)
Linguagem e História (a propósito da origem da linguagem humana nas obras de Walter Benjamin).

"Tudo seria perfeito se o homem pudesse fazer as coisas duas vezes". Com esse pequeno ditado de Goethe seria possível iniciar a discussão entre linguagem e história, ou a origem, a transformação e as funções da linguagem humana através do tempo na obra do filósofo alemão Walter Benjamin. O impulso ontogenético de repetir ou reconhecer as semelhanças entre as coisas está na base dos estudos benjaminianos da linguagem humana. A esse impulso ele dá o nome de mimese ou faculdade mimética. Esta faculdade é a origem mais remota da linguagem dos homens. Ela só foi precedida pela onomatopeia e a dança.

A manifestação mais antiga dessa faculdade mimética, na história biográfica do indivíduo, é o jogo e a brincadeira. Através da atividade lúdica, a criança não se limita a copiar o mundo e as atitudes e gestos dos adultos, mas ela recria o mundo, ressignificando os objetos e as práticas culturais ao seu redor. Neste sentido, brincar é mudar o mundo por meio das palavras, dar-lhe um novo sentido.
A atividade mimética do ser humano – como brincadeira – é um eterno recomeçar, recopiar, recriar a realidade. E o prazer da criança (como do adulto criador) está nesta repetição infinita, que não é mera repetição, mas recriação. Originalmente, o impulso mimético se contenta em repetir, copiar ou reproduzir. Depois, ele passa a estabelecer conexões e analogias entre as coisas, de uma forma ampla e aparentemente sem relação de semelhança entre elas. É a chamada semelhança não sensível ou mágica, ao pressupor uma rede de correspondências invisível – a olho nu – entre todos os seres e objetos. Essa rede de correspondências se daria tanto no micro como no macrocosmo. E teria sobrevivido até hoje na escrita e na fala, sendo, portanto, o maior arquivo de semelhanças não sensíveis existente.
A teoria benjaminiana da linguagem não se resume à faculdade mimética, por mais importante que ela seja – sobretudo em sua fase materialista. Essa teoria começa, na verdade, com as especulações religiosas e místicas sobre a origem da linguagem adamítica, a linguagem humana antes do “pecado original”. Nesse tempo mítico, os homens chamavam as coisas pelos seus verdadeiros nomes, fazendo as criaturas falarem através da designação humana, traduzindo sua essência espiritual em sua essência linguística. Cada nome, cada coisa.
A linguagem adamítica não possuía nenhuma função comunicativa ou pragmática: seu fim era comunicar a si mesma. Sua função era designativa: por meio dela, eram evocadas as coisas. Só o homem tinha esse poder de fazer as coisas falarem através de sua linguagem. Isto porque a linguagem humana participava da linguagem divina, aquela que criou o mundo do nada a partir dos nomes de cada coisa. Por participar do verbo divino, o verbo humano conservou o poder de chamar cada coisa pelo seu próprio e dar voz à mudez da natureza. Mas, com “o pecado original”, a função designativa da linguagem humana se perverteu e assumiu as funções comunicativas e pragmáticas.
A linguagem dos homens perdeu a sua função mimética e nomeadora e se tornou manipuladora e falsa. É a linguagem do direito, da ciência e da política, que submete as coisas e as pessoas a objetivos, interesses e propósitos distintos da sua essência espiritual e linguística. Ao estabelecer “a vontade de verdade” como motivação para nomear as coisas, a linguagem humana foi submetida a uma “vontade de poder” que julga, sentencia e condena, em tudo distinta da função nomeadora e designativa da linguagem adamítica.
Neste ponto, o nome não passaria de mera convenção ou código linguístico, designação aleatória, acidental, sem nenhuma relação com a essência linguística ou espiritual das coisas. Cumpriria à linguagem da arte, da poesia, da literatura, restabelecer, talvez, a função mimética perdida, ao resgatar da linguagem corriqueira os ecos da linguagem adamítica. Daí a sua função lúdica ou mágica.
A última fase da teoria benjaminiana da linguagem está associada à alegoria, “o dizer o outro”, a linguagem da alteridade semântica. Depois da fase mágica [mimesis], da fase religiosa [a linguagem dos nomes], a fase alegórica tem, na obra do autor, duas fontes de inspiração: (a) a concepção barroca da História; (b) a teoria do fetichismo da mercadoria. A concepção barroca da História [A origem do drama barroco alemão] se apresenta como a história dos vencidos, dos malogrados, dos sofridos, de “quem falhei ser”, como diz o poeta português. A visão barroca da História se apoia numa total depreciação física e espiritual do mundo humano e natural, como mundo imperfeito, pecaminoso, finito e tendente à morte ou à mineralização da vida.
Para esta visão religiosa e teocêntrica, o mundo humano – sem a graça divina – não tem sentido ou razão de existir. Sendo, dessa maneira, uma mera matéria-prima de um eterno processo de significação nas mãos de Deus. Nada tem direito sobre si próprio. Cada pessoa, cada coisa, pode significar qualquer coisa, qualquer pessoa, como numa cadeia infinita de sentidos onde cada elo significa o elo seguinte, numa distinção entre significante e significado. Tudo morre e ressuscita na mão do alegorista divino, para expressar sempre novas significações. Esse é o nobre destino da criatura humana num mundo sem Deus e a graça divina.
A segunda fonte (b) para o estudo da alegoria na obra de Walter Benjamin são os ensaios sobre Baudelaire ou o chamado “Trabalho das Passagens”. Este amplo painel sobre as transformações urbanísticas de Paris na segunda metade do século XIX é uma análise sociocrítica (Pierre Zima) da poesia de Charles Baudelaire segundo a ótica das mudanças estruturais que ocorrem na Europa depois da Revolução de 1848. Aqui, a principal chave teórica utilizada pelo autor é a “Teoria do fetichismo da mercadoria” (Marx) tomada de empréstimo do filósofo húngaro Georg Lukács. Benjamin mostra como o valor de troca das mercadorias produzidas pelo mercado capitalista opera uma verdadeira ressignificação das coisas e das pessoas a partir de seu preço no mercado. O capital transforma relações sociais [de assalariamento] em coisas [valores de troca] e coisas [valores de uso] em seres animados. O seu significado é dado pelo preço fixado pelas relações de troca, nivelando tudo e a todos pelo tempo de trabalho necessário [tempo médio] para sua produção.
A mercadoria [valor de troca] ganha vida própria nas vitrines e magazines das “Passagens” parisienses, e a força de trabalho [os operários] vira uma grandeza abstrata, usada como cálculo para o preço das mercadorias. O produtor só se encontra com o seu produto na qualidade de consumidor, e não de seu criador. Essa operação dá vida às fantasmagorias da modernidade, expressas através das “imagens do desejo”, que ora são a manifestação das utopias do imaginário social, ora mitos que reforçam as carências do produto social. O socialismo é a utopia, ainda que misture o velho com o novo. O capitalismo é o mito que reproduz o existente e enfeitiça o consumidor, que pode ser ao mesmo tempo vendedor e mercadoria – como o flâneur e a prostituta. O papel do historiador será então o de psicanalisar as imagens do desejo, separando o mito da utopia, e o de despertar a sociedade para a transformação social [através das lutas de classes].

Referências
Benjamin, Walter. Sobre a linguagem dos homens e a linguagem em geral. Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985.
––––––. A teoria das semelhanças. Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985.
––––––. A faculdade mimética. São Paulo: Brasiliense, 1985.
––––––. A origem do drama barroco alemão. São Paulo: Brasiliense, 1985.
––––––. Alguns ensaios sobre Baudelaire. Coleção 'Os pensadores'. São Paulo, 1974.
––––––. Sobre o jogo e a brincadeira. Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Zaidan Filho, Michel. A crise da razão histórica. Campinas: Papirus, 1989.
______. Ensaios de teoria. Recife: NEEPD/UFPE, 2012.

O jovem Walter Benjamin (1892-1940)

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