quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Leituras em Walter Benjamin (1) | O pensador das ambiguidades

Recebido em 05 de janeiro de 2016
Ensaio
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.

Textos escolhidos em 'O anjo da história' (2010)
As relações entre o marxismo e a modernidade sempre foram marcadas por uma boa dose de ambiguidade. Embora o pensamento marxista seja herdeiro direto da filosofia clássica alemã, particularmente da filosofia hegeliana, o contato de Marx com a economia política liberal e o socialismo francês fez desse pensador alemão um autor iluminista, que não só usou a metodologia das ciências empíricas de seu tempo (vide a teoria do reflexo e a teoria da evolução), como defendeu – em muitas ocasiões – o legado da modernidade das críticas de filósofos conservadores e utópicos. O próprio Marx definiu o seu socialismo como científico – ou seja, amparado nas conquistas intelectuais da modernidade – em oposição aos diversos tipos de socialismo anteriores a ele. Mas onde essa ambiguidade se coloca com muita força é, sem dúvida, no primeiro volume d’ O capital. Aí, o autor tenta conciliar a teoria (filosófica) da alienação com a crítica da economia política burguesa, utilizando para isso a dialética hegeliana (ou o seu conteúdo racional), como ele mesmo diz. Os autores positivistas que mais tarde escreveram sobre a contribuição marxiana às ciências humanas, aconselharam abertamente o abandono dos pressupostos filosóficos d’ O capital, se quiséssemos salvar o conteúdo científico da crítica da economia política burguesa (sobre isto, veja-se a crítica de Lucio Colletti, o autor mais representativo dessa corrente).

Infelizmente, essa ambiguidade só fez prosperar na tradição marxista. Engels, o companheiro de Marx, pretendeu dar uma base científica à sua dialética da natureza, sem se dar conta dos pressupostos filosóficos da sua empreitada intelectual. E Lenin pretendeu atacar, em vão, o agnosticismo e o positivismo de sua época, lançando mão da teoria do reflexo, em Materialismo e empiriocriticismo. Todos aqueles que se enfrentaram com a dura tarefa de compreender o método de Marx tiveram que fazer uma opção entre se manter fiel ao espírito utópico e crítico do marxismo ou capitular diante da ciência positiva da segunda metade do século XIX. Gente da estatura filosófica de Georg Lukács, que preferiu ficar com a ontologia do ser social e a dialética da história, ou como Lúcio Colletti que recomendou o abandono da filosofia clássica alemã, ilustra bem esse dilema. Antônio Gramsci foi um bom exemplo dessa ambiguidade filosófica, quando afirmou que o marxismo era um historicismo radical e criticou a ideia (engelesiana) de uma dialética sem história (a dialética da natureza). E Jean-Paul Sartre tentou o impossível: conciliar a ideia de projeto com a de estrutura, em A crítica da razão dialética.

Foi preciso esperar o movimento de renovação teórica e metodológica da chamada “Escola de Frankfurt” para se ter uma retomada clara do legado filosófico (hegeliano) da dialética marxista. Sobretudo a crítica da razão instrumental (científica) e a formulação de um outro projeto de razão, a razão “negativa”, que se opunha ao momento da síntese (da totalização) da razão dialética, mantendo o fragmento e o momento da negatividade no percurso da dialética. Horkheimer, Adorno, Marcuse e Benjamin, [foram] autores que desenvolveram um estilo de reflexão avesso a qualquer tentativa de sistematização do pensamento filosófico. Uma verdadeira dialética da ambiguidade, como diria mais tarde o crítico francês Pierre Zima (La Ambivalence Romanesque chez Baudelaire, Proust et Kafka).
Desses autores, de longe o mais criativo e original, inquieto e inspirador foi Walter Benjamin, [com o] seu sistema de contradições em aberto. Como seria possível conciliar o legado do judaísmo libertário da Europa Central (apoiado numa clara recusa às promessas libertadoras da modernidade cristã) com uma crença na revolução socialista, de Marx, Engels e Rosa Luxemburgo? É aqui onde se situam as aporias de um pensador crítico e utópico que nunca deixou de se expressar através de categorias filosóficas, como se a filosofia da práxis fosse uma escatologia de base profana. Na verdade, Benjamin nunca concordou com a ideia de que a redenção humana fosse da ordem do profano (o telos messiânico) e o tempo da redenção (Kairós) fosse o tempo cronológico. O anjo da História vem exatamente para interromper (implodir o continuum da história) o tempo dos calendários e inaugurar uma nova temporalidade messiânica (o tempo do agora, o tempo da recognoscibilidade).
Walter Benjamim se negou a conceder à política realista, mundana, dos compromissos, qualquer propósito sensato: como também se recusou a aceitar uma ciência positiva da História. A visão judaica (e libertária) do autor o levou a desconfiar sempre da História iluminista, com seus reis-filósofos de bússola na mão. Neste ponto, a imagem do “Angelus Novus” e a sua montanha de ruínas que sobe até os céus deve nos ensinar algo de muito importante sobre esta concepção messiânica da História: o processo social da humanidade não comporta só avanços e progressos em direção a um hipotético ponto Ômega, mas também contém uma boa dose de retrocessos, barbárie e sofrimento. A dialética benjaminiana utiliza livremente a linguagem e os experimentos da vanguarda estética do século XX para denunciar a tragédia desse mesmo século: os campos de concentração e os genocídios de minorias. Provavelmente nunca se utilizou tantas referências da cultura moderna para se criticar impiedosamente a modernidade. Sob esse aspecto, o marxismo de Walter Benjamin seria um duro crítico à equação entre progresso técnico e progresso moral, ou que o mero progresso técnico levasse automaticamente a redenção da humanidade. E o fascismo foi talvez a melhor comprovação desse equívoco: socialmente regressivo e economicamente progressista.
Os comentadores e intérpretes da obra benjaminiana opõem trabalhos e ensaios (e períodos) na trajetória do autor: ensaios como O narrador, As teses sobre o conceito de História, A filosofia da linguagem, Experiência e pobreza, [são opostos a] outros como A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, A faculdade mimética, O autor como produtor, etc. Como se houvesse dois autores num só corpo e numa só cabeça. Por muito que se tente fazer, é inegável que essas ambiguidades e contradições nunca foram solucionadas pelo autor. E nisso consiste sua grandeza. Basta lembrar a famosa tese do autômato e do anão, onde um simboliza a técnica, a ciência positiva, o pensamento iluminista moderno; e o outro, a teologia, a fé, a utopia, a paixão. Haveria, por certo, um maior desmentido do que esse para os que fizeram de Benjamin o defensor unilateral da técnica e da ciência, sem levar em consideração os perigos que uma tal posição acarretaria para a humanidade?
Tal como Marx utilizou os pressupostos da filosofia clássica alemã para realizar a sua fecunda crítica à civilização burguesa moderna, Walter Benjamin nunca abandonou os pressupostos mágicos, românticos e messiânicos em sua recusa a aceitar a modernidade capitalista. É onde reside a sua enorme grandeza.
Coletânea 'Passagens' (2006)









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