segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

L’armata branca...E os leões do Pinheirinho

Ensaio
Recebido em 23 de janeiro de 2016 [*]
Por Betto della Santa, comunista-internacionalista, jornalista e doutor em Ciências Sociais pela Unesp Campus de Marília-SP.

O "exército popular" de Pinheirinho

"A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ que vivemos é, na verdade, regra geral. Precisamos construir uma concepção de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa missão é dar lugar a um verdadeiro estado de exceção e, com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, considerado aqui tal qual uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX ‘ainda’ sejam possíveis não é espanto filosófico. Ele não gera conhecimento algum, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana este tal assombro é insustentável"
[Teses sobre a Concepção de História, Walter Benjamin].

O filme L’Armata Brancaleone (ou O Incrível Exército de Brancaleone, 1966, Itália) –, uma explosiva farsa política, de Mario Monicelli, considerado precursor da commedia all’italiana, no segundo pós guerra – de há muito não era relembrado pela estampa a soldo do capital e sua ordem. Também, pudera. A partir de ácido veio cômico-satírico, não deixa pedra sobre pedra. A fábula narrativa nos conta a estória dum – não-assim-tão-nobre – Brancaleone da Norcia e o seu séquito de maltrapilhos, em desabusada jornada epopeica, buscando “fortuna e glória” no baixo medievo italiano.
Não sem surpresa, um incauto ex-assinante da Folha de S.Paulo lia reportagem de capa onde se comparava o espírito de tal filme a uma cena que saltava das páginas de cotidiano. O lide jornalístico disparava: “Em meio a gritos de guerra, o ‘batalhão’...se posiciona. Com escudos, coletes, caneleiras, capacetes, porretes e lanças – estão prontos para o confronto. Os ‘soldados’ são moradores da Favela Pinheirinho”. Em tom jocoso, zombeteava-se o movimento social do MUST-Pinheirinho.
Ao melhor (?) estilo FSP de fotojornalismo (e arte gráfica!) sua chamada de capa ostentava fotografia cobrindo ¼ da superfície do jornal para, supostamente, explicar em detalhe ao público-leitor a que serviam tonéis e capacetes, bambus e lonas, ostentados, de improviso, por moradores e moradoras à espera da iminente invasão militar do aparato repressivo, em autodefesa à ocupação urbana da comunidade do Pinheirinho. Isso, os manuais de redação sóem chamar “infográfico”. E, à operação, “edição”. Em miúdos: a edição da barbárie informativo-gráfica, sem recalques...
Segue a matéria: “A área pertencia à massa falida do Grupo Selecta – do investidor Naji Nahas – e tem dívidas de R$ 15 milhões para com a prefeitura. A ‘tropa’ está à espera da PM, que pode cumprir reintegração de posse determinada pela Justiça”. E por aí vai.
O grosseiro sarcasmo revestido na matéria de capa não contava, porém, com as astúcias da razão histórica. Rebelde por natureza, a sátira voltou-se...contra seus próprios satíricos. Segundo uma quase-esquecida tradição política de oprimidos e oprimidas, “Branca/León”, constituiu/constitui uma verdadeira palavra de ordem – e todo um programa – durante os anos de combate à ditadura civil-militar. Reverberando-se à trilha sonora do filme – e, numa já refinada auto-ironia! – os integrantes das tendências do movimento trotskista brasileiro costumavam ecoá-la, verso-a-verso, de-cor. Ouvia-se-a em assembleias, movimentações e afins: – “Branca, Branca, Branca...León, León, León!”. Era (e é) um autêntico grito de guerra frontal...
Assim, e a um só tempo, aludia-se à comédia italiana e, garbo e galhardia, reafirmava-se inspiração no revolucionário ucraniano, Trotsky, através de seu prenome francês, León. Exilado, perseguido e, daí, assassinado, não há em toda história do movimento comunista internacional tradição mais abnegada. A vida (e a obra) de León Trotsky foi dedicada a uma batalha coetânea tanto para emancipar o movimento dos “de baixo” da dominação burocrática quanto do jugo do capital. Defenestrado do PCUS – e, aí, expulso da ex-URSS, como ameaça maior ao regime stalinista –, Trotsky deu marcha àquilo que o surrealista Breton diria: “Planeta-sem-Passaporte”.
Nos anos 60 e 70, após décadas a fio de hegemonia restrita dos partidos comunistas brasileiros, uma outra tradição – de caráter inteiramente diferente – resistiu, perseverou e cresceu à sombra da cena política para ganhar – por primeira vez – uma audiência mais ampla durante acontecimentos tempestuosos da luta de classes no país e no mundo. Diferentemente do centralismo burocrático, apregoavam o valor histórico-universal da democracia operária. Para além do seguidismo a líderes, apostavam na autodeterminação dos trabalhadores. Sobretudo, defendiam a independência de classe quando as direções majoritárias – i.e., os PCs – insistiam na velha (e má) tôada da conciliação entre os proprietários e os despossuídos.
A livre-associação algo consagrada, entre um farsesco anti-herói, fictício, e o trágico revolucionário, real, não é, em absoluto, fora de lugar. Ainda em 1905, Trotsky foi delegado eleito do Soviet de Petrogrado, órgão dual fundamental da primeira revolução russa. Em 1917, dirigiu o Exército Vermelho contra dezenas de forças imperialistas, derrotando-as uma a uma desde o front. Depois de meados dos anos 20, consagrou a sua vida (e a sua obra) à luta teórica e política sem quartel contra Stálin e seus epígonos. Por sua vez, a analogia política (e poética) não poderia render, no tempo de agora, a melhores resultados. Uma herança relampeja à memória.
A batalha de moradores e moradoras do Pinheirinho é uma luta da necessidade profana à vida contra o direito sagrado à propriedade. Remonta a uma série ininterrupta de lutas sociais e políticas desde os “de baixo”, daqui e de todas as partes. A narrativa de Branca... – assim como a história de León – são, dessa forma, atualizadas, urgentemente, pela encarniçada disposição de combate contra a “Ordem” e o “Progresso” de uma rotina administrada, cujo tempo homogêneo e vazio não reconhece outro valor senão aquele quantum de capital-dinheiro; corporificação de todo o fetiche. Trata-se da luta dos que nada possuem versus os que têm um mundo a perder.
Os Leões do Pinheirinho – esta, aliás, é a identidade secreta das rubricas “Brancaleone e “León”: aludem, literalmente, ao nome “Leão” – reconstituem uma secular tradição política de oprimidos e oprimidas quando, apesar e contra toda possível e imaginável adversidade, seguem fiéis a si mesmos, depositam suas confianças tão-só em suas forças e por nada se deixam impor. Podem reivindicar a hora e a vez desta, aquela que conspira pela morte do que há de velho para o que há de novo possa, então, nascer. O programa que reclamam é o direito à insubordinação.
Anti-Justiça burguesa e seus conluios, anti-Imprensa do capital e seus cupinchas, anti-Burguesia financeira e seus vendilhões, anti-Cães de guarda da PM e suas armas, enfim, já contra tudo e contra todos, o Pinheirinho se levanta com homens e mulheres, velhos e crianças, braços e pernas, mentes e corações...Como já disse Karl Marx – entre trabalhadores –, não há heróis, ou máscaras, ou gritos-de-guerra para escapar-se à realidade. Por isso, esta auto-ironia escarnece sem dó às próprias debilidades, parece tombar o inimigo apenas para que este retire do chão novas forças e se depara diante da magnitude sem-fim de seus próprios interesses, até que uma nova situação venha a se colocar pelas forças sociais e políticas em presença na cena.       
Nesta, torna-se já impossível qualquer retrocesso e daí, então, as próprias condições gritam: “Hic Rhodus, hic salta!” [ou Eis aqui Rodes, eis aqui de saltar!] (18 Brumário, Karl Marx, várias edições). Somos, todos e todas, Pinheirinho. Somos, todos e todas, soldados de Leão. Saltemos(!).

Confrontos com a PM durante reintegração de posse

Notas
[*] Publicado originalmente em 30 de janeiro de 2012 em http://www.brasildefato.com.br/node/8701 | (Re)publicado por sugestão do autor.

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