sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Coetzee e a revolução dos costumes

Ensaio
Recebido em 30 de dezembro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

John Maxwell Coetzee
Os escritos autobiográficos de Coetzee são verdadeiras contribuições ao universo literário contemporâneo. A forma descontraída como ele retrata a si mesmo revela um autor que fez da vida uma obra de arte, apesar da forma despretensiosa e corriqueira com que o autor conduz seu cotidiano. O Coetzee que nos é apresentado em tais escritos é uma continuidade de sua obra literária, uma personagem, ou várias personagens a constituir um projeto conscientemente heteronômico. Nesse sentido, não podemos enxergar em tais textos uma confissão do autor; muito pelo contrário. [Eles] representam narrativas que devem ser vistas como crítica social e não autorreflexão psicologizante. Talvez haja aí um novo estilo literário, uma forma revolucionária de se autodescrever, cuja principal meta é prescindir de uma grande narrativa ao se retratar a si mesmo; ou seja, para ser um romancista não é preciso ser um Don Juan, nem haver passado por grandes acontecimentos como um Hemingway.

Desmistificar as figuras dos autores, tal como Kundera propôs em A Imortalidade, parece ter sido um projeto realizado de forma antecipadora por Coetzee. A imagem do escritor laureado e reconhecido, que desde Petrarca acompanha a carreira literária, mesmo a despeito da simplicidade com a qual o pai do humanismo levava a vida, precisa ser repensada e criticada. O prêmio, o prestígio e a fama são coisas que não representam o cerne da linguagem essencial, para usar uma expressão bastante problematizada por Blanchot. A literatura é mais importante que as convenções ou os ornamentos comemorativos em torno de uma obra. Coetzee é um homem de seu tempo, seus romances descrevem bem nossa realidade e sua vida pessoal é conectada com os dilemas que todos sofremos. Quanto ao estilo de vida austero, Coetzee procura apresentar uma versão contrária: trata-se de uma vida comum, porém sempre encarada com muito humor e delicadeza.
Coetzee é um grande crítico dos tabus. Em seu romance Desonra é surpreendente sua crítica ao formalismo e moralismo das convenções e instituições sociais. O protagonista da obra é um professor universitário que pede demissão por discordar da maneira tendenciosa com que seus pares conduzem um interrogatório acerca de sua relação amorosa com uma estudante. [O texto] reflete o clima de vigilância e falso moralismo típicos dos panópticos ou resquícios de métodos inquisitórios que sobrevivem ainda em nossa época. Certamente tal crítica tem a ver com a censura que as obras artísticas sofriam na África do Sul, inclusive as de Coetzee, que foram investigadas com a colaboração de seus colegas de universidade, intelectuais esclarecidos a serviço da lógica totalitária no período do Apartheid. Acerca disso, Coetzee falou em sua conferência aqui no Brasil nas cidades de Curitiba e Porto Alegre em 2013, evento que inspirou o artigo Coetzee e a Censura da professora de Filosofia da UFRS Kathrin Rosenfield, que comenta um dos aspectos mais profundos da obra do autor sul-africano: “O novo reino do tabu ‘democrático’ criou uma democracia que se entrega aos pavores da violência mítica e procura impedir, mais do que os censores de Coetzee o faziam sob o regime do Apartheid na África do Sul, qualquer opinião, ideia, livre associação ou imaginação que escape a uma catequese pré-estabelecida pelos autodenominados líderes de grupos de interesse, intelectuais públicos e demais ativistas”.

Desonra (1999)

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