sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

61 anos das Ligas Camponesas de Galiléia-PE: memórias, celebração e desafios atuais

Ensaio
Recebido em 12 de janeiro de 2016
Por Edelson Albuquerque, professor e militante social

Ato em memória dos 61 anos das Ligas Camponesas

No dia 1º de janeiro de 1955 ocorreu a fundação da Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPP-PE), posteriormente conhecida como Ligas Camponesas de Galiléia, em Vitória de Santo Antão-PE. A celebração pelos 61 anos de sua fundação, ocorreu no dia 3 de janeiro do corrente ano, com a presença de moradorxs desse território, representantes de organizações não-governamentais, de instituições públicas de ensino, pesquisa e extensão, estudantes, professorxs e estudiosxs da questão da luta pela terra oriundxs de várias regiões do Estado.

Narrativas envolvendo o contexto que contribuiu com a organização das Ligas Camponesas foram construídas com o intermédio do companheiro Zito da Galiléia e do companheiro Anacleto Julião, retratando aspectos mais diretos da época, como a necessidade de realizar o sepultamento de falecidxs em Galiléia, elevação do valor de cobrança do foro, etc. Em paralelo, também foi desenvolvida uma compreensão a partir de questões relacionadas à situação socioeconômica e política no Estado e no País, em diálogo com as disputas político-ideológicas protagonizadas sobretudo entre Estados Unidos e a então União Soviética e suas articulações acerca de uma certa polarização de projetos de sociedade.
Em seguida, as abordagens sobre as Ligas Camponesas também receberam um tom sintonizado com alguns acontecimentos relacionados às heranças e às atualidades políticas territoriais, destacando a importância do fortalecimento e da defesa da consolidação de instituições públicas democráticas no País e de uma atuação mais forte e organizada da luta da população camponesa no intuito de obter e estabelecer conquistas nas áreas sociais.
A celebração também contou com uma forte presença de crianças, adolescentes [netxs e filhxs de integrantes das Ligas], adultos e idosxs interessadxs em conhecer um pouco mais da própria história a partir das memórias provocadas e compartilhadas nas dependências da recém-inaugurada Biblioteca José Ayres dos Prazeres, personagem presente na criação e trajetória de Ligas Camponesas, como a de Galiléia e a de Iputinga/Recife, por exemplo. Antes de encerrar essa celebração, o companheiro Zito, em ato simbólico, repassou ao companheiro João Júlio Lins, um vasto acervo documental sobre a permanente luta de Galiléia, assim como o compromisso em preservar e fortalecer essa memória, além de também representar essa trajetória nos diversos espaços que envolverem as Ligas Camponesas bem como outras lutas do povo camponês. Em seu primeiro discurso após esse ato simbólico, o companheiro Júlio reconheceu a dimensão dessa história e destacou a importância em manter um patrimônio que está presente em cada sujeito de Galiléia, em cada registro, em cada conversa, e que permite reencontrar as origens e desenvolver ações que se identifiquem com as problemáticas do [antigo Engenho].
Como parte do processo de preservação das memórias da luta em Galiléia, ocorreu um roteiro traçando alguns pontos históricos do local, como a rocha onde Francisco Julião, Josué de Castro e outros personagens da luta social no País fizeram seus discursos na década de 60 e onde o artista plástico Abelardo da Hora fixou sua arte em referência à família camponesa. Houve ainda o acesso às instalações e aos acervos da Biblioteca, visita à placa construída em homenagem à SAPP-PE e ao gerador pessoalmente doado aos camponeses pelo irmão do Presidente dos Estados Unidos na década de 1960.
Na ocasião, também ocorreram reencontros com os companheiros Biu da Galiléia e Cícero Anastácio. No caso do companheiro Cícero, houve a entrega de uma cópia do documentário Sobreviventes de Galiléia, dirigido em 2013 por Eduardo Coutinho, no qual o próprio companheiro Cícero também foi entrevistado. Ele ainda não tinha tido a oportunidade de assisti-lo, devido ao precoce e recente falecimento de Coutinho.
A atenção do público diante das narrativas construídas e registros exibidos durante essa celebração pelos 61 anos de fundação das Ligas Camponesas de Galiléia, reforça a importância de rememorar, refletir e projetar um dos estopins da luta por direitos do povo camponês no século XX no País. Momento esse garantido através da força, desejo, perseverança e reconhecimento dos sujeitos que preservam no cotidiano as origens e os sentidos dessa luta.

Cícero Anastácio (ao centro), ex-integrante das Ligas Camponesas



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