terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O governador, o mosquito e o impeachment

Ensaio
Recebido em 04 de dezembro de 2015
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD/UFPE.

A imprensa chapa branca do Estado de Pernambuco (lembrar que o PSB comprou o Diário de Pernambuco) está lançando o nome do senhor Paulo Henrique Saraiva Câmara ao prêmio de “personalidade política do ano”. Se fosse de dono de jardim ou ajardinador de Gabinete, não tenho a menor dúvida de que seria um forte candidato. Mas, convenhamos, “personalidade política do ano”, é um pouco demais. Se estivéssemos na Primeira República e em meio a uma cruzada contra a febre amarela, talvez pudéssemos conferir ao senhor governador o prêmio Oswaldo Cruz, em sua batalha encarniçada contra os mosquitos. Mas essa etapa (a “belle époque”) já se foi. O Brasil se civilizou, os turistas continuaram vindo ao nosso belo país, e as epidemias prosperaram. Se Oswaldo Cruz pudesse ressuscitar, constataria melancolicamente que a higiene pública fracassou no Brasil, apesar de sua heroica campanha, porque as políticas públicas e as campanhas de profilaxia que deveriam ser patrocinadas pelo Estado e que ganham materialidade através do tratamento de resíduos sólidos jogados nas redes de esgoto urbano, no calçamento das vias públicas, no tratamento da água potável, na educação ambiental, nos lixões e aterros sanitários etc., não são realizadas. Só quando um surto epidêmico desse ou daquele vírus ou bactéria toma as páginas dos jornais e as imagens da TV, corre o responsável pela administração pública para tomar “as devidas providências” de educação sanitária e de combate ao mosquito transmissor. Enquanto isso, as estatísticas da morbidez vão subindo assustadoramente e as campanhas do voluntariado (contra os mosquitos) tomam conta dos meios de comunicação.
Numa típica operação de inversão ou troca de responsabilidades, o gestor vira herói e a população é responsabilizada pela propagação do vírus. A vítima torna-se réu, e o réu torna-se o “salvador da pátria”. É o caso de perguntar: qual é a parcela de responsabilidade do Poder Público no alastramento dessa epidemia? Sobretudo quando o Secretário de Saúde é o Presidente do Conselho Diretor de uma Fundação Privada (o IMIP) que vem substituindo o velho e bom SUS na prestação dos serviços de Saúde em Pernambuco. Os grandes cientistas e pesquisadores dessa fundação privada falam muito, mas ainda não conseguiram indicar conclusivamente as causas virais dessa atual epidemia de microcefalia em nosso Estado (ou seja, a relação do Zika-Vírus com a redução do perímetro cerebral dos nascituros e a relação dessa diminuição com a doença propriamente dita). Especula-se que estaria relacionada a um viríase chamada Zika-Vírus transmitida pelo multipropagador de doenças, o mosquito da Dengue! Esse inimigo público (não passível de processo judicial) do governador não é propriamente um desconhecido da população ou das autoridades sanitárias. Pelo contrário. É um velho conhecido que, vai-e-vem, volta a atacar e produzir estragos na população. Ora, qualquer médico sanitarista sabe que grande parte do problema está relacionado com o padrão de intervenção do Estado na criação de infraestrutura urbana adequada para que as condições higiológicas dos cidadãos sejam as melhores possíveis; sem o qual, correremos atrás dos prejuízos a vida inteira. Imagine o cenário de um Estado e uma metrópole, onde essa infraestrutura é extremamente precária, apesar da aglomeração urbana, o fornecimento da água é precário e a rede de esgotos tratados é mínima como, aliás, revelou em entrevista ao Diário de Pernambuco a atual diretora da CPRH. A limpeza dos inúmeros canais que cortam o Recife não é feita ou demora muito a ser feita; a coleta e o armazenamento do lixo, deficitária (onde estão os aterros sanitários?); a poluição dos cursos d’água não é fiscalizada nem punida; e o sistema da saúde pública (já parcialmente privatizado) é uma calamidade.
Só com o concurso de uma imprensa sempre disposta a promover as autoridades públicas ao prêmio Nobel de Administração, é possível transformar a vítima em réu e o réu em vítima e transferir responsabilidades para as famílias, as comunidades e a sociedade de modo geral. Talvez a bancada governista pudesse votar – em regime de urgência – uma lei proibindo as mulheres de ficarem grávidas em nosso Estado. Além do controle da natalidade, ajudaria muito ao governador não ter de lidar com o aumento espantoso de casos de microcefalia. Mas aí, as igrejas aliadas do Chefe do Executivo não iriam aprovar.
Enquanto no Brasil inteiro se discute a continuidade ou não do mandato da Presidência da República e suas graves consequências para a sociedade brasileira, em Pernambuco a discussão política é outra: o mosquito da dengue transmite ou não transmite o Zika-Vírus? A microcefalia é com 33 ou 32 centímetros? O micro cérebro de 32 centímetros é ou não sinal da doença? E o responsável pela Administração Pública comanda a população para o combate ao mosquito.
Viva Oswaldo Cruz e seus bravos soldados na luta contra as epidemias nacionais! Falta quem queira combater o vírus da incompetência e da demagogia!


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