sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O conceito de dialética em Lukács, de István Mészáros

Resenha [*]
Recebida em 01 de janeiro de 2016
Por Mauricio Gonçalves, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – Unesp – Campus de Araraquara-SP.

Capa da edição brasileira do livro de
Mészáros lançado em 1972
O conceito de dialética em Lukács
István Mészáros
São Paulo: Boitempo Editorial, 2013, 176p.

A capa da inédita edição brasileira do livro de Mészáros lançado originalmente em inglês em 1972 e redigido entre 1967-8 é a reprodução de parte de uma tela do pintor russo Vasili Vereshchagin intitulada “O campo de Chipka” (1878-9). Nela vemos vários soldados de artilharia mortos no tempo da guerra russo-turca (1877-8), “tomando com seu corpo e seu equipamento o fosso que a separa do inimigo” para que a cavalaria tivesse condições de marchar em direção à vitória (p.92). Lukács via nessa tela uma metáfora da condição do pensamento de seu tempo: o “reconhecimento dos limites impostos ao homem por uma época desfavorável [...] que permite encontrar [...] “um campo de manobra” relativamente amplo para a atividade presente, o mais eficaz e válido possível para uma visão de conjunto [...]” (p.92).

É a partir de um estudo da evolução – em interação recíproca – tanto de seu pensamento quanto de suas opções políticas, ambas em perspectiva histórica e mobilizadas por uma “ideia sintetizadora fundamental” (p.33), que Mészáros apresentará uma interpretação original para o conceito de dialética em Lukács que simultaneamente nos possibilita encontrar em vias de desenvolvimento, mas já com suas balizas estruturadoras delineadas, a própria abordagem dialética em Mészáros. Além do ensaio que dá nome ao livro, a presente edição vem ainda com dois apêndices, uma cronologia resumida da vida e obra do autor de Para uma ontologia do ser social (1976), uma série de fotos e uma bibliografia de e sobre Lukács no Brasil e no exterior. Outro atrativo é a Apresentação de José Paulo Netto.
O conceito de dialética em Lukács é, quando levamos em conta A teoria da alienação em Marx (1970), A obra de Sartre (1979) ou a segunda parte de Para além do capital (1995), o mais antigo dos escritos do gênero – análise temática e/ou do conjunto da produção de um autor – de Mészáros lançado no país, e contém uma perspectiva metodológica cujos traços fundamentais podem ser percebidos desde então. Nos inovadores ensaios do livro, ele já delineia algumas noções que serão desenvolvidas em textos seguintes, por exemplo: (1) a interpretação, já em 1957, dos limites intrínsecos para uma possível obra de síntese de Lukács sobre a ética (p.91), análise que será estendida e enriquecida em Para além do capital; (2) a enunciação da emergência de uma “profunda crise estrutural dos países capitalistas mais avançados” (p.68) que também receberá um trato mais geral em Beyond capital.
Em tal perspectiva dialética, as abordagens que seccionam a obra global de um determinado autor em “jovem x” e “maduro x”, visando opô-las (p.33), e que trabalham com “conversões totais” ou “rupturas radicais” que abarcam a estrutura geral de pensamento, confundindo-as com “mudanças qualitativas” (p.34), são descartadas. Até porque “para que possamos ser algo, já é preciso ser algo” (p.33), frase de Goethe cara a Mészáros. Nessa abordagem a ênfase está na unidade fundamental (relativa, dialética) da obra global de um autor. Em suma, trata-se da busca de uma “síntese original” que perpassa os diferentes momentos de desenvolvimento e que adquire feições distintas em níveis e camadas em sucessivas modificações (p.34).
“À data em que elaborou os textos reunidos no presente volume, eram inéditos (no todo ou em parte) vários dos escritos de Lukács que ele menciona” (p.11), e mesmo sem análises exaustivas, Netto afirma que “a substância da análise de Mészáros em nada é afetada” (p.12). O livro transita pelas diferentes fases de desenvolvimento de Lukács a partir da dialética da continuidade e da descontinuidade: (1) na juventude, a preocupação com a universalidade e um “desejo de objetividade” (p.49) e a influência do “messianismo sombrio e profético” (p.36) das soluções “ou-ou” expressas tipicamente em Endre Ady tendo em vista a perspectiva comum do atraso histórico húngaro; (2) a passagem pelo idealismo objetivo de viés hegeliano através de A teoria do romance (1916) como “um passo à frente no sentido do concreto” (p.83); (3) a obra de transição que proporciona a efetivação da “mudança de perspectiva” – História e consciência de classe (1923) – e que contém um trato mais sistemático da dialética da totalidade concreta com a preocupação efetiva com a categoria de mediação; (4) as elaborações teóricas e estéticas do período pós-derrota das Teses de Blum (1929), com destaque para O jovem Hegel (1948) e os ensaios estéticos monográficos que enfatizam o conceito de “específico” – equivalente filosófico da categoria de “mediação” –, e; (5) a tentativa de produção de obras de síntese nas últimas décadas de vida.
Mas todas essas fases tem sua unidade dialética inteligível a partir da “ideia sintetizadora fundamental” aludida: “o confronto original com o “Sollen”, com o “dever-ser”, continuou sendo uma dimensão estruturadora fundamental de todo o pensamento de Lukács” (p.39). Para esse confronto, as categorias inter-relacionadas de totalidade e mediação tem que ser necessariamente aprofundadas, e são consideradas as centrais da dialética lukácsiana (p.57). Chegamos ao núcleo da argumentação de Mészáros: tendo sido dinamizado durante toda a sua trajetória pela busca de um dever-ser (Sollen) que se reconciliasse com o ser (Sein) de um mundo então fraturado – como a realização de uma efetiva unidade dialética (numa chamada “vida autêntica”) –, Lukács não conseguiu superar o dualismo entre Sein-Sollen, especialmente pelo fato de sua categoria de mediação ter sido mobilizada não por instituições materiais concretas, mas por outro Sollen. E para isso concorreram motivos objetivos – “desintegração prática de todas as formas de mediação política eficaz, desde os conselhos operários até os sindicatos” (p.65), com a consolidação do stalinismo – e subjetivos, como a autoimposição de limites pelo próprio Lukács, que identificou a dinâmica “do socialismo em um só país” com os objetivos últimos do comunismo. Esses desdobramentos tornaram problemática a dialética em Lukács, ainda que, paradoxalmente – tendo em conta o fato dele nunca ter aceitado o “imediatamente dado em sua imediaticidade crua, isto é, em nenhum momento abandonou as perspectivas finais do socialismo” (p.67) –, tenham permitido realizações de caráter exemplar e duradouro. Ao fim, a dualidade entre “ser” e “dever-ser” não foi superada. O problema no trato das mediações na dialética de Lukács pode ser visto também como uma dimensão de um dilema histórico objetivo em sentido mais abrangente.
Será a partir também da representativa “tragédia de Lukács” que Mészáros desenvolverá as categorias de totalidade e mediação, vinculadas às dimensões de limite e temporalidade – e ancoradas na materialidade dinâmica e incontrolável do metabolismo social do capital – para a dialética histórica da totalidade. O conceito de dialética em Lukács mostra alguns dos passos de desenvolvimento da própria perspectiva dialética em Mészáros, que Netto chama adequadamente “de uma precoce conquista (também instrumental-analítica)” (p.13). Como não poderia deixar de ser, essa conquista é feita com base numa aufhebung da concepção de dialética em Lukács, que já vinha sendo negada, conservada e enriquecida – ver o apêndice 2, de 1957!.
O conceito de dialética em Lukács é um livro seminal porque além da original análise sobre a dialética do autor de A destruição da razão (1954), fornece-nos uma noção do próprio “conceito de dialética em Mészáros”. Com os aprofundamentos dos estudos do autor de O poder da ideologia (1989), deverá chegar o momento em que tal dialética se voltará – com o rigor e a argúcia crítica com que a análise de Lukács foi feita – para a avaliação não apenas de outros autores representativos, sejam marxistas ou não, mas sobre a própria obra de Mészáros.

'O campo de Chipka' (1878-9), de Vasili Vereshchagin

Notas
[*] Escrita para e publicada na Revista Crítica Marxista 41. Esta é a versão original, sem as pequenas modificações feitas pelo citado periódico.

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