segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Ernst Bloch e o caráter revolucionário dos sonhos diurnos

Ensaio
Recebido em 30 de novembro de 2015.
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

Os sonhos também são diurnos; podemos enxergá-los acordados; a realidade não se distingue por completo do mundo onírico: tais são as conclusões do livro O Princípio Esperança, de Ernst Bloch. Um marxismo utópico, num momento de profundo recrudescimento do cientificismo nos meios marxistas, foi a principal herança deixada pelo pensador alemão cuja obra tem se revelado atual e permeada por diversos campos da cultura. Sua crítica a Freud e Jung, a partir de uma ontologia marxiana, constitui um dos principais pilares de seu pensamento. Diante dos problemas sociais de seu tempo, Bloch considerava urgente unir consciência de classe e utopia, ou seja, ciência e sonhos caminhando conjuntamente.
O expressionismo foi encarado por Bloch enquanto uma experiência revolucionária, pois era capaz de trazer o inconsciente para a ordem do dia, porque tirava a arte do divã e estabelecia uma unidade entre arte e política. A obra de Bloch é profunda porque tenta mergulhar nas profundezas do conhecimento sem divorciar-se dos aspectos inconscientes envolvidos no processo racional. Nos três volumes de O Princípio Esperança encontramos um estilo muito particular de se fazer filosofia, ao mesmo tempo em que o autor resgata as grandes contribuições das mais diversas tradições culturais e filosóficas. Bloch certamente foi um dos marxistas mais importantes do século XX. Graças ao seu trabalho podemos vislumbrar um marxismo moderno, revigorado, que não se confunde com as estreitas visões stalinistas ou positivistas.
O pensamento blochiano influenciou também o movimento estudantil alemão nos anos sessenta. Seu amor pelo conhecimento e sua confiança na utopia foram vistos pelos estudantes como uma referência, e os militantes estudantis reconheceram o enorme potencial revolucionário da obra de Ernst Bloch. Tratar a história da filosofia do ponto de vista da utopia é um empreendimento dos mais valorosos do pensamento contemporâneo. Fazer da esperança um princípio para se compreender a realidade e transformar o mundo é algo que revigora não somente o marxismo, mas torna-se uma inspiração para a arte, a religião, os movimentos sociais e para as ciências de um modo geral. Ler a obra de Bloch é se reencontrar com os sonhos, que deixam de ser apenas noturnos e passam a fazer parte da vida, assim como a vida deve fazer parte dos nossos sonhos, ou seja, se confundir com eles. Sonhar acordado não é algo negativo, conforme os capitalistas pragmáticos nos ensinam, mas é a condição do próprio viver.
Quando a vida se confunde com o sonho tudo se torna possível. As revoluções, o socialismo e as utopias são sonhos diurnos, que precisam ser alimentados e vivenciados com toda a intensidade, somente assim os sonhos terão a dignidade que merecem. Os sonhos como o centro e meta da nossa existência já representam uma revolução; trata-se de um exercício político, artístico e filosófico. Uma vez conscientes da importância de nossos sonhos, como uma consciência coletiva e de classe, o próximo passo é sua concretização, ou seja, a revolução socialista, o grande sonho da humanidade.

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