segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Do arabismo-islamismo ao terrorismo fundamentalista

Ensaio
Recebido em 02 de dezembro de 2015
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista

Um determinado olhar que se fixa no chamado Oriente Médio, numa situação de crise aguda do sistema socioeconômico vigente, com levas de imigrantes na direção da velha Europa e consecutivas ações terroristas, induz a uma insensata onda de xenofobia contra todos os muçulmanos.
Mas, a bem da verdade tem-se que dizer que essa região sempre sofreu as consequências da ingerência política das nações imperialistas europeias e, especificamente, dos Estados Unidos a partir do pós-guerra mundial. É um passado recheado de intervenções que impuseram, entre outras coisas mais, uma definição geográfica aleatória dos países da área, em face dos interesses econômicos das grandes potências e em detrimento das várias etnias locais, negando as especificidades inerentes às suas culturas milenares desde os primórdios das antigas civilizações.
         Não por acaso, muito além do que foram as “Cruzadas” para “resgatar” a “Terra Santa” dos árabes otomanos, assiste-se atualmente a uma deletéria prática de desconstrução da civilização árabe e de seu intrínseco saber, que nem mesmo o pan-arabismo conseguiu neutralizar buscando um nacionalismo, travestido de socialista. Baseado em preceitos nacionalistas, seculares e estatizantes, os movimentos nacionalistas tentaram opor-se ao colonialismo e à política de cooptação das lideranças árabes em ciclos periódicos.
         Com o desmembramento do Império Otomano ao final da Primeira Guerra Mundial, a reação das elites intelectuais e militares resultou, posteriormente, na criação da Liga Árabe, em 1945, que veio alicerçar o que passaria a ser conhecido como “nasserismo” - um abrangente movimento populista, laico e modernizador, que vagamente se reivindicava “também” socialista, idealizado por Gamal Abdel Nasser, a partir do Egito. Através dele propunha-se a união de todos os países de maioria árabe-muçulmana como forma de fortalecer a cultura e a causa islâmica frente ao mundo ocidental. No mesmo sentido, surgiram depois os partidos Baath (Partido Pan-Árabe Socialista), de caráter igualmente reformista, bem como modernizador e dito socialista, que pregava a unificação dos Estados árabes, na Síria, em 1961, e no Iraque, em 1963.
         Todavia, nada isso suplantou em definitivo os regimes monárquicos regionais e nem eliminou as inclinações culturais para a teocracia e o fundamentalismo, pois a falta de consistência do pensar socialista árabe não possibilitou o desabrochar de novas ideias em contraposição a dominação do regime econômico imposto pelo ocidente. Sistema este até hoje responsável, direta e indiretamente, pelas agruras do povo árabe, inclusive contando com o apoio das suas próprias lideranças de caráter oligárquico e autoritário, as quais se revezam no poder local. E embora se tenha assistido a uma série de revoltas nos últimos anos, gerando acontecimentos que passaram a ser reconhecidos como a “Primavera Árabe” - destacando-se a Tunísia que, após alcançar sua independência em 1956, veio a vivenciar um regime presidencialista vitalício - pouca coisa mudou. Ou seja, a cultura árabe-muçulmana, fundamentada na sua essência em ensinamentos oriundos de suas variadas concepções religiosas, sugere a necessidade de permanência de um grupo por longos anos na gestão político-administrativa, com governos como o da Síria que ainda tem a família Assad “gerenciando” o país há mais de 40 anos. Neste contexto, o caso do Egito se reveste de uma ocorrência particular dentre a qual os militares considerados nacionalistas se sobrepõem aos interesses de outros segmentos sociais e dos grupos islâmicos, resguardando um caráter laico do Estado que, em inúmeras ocasiões, sempre resvala para regimes ditatoriais, num círculo vicioso que se mantém sem alterações de fundo desde o século passado.
         Então, há que se considerar que o terrorismo fundamentalista de hoje reflete todas essas incongruências e o maniqueísmo que ainda prevalece, tendo por conteúdo principal a humilhação sofrida desde a colonização europeia bem anterior a Primeira Guerra Mundial. Com um fortíssimo viés ideológico baseado na fé religiosa, a proposição de “guerra santa” contra os infiéis e os estrangeiros em geral que “subjugaram” a região por muitos anos, esta movimentação se afirma inclusive recorrendo a uma volta ao passado com base na implantação de um Califado, de inspiração teocrática autoritária. É, portanto, não só o terrorismo rancoroso e perverso, mas a negação da História da humanidade em busca do progresso e de suas grandes realizações, que o Capitalismo veio a proporcionar em substituição ao feudalismo, mas que já não tem nada mais a oferecer por se encontrar exaurido e em pleno processo de desagregação total, sendo também refém de sua própria e incontrolável barbárie.
         De outro lado, a confusão político-ideológica promovida pelas “esquerdas” stalinistas, que nada tinham a oferecer para a superação do nacionalismo esquerdizante árabe dependente do estigma teocrático, mesmo dizendo-se as herdeiras de concepções ditas revolucionárias e marxistas, complicaram e ainda complicam as possibilidades de construção de novas sociedades laicas naquela área. Uma situação na qual não foi possível se ultrapassar os resistentes obstáculos impostos pelo islamismo, com base no que diz o Corão e na aplicação das leis da Sharia, principalmente no que se refere às mulheres. Circunstâncias estas que vieram a promover e estimular uma resistência cega e inconsequente por parte dos grupos fundamentalistas que, apoiando-se nos atos terroristas, visam espalhar o terror e o medo nas grandes metrópoles, indiscriminadamente, tendo por justificativa uma “nova guerra santa” contra todos “os infiéis” em qualquer parte do mundo. Isto é o que reforça e consolida a autoridade em torno deles, que é sustentada por um convincente e articulado discurso ideológico dirigido, especialmente, aos jovens de dentro e fora dos territórios que foram violentamente ocupados.
         Em 1979, os aiatolás do Islamismo derrubaram o reinado imperial de Reza Pahlevi no Irã e, consequentemente, logo estabeleceram um governo teocrático, numa inusitada revolução às avessas, de volta a um passado religioso que mistura Estado e religião numa só coisa. Era o sinal do que iria acontecer ao longo do tempo e que agora se faz presente com todas as suas contradições, tendo em vista as manifestações terroristas disseminadas numa extensa e vigorosa escalada mundial. O que leva, na maioria das vezes, a não se perceber um conjunto de responsabilidades do Capitalismo que, pouco a pouco, leva a humanidade na direção do caos, inclusive possibilitando a existência do tal Estado Islâmico e seu califado fascista, juntamente com os seus tresloucados “jihadistas”. Isto sempre ocorre à medida que os grupos econômicos se regem pela manutenção da sua farta e desmedida ganância, ignorando totalmente os interesses dos outros na procura por ganhos a qualquer custo.
         Aqui está nó górdio de uma conjuntura insustentável, pois não se deve nem se pode ignorar qualquer regime autoritário, mesmo que se esconda por trás de uma aparente democracia, realizando eleições gerais periódicas, muitas vezes fraudadas. Por conseguinte, o trabalho de conscientização política é mais do que indispensável agora para se entender o que passa tanto na África, no Oriente Médio como na Europa. Isto pode ser feito, com toda a clareza, através da permanente luta anticapitalista, mesmo sem se abandonar as denúncias que se fazem necessárias contra todos os Imperialismos nem abrir mão da imprescindível defesa da autodeterminação dos povos.
         O andamento das coisas, como se pode constatar diante das ações terroristas de todos os tipos que desestabilizam o “equilíbrio” internacional, tem trazido inúmeras lições a respeito do que de fato se deu no decorrer dos tempos, exemplificando repetições que sucederam na direção oposta e com um alto custo social. Não obstante, caso tivesse sido possível desnudar as chagas e as mazelas do Capitalismo desde antes, país por país, impopularizando-o em todos os lugares, talvez o hoje fosse bem diferente do que é.

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