sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Dengue: o moscardo de nossa pólis

Ensaio
Recebido em 11 de dezembro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

Com o recrudescimento da crise social no país, não poderíamos esperar outra coisa a não ser a piora da vida da população mais pobre. Não é mera coincidência o fato dos casos de Zika afetar principalmente os Estados mais pobres da federação e, em especial, a periferia das cidades nordestinas. O que assistimos diariamente na televisão são os hospitais públicos lotados e os casos de microcefalia atingindo principalmente os menos favorecidos. Logo, trata-se de um caso de saúde pública, do despreparo e falta de compromisso dos governantes em salvaguardar condições mínimas de higiene e dignidade para a maioria das pessoas, deixando para os pobres o preço a ser pago pelas injustiças sociais e crise econômica. O mosquito não escolhe classe social, mas por qual motivo apenas os pobres estão sendo os principais atingidos? É nas periferias que os casos de dengue vêm se alastrando. Portanto, um recorte de classe deve ser feito para a compreensão do fenômeno Zika vírus e as sequelas por ele deixadas.

Responsabilizar o turismo como causa do alastramento do Zika no país é uma falta de compromisso com a história. Caso isso fosse verdade o fenômeno da microcefalia estaria se alastrando principalmente pelos países mais ricos, que são os que mais recebem turistas. O fato é que nossas condições sanitárias são tão vulneráveis que acabamos desenvolvendo a forma mais grave de um vírus que há décadas vêm se disseminando no país através de epidemias e surtos gravíssimos, sem que a causa do problema seja de fato atacada. Para isso deveríamos refletir sobre as causas sociais e políticas desse quadro nefasto. Apenas quando atingimos o estágio mais grave e chegamos num ponto tão caótico é que acabamos por perceber que com saúde pública não se brinca. A “microcefalia” dos políticos brasileiros é uma patologia das mais graves e a mais difícil de ser curada.
Não é de agora que salta aos olhos nossa indigência sanitária. Porém, associar a falta de esgotamento sanitário a uma doença que atinge o sistema nervoso central e periférico e deixa tão graves sequelas neurológicas, principalmente em seres humanos em pleno processo de gestação, representa o que de mais trágico poderíamos esperar para nosso país. Nossos poetas sempre nos alertaram para a imundície que é a desigualdade social no Brasil. Desde Castro Alves e Augusto dos Anjos, a falta de dignidade humana sempre foi uma temática central em nossa poesia. Curral de Peixe de Lêdo Ivo e Poema Sujo de Ferreira Gullar são duas obras primas que desmascaram a desumanidade e perversidade de nossas elites políticas e econômicas, as verdadeiras responsáveis pela miséria de nossas cidades. Em O Cão sem Plumas, João Cabral de Melo Neto compara o Recife a um animal moribundo, denunciando as águas paradas de nosso principal rio:

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.


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