quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

As mulheres e a busca por sua autonomia num contexto repressor

Ensaio
Recebido em 28 de novembro de 2015
Por Patrícia Félix, militante do Coletivo Aurora e doutoranda em Sociologia pela UFPE.

Circulam em diversos âmbitos da sociedade discursos e práticas machistas em apologia a uma posição inferior à mulher, menosprezando-a e humilhando-a. Assim, dentre diversas situações que marcam a mulher nesta condição inferiorizada, podemos mencionar: ela tem recebido menores salários, mesmo quando executa a mesma função que o homem; é incubida de cuidar da família e do lar, ainda que trabalhe fora de casa. E, neste último caso, o trabalho doméstico não é considerado um “trabalho propriamente dito”, mas sim uma obrigação inerente às mulheres, sendo elas orientadas desde crianças a que suas ações devem ser realizadas em âmbito reservado. Por exemplo, a maioria das meninas é extremamente repreendida por adultos a não brincar na rua, porque isso “é coisa de menino”. Ao contrário, são bastante estimuladas, no ambiente doméstico, a brincar de casinha, simulando papéis “próprios de mulheres”, tais como fazer “comidinha”, colocar o bebê para dormir, etc.
Toda essa opressão ainda é justificada por discursos religiosos que enquadram a mulher em lugar de submissão ao homem, como se verifica no seguinte texto bíblico, do apóstolo Paulo ao povo de Éfeso: “as próprias mulheres sejam submissas aos seus próprios maridos, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como Cristo é o cabeça da igreja” (Ef.5:22-23). Com base em discursos semelhantes, tem-se verificado no Brasil enormes entraves para aprovação de leis que garantam, em detrimento da tutela masculina, direitos às mulheres sobre o seu próprio corpo, como em relação ao aborto.
Para uma militância combativa e consciente da luta por uma sociedade justa, não devemos nos furtar a fazer análises críticas sobre o lugar que nós, mulheres, ocupamos na sociedade. É mais do que necessário dissipar a prática que naturaliza a relação desigual entre homens e mulheres e, em contrapartida, avançar na luta por garantia de direitos às mulheres, para que não sejamos colocadas em posição subordinada em relação aos homens. E, nessa luta, é preciso evitar a homogeneização do desigual. Ou seja, embora seja cônscio que há aspectos próprios a todas as mulheres, independentemente de raça, classe social, nacionalidade, etc., uma militância anticapitalista (aquela que busca, de fato, uma ruptura com o sistema que infringe exploração e desigualdades sociais em todos os níveis) deve, prioritariamente, lutar para assegurar os interesses do grupo oprimido, que é a classe trabalhadora, no âmbito da qual há várias peculiaridades, como a questão de raça e de gênero.
É imprescindível lutar contra o machismo, tendo a consciência de que este fenômeno, por ser estrutural, não guia o pensamento e a prática apenas de homens. Pois nossa sociedade é machista, e, consequentemente, muitas mulheres também o são, fato que ainda tem provocado muitas situações de violência à mulher. Nesse sentido, uma militância combativa precisa abolir a naturalização da desigualdade entre homens e mulheres, visto que a igualdade de gênero diz respeito ao direito à liberdade dos indivíduos, independentemente do modo como se apresentam e são apresentadas/os na sociedade.

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