sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A lógica totalitária do Enade

Ensaio
Recebido em 28 de agosto de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é formado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

A consciência crítica não pode ser vista como um apêndice da universidade, mas deve ser o seu próprio cerne, sua razão de ser. Porém, setores conservadores da sociedade procuram fazer da vida acadêmica um laboratório para testar o alcance de práticas e ideologias que objetivam destruir a essência crítica do ensino universitário. O Enade é um exemplo de teste de paciência, imposto por burocratas que reduzem a educação aos dados estatísticos e aos interesses do mercado. Os pressupostos do Enade remontam a uma mentalidade privatista da educação brasileira, a pessoas que tratam a educação como negócio, lucro, como se fosse uma empresa.

O Enade existe porque a educação está nas mãos de empresários que não se importam com a qualidade do ensino, mas apenas em lucros e resultados imediatistas. O governo criou o Enade como forma de lidar com a ganância do mercado, cujos excessos podem ser vistos a olho nu nas propagandas apelativas e na precariedade dos profissionais de ensino. O Enade se preocupa apenas com o mínimo de qualidade quando na verdade deveríamos estar preocupados com uma educação de excelência e com o máximo de empenho e investimentos num ensino superior de altíssimo nível.
Com o Enade assistimos um avassalador recrudescimento do sentimento de totalitarismo dentro das instituições universitárias. Pressão nunca vista antes sobre professores e alunos, com o intuito de se criar em torno de números o cerne da formação acadêmica. É revoltante assistir o governo intrometer-se na esfera educacional como se estivesse lidando com subordinados de uma empresa, de forma intimidatória e sem margem para debate. Administrar as mentes, impor agendas fictícias, gastar dinheiro público com provas e fiscais num país onde faltam estruturas mínimas de ensino é algo que deve revoltar a todos. Estamos falando de instrumentos biopolíticos de dominação num ambiente em que deveria haver um mínimo de criticidade. O Enade representa a falência, a destruição dos ideais humanistas de educação pública. Abolir o Enade deve ser uma causa pela qual devemos lutar com todas as nossas forças intelectuais e argumentativas.
Por trás do Enade esconde-se uma forma rasteira, utilitária, reacionária de se relacionar com o saber. O conhecimento não combina com autoritarismo. Ninguém deve ser obrigado a fazer uma prova à revelia de sua consciência. Os estudantes não devem boicotar suas consciências. Enquanto o governo boicotar a criticidade dos centros de ensino “superior”, os estudantes têm direito de resistir e criticar o Enade como bem entenderem.
Podemos chamar de ensino superior o que é ministrado uma vez por semana com professores explorados ao extremo? Quantos estudantes estão sendo formados em cursos sem nenhuma condição de existir e que para serem descredenciados necessitam de inúmeras ações burocráticas do MEC? Depois de lucrar anos com a precarização do ensino, mantidas as péssimas condições, o empresário poderia ter seu estabelecimento fechado, porém o estrago já estaria feito. Dessa forma, o Enade não combate cursos de fachadas criados para gerar lucros momentâneos a empresários irresponsáveis sem nenhum compromisso com a educação, mas é um incentivo ao ensino de baixa qualidade à medida que formata o ensino e trata grosseiramente questões que demandariam complexidade, aprofundamento e reflexão. Não querer ser avaliado pelo Enade não é fugir de questões complicadas, muito pelo contrário. É não aceitar a ausência de problematização.
O Enade reforça a ideia do diploma como um objeto impossível de desejo, um fetiche, um quadro a se colocar na parede. O saber, aos olhos dos defensores do Enade não passa de algo cuja mensurabilidade deve demarcar formas punitivas ou meritocráticas no âmbito da educação, algo equivocado e ultrapassado em todos os sentidos. Um curso bem avaliado no Enade não quer dizer que ele esteja preparando bem os seus estudantes, mas apenas que ele está preparando o mínimo de alunos e não todos. O Enade que impor uma mentalidade tecnocrática, quer submeter os estudantes a um modelo tecnicista de se enxergar o mundo, quer interferir na subjetividade e nas escolhas dos indivíduos.
Como um estudante de Ciências Humanas, que nunca vislumbrou em toda a sua vida acadêmica uma avaliação de marcar xis, pode se submeter a um teste mais próximo de uma lavagem cerebral, de uma tortura psicológica, de uma violência simbólica, e que em nada se aproxima das metodologias que ele vivenciou em toda a sua formação? Como podem achar que é normal aceitar o Enade quando passamos vários anos criticando o reducionismo no cotidiano de nossas salas de aula? O Enade vulgariza o saber, trata-o como uma mercadoria descartável, e trata os estudantes como robôs, como uma máquina fria, calculista, sem sentimento. Reduz anos de universidade a uma avaliação banal, sem profundidade. Não sujeitar-se à lógica do Enade é uma forma de protesto contra a mediocridade dos burocratas que invadiram o sistema educacional brasileiro.
O Enade não é apenas contra a autonomia universitária, é contra a autonomia humana. Trata-se de algo de natureza antidemocrática, próximo ao típico estilo autoritário das elites brasileiras, introjetado nas universidades no bojo da privatização do ensino e que reflete o enorme grau de alienação dos intelectuais brasileiros. Enquanto houver Enade não teremos democracia nas universidades, a liberdade estará sendo reprimida e os estudantes estarão sendo oprimidos e constrangidos a realizar algo que em suas consciências não faz sentido, algo que não representa pluralidade, mas domesticação e adestramento das mentalidades, das suas faculdades psicológicas, físicas e intelectuais.


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