quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Plano de Vôo, Vôo de Plano

Ensaio
Escrito em 08 de novembro de 2015
Por Betto della Santa, um, às vezes, contador de estórias.

Para Marcia Malcher, cunhantã de sempre.

Amanhecera alado. Isso. Assim. Alado. Não houve lenta metamorfose, nem dor de parir novos membros, não que se lembrasse disso. E como não era dado a grandes elucubrações ou explicações razoáveis, sequer houve espanto. Amanhecera alado e era isso, sem mais, e pronto. Como a maçã é doce e a manhã é fresca tinha, agora, um par de asas: porque sim. Eram asas reais, penosas, meio atabalhoadas, e, mais que tudo, enormes. Mesmo. A valer. Como animal terrestre que era, eventualmente, arriscara já nadar, debater-se contra a água, vencer pequenas distâncias. Isso era o máximo possível de se desambientar. Era o mergulhar.
Muitas vezes, curiosamente, sonhara o vôo (desses sonhos de fechar os olhos e dormir à noite). No sonho, contudo, voar era simplesmente a ideia. Não havia esforço muscular, cálculo probabilístico, estudo de rota. Nem GPS, aerodinâmica ou atrito do ar. Naquele mundo onírico, nos braços de Morpheus, seu pensamento noturno nunca aventurou predição climatológica, biruta de ventos ou qualquer coisa que o valha. Em seus sonhos nunca havia contratempo, tráfego aéreo, predador natural.
E o animal terrestre que sonhava o vôo, por paradoxal que pareça, tinha medo das alturas. Não medo à-tôa, desse de gelar a espinha, mas medo brabo, pavor de verticalidades abissais.
Nunca antes havia pensado muito na diferença entre as aves de rapina e as aves de quintal. Por definição, sequer era ave. A verdade é que não se nasce ave. Ave é preciso tornar-se.
Não são as asas morfológicas, inatas, dadas por herança congênita, sorte ou azar, o que faz avoar. Era preciso fazer alargar peito, crescer coração. Não caber mais em si. Esvoaçar.
Como movimento involuntário vez ou outra fez balançar os novos membros portentosos. Foi quase como espreguiçar-se e sentir a nova envergadura total. A resistência do ar fez com que desse pra trás, desajeitado. Caiu e fez tombo feio, de magoar. Acabrunhou, regaceou, mas não deu de embirrar.
Tentou e errou. E fez feio muitas vezes. Dos tombos dados fez educação pela pedra. Sem tutor ou supervisão deu de observar bem mergulhões e andorinhas. Vez ou outra; gaivota, albatroz.
Percebeu que voar é também, e às vezes sobretudo, abraçar o impensável. Ter com o inconcebível. O primeiro vôo de quem aprende à fórceps uma segunda natureza é, também, esquecer-se, violentamente, da primeira. Fazer terra-arrasada da memória outra, mais chã. Deixar detrás a vida bípede. Fazer a cabeça dar com o nonada, não-nunca. Ave de arribação que não nasceu com asas tem mesmo é a presença de uma ausência, e só. Tem pés agora para corrida de descolagem, não mais. Querer se avoar e temer-se o vácuo é como querer nascer de novo sem quebrar cascas.
Atinou que não aprenderia mais de curta-planagem. E que não se voa mesmo sem coragem. Ajoelhou sem rezar e, da genuflexão ativa nasceu um impulso, um empuxo, as ganas d’avoar.
E descobriu que o céu, bem de perto, não é azul, nem frio, nem alto. Nem céu é. E foi assim, de repente – não mais que de repente – que desaprendeu do que era, até então, andar.

9 comentários:

  1. Tão simples, quase uma conversa dentro do "espírito" da personagem... Como se tal fosse ele mesmo. Texto Estupendo... Bestial plano de vôo...! Simples e poético vigoroso divagar! O homem foi feito pra voar? Voar belicoso num esquisito desejar; depois correr nas asas dos sonhos que nos libertam - sonhos REM - tanto e tontos sonhos 'proféticos' enquanto dormimos, que pensamos simples e firmemente acreditar em deuses bípedes; símbolos da animalidade que se ergue em coletividade humana nas entranhas dos nós, complexos nós, dos que mesmo escrevinham desejos de Ícaro..........................................................................................
    Della Santa, cuida-te homem - me permita - escritor desvela símbolo e mito. Muito agora te respeito. Parabéns! (Perdoe-me forte efusão dum sentimento em soberba análise. Simplesmente, teu texto me deixou emocionado). Carinhoso abraço.

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    1. Pôxa vida, emocionado ao ler essas linhas. Recebe daí um abraço fraternal. Vosso, Bt.

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  2. Oi Betto ! Texto super lindo,um dos trechos que gostei foi :"Percebeu que voar é também, e às vezes sobretudo, abraçar o impensável. Ter com o inconcebível" ;muito poético e significativo do período que vivemos pois nós faz pensar nos jovens que estão ocupando às escolas e mostrando um lampejo de esperança, de mudança !!! Parabéns !


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    1. Se tu associastes o plano de vôo à ocupação das escolas "teu olhar melhora o meu." Valeu!

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    2. Oi Betto ! Então peço para você por solidariedade e apreço à quem quer saber mais de fazer a gentileza de publicar neste blog à sua aula pública que você deu na escola E.E. Martim Damy: "Sejamos realistas peçamos o impossível";uma pequena história global das ocupações( Córdoba-Paris-Berkeley-México-São Paulo ),escrever aqui um pouco sobre estas ocupações ! Grata pela atenção !

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  3. Oi Betto ! Então,melhore o meu olhar com as tuas reflexões, peço para você por solidariedade e apreço à quem quer saber mais de fazer a gentileza de publicar neste blog à sua aula pública que você deu na escola E.E. Martim Damy: "Sejamos realistas peçamos o impossível";uma pequena história global das ocupações( Córdoba-Paris-Berkeley-México-São Paulo ),escrever aqui um pouco sobre estas ocupações ! Grata pela atenção !

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  6. Boa noite Betto ! Pois vou publicar uma reflexão bela de gigante,pois é em ombros de um gigante que pude ver mais e mais longe :
    Ensaio geral:
    A virada cultural nas escolas ocupadas me colocou a pensar (e sentir) alto. A intervenção artística em plena Av. Paulista no domingo passado também.
    A possibilidade efetiva de revoluções político-sociais e a expansão (e aprofundamento) do espectro da autodeterminação coletiva nos últimos 200 anos de história da humanidade --isto é, a capacidade real de mudar o curso de nossas próprias vidas em sociedade-- tem dimensões políticas, obviamente, mas não só. O aspecto técnico, por assim dizer, de que o trabalho socialmente necessário esteja objetivamente dividido nos impõe algumas condições sob as quais atuar em conjunto possa de fato se tornar uma força material de massas. Um exemplo ilustrativo: vários intelectuais profissionais foram oferecer aulas públicas ao movimento de ocupação de escolas em São Paulo. Da mesma forma cantores populares e chefs de cozinha colocaram suas panelas e aparelhos a serviço da luta estudantil. Alguns pais e mestres improvisaram vigílias de autodefesa nas portas das escolas. Muitos grupos de teatro auxiliaram com uma intervenção urbana sofisticada e precisa de agitprop revolucionário no domingo passado. E essa torrente espontânea de solidariedade ativa não foi o fruto de nenhuma diretriz de órgão central ou assembléia geral de conselhos. Estão vendo onde estou querendo chegar? Estão vendo onde podemos chegar? Por alguma razão escolhemos a legitimidade e a força da luta desses adolescentes e crianças como baluarte de esperança e dignidade. Deixamos nosso apoio real em atos e palavras, sentimentos e pensamentos. Isso quer dizer que podemos colocar um fim ao fechamento de escolas, mas o que nos impede de transformar todo o sistema educacional? O quê e como produzimos, para quê e para quem? Em muitos casos, demos o melhor de nós. E isso não foi mais que um começo.
    Como diria Paulo Leminski, "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é que ainda vai nos levar além." Humana, genericamente falando.
    Va bene? Você conhece este gigante ? Rsrs...

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