sábado, 28 de novembro de 2015

O outro e ‘O estrangeiro’

Ensaio
Recebido em 28 de novembro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

Para os marxistas o estranhamento está relacionado com as deformações do sistema social, que aliena os homens em relação aos outros e também em relação a si. Já para os existencialistas o homem é um ser estrangeiro, cuja errância no mundo está relacionada não apenas com os deslocamentos geográficos, mas com os sentimentos de angústia, náusea e solidão. Nesse momento de grande comoção e solidariedade às vitimas dos atentados de Paris, seria importante lembrar duas grandes obras do escritor Albert Camus: O Estrangeiro e O Homem Revoltado.
        Lembrar de O Estrangeiro é não sucumbir ao apelo estigmatizante, é lutar contra os processos difamatórios e condenatórios cuja raiz encontra-se na incompreensão do outro. Condenar o outro a partir de um detalhe, de uma suspeita, de um preconceito é o que Camus denominou de absurdo. O estrangeiro é aquele que sofre as consequências do absurdo, que não se reconhece no absurdo, e que ao estranhar o absurdo passa a se reconhecer como estrangeiro. O absurdo é o que nos torna estrangeiro e não o outro, o diferente. O outro e o diferente constituem o que a lógica do absurdo não consegue tolerar.
         Condenar os terroristas é muito fácil; difícil é compreender o absurdo em que nossas vidas estão imersas. O maior dos absurdos é condenar um povo, uma religião por conta de atitudes de uma minoria cuja radicalidade precisa ser compreendida à luz da razão e não do preconceito. Por que existe o terrorismo? Não seriam os terroristas aqueles que nos mostram que o mundo todo é um terror enrustido? As crises econômica e ecológica não seriam atentados terroristas muito mais graves e que não nos escandalizam? O Estado não seria a causa do terror? A concentração de renda e o desemprego também não seriam coisas absurdas?
         Sem a noção de absurdo que Camus descreve em O Estrangeiro fica difícil compreender o conceito de revolta que o autor argelino conceitua em O Homem Revoltado. Absurdo e Revolta caminham juntos no pensamento de Camus. No Estrangeiro isso fica muito claro. Em O Homem Revoltado ele propõe que nos voltemos ao mediterrâneo, algo que os franceses deveriam pensar enquanto proposta que sugere o humanismo e a solidariedade contra a beligerância, a guerra e a barbárie.
         Camus nos ensina que a verdadeira solidariedade é aquela que os prisioneiros demonstram ao fazerem greve de fome para libertar outros prisioneiros. Somos todos prisioneiros da barbárie. Precisamos fazer greve de fome para salvar a humanidade, inclusive os terroristas. Os terroristas também são seres humanos. Eles encaram o absurdo da vida, porém sua revolta não é libertária, mas totalitária. O pensador italiano Gianni Vattimo chegou a dizer numa entrevista ao O Globo que “Vivemos num regime de terrorismo exercido, sobretudo, pelas nossas mídias”. Não poderia nossa época ser batizada como a era do terror sem, contudo, acharmos que os terroristas são apenas os outros, os estrangeiros?


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