sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Heine e Rilke

Ensaio
14 de outubro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

Um defende uma concepção hedonista da existência, o outro escreve a um jovem poeta uma carta recomendando a seriedade e o amor ao que é difícil. Mas podemos ver em Heine e Rilke um apelo à simplicidade. Eles nos ensinam que os deuses estão no cotidiano, na natureza. A poesia alemã consegue como nenhuma outra retratar o sublime e a experiência, os deuses e a natureza. Assim como Heine influenciou vários filósofos de sua geração, Rilke também foi fonte inspiradora para muitos pensadores do século XX.
Eles tinham o poder de influenciar as mais díspares concepções de mundo de seu tempo, visões de esquerda e direita rendiam-se ao poder mágico de suas palavras. Heine foi um exilado. Rilke perambulava pela Europa em busca de um sentido para a existência. Sabemos o quanto os hospitais parisienses, com seus moribundos expostos ao relento, chocou o aristocrata Rilke, que passou a ter uma visão diferente da morte. Aquela não seria a verdadeira morte, mas uma banalização da morte, uma ofuscação de seu sentido. Heine compôs versos em homenagens aos tecelões da Silésia, e tratou do tema da escravidão em seu poema Navio Negreiro. Seja com humor, seriedade, otimismo ou pessimismo, a poesia é o melhor retrato de nossa alma. Comparar Heine e Rilke é um exercício político, crítico e existencial. A amizade de Rilke com Rodin, a de Heine com Marx, desvela que os vínculos humanos e sociais transformam o mundo. Precisamos seguir os exemplos dos artistas, buscar sentido e profundidade no cotidiano, nas palavras, nas relações. Não enxergar Heine como o oposto de Rilke, mas encontrar em suas trajetórias algo em comum, e apesar de seus diferentes estilos, entender que a poesia une, e que a arte reconcilia os opostos. Em nossos tempos difíceis, precisamos ficar atentos à complexidade da existência. Por isso, tentar entender os caminhos dos poetas é um excelente projeto de vida, uma forma de mudar a nossa própria vida a partir da poesia.


Um comentário:

  1. Finalmente lembramos de Heinrich Heine e Rainer Maria Rilke. Atrevo-me pequena quadra aos dois alemães: 'O poeta desvela língua / Pois traduz em si um código / Poetiza mundo à míngua / Sem se saber filho pródigo'. Obrigado, senhor poeta Silva Miranda.

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