sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Forma-mercadoria e forma burocrática

Ensaio
Escrito em 26 de outubro de 2015
Por Diogo Valença, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

A categoria “forma”, no marxismo, expressa um conjunto de relações sociais objetificadas e alienadas. Um exemplo disso é a análise da mercadoria no capítulo primeiro de O Capital. A mercadoria é um valor, sendo o objetivo central de sua produção, no sistema capitalista, o lucro e a acumulação de capital. Isso apenas se faz possível porque os trabalhadores são apartados dos meios de produção e precisam vender sua força de trabalho a um capitalista, que lhes extrai mais-valia. Trata-se de uma relação social de exploração, alienante e redutora da existência humana.
         A forma-mercadoria aprisiona o homem numa vida de estranhamento em relação a suas próprias condições de vida. Essa forma pressupõe a divisão dos homens entre dirigidos e dirigentes. Os trabalhadores diretos, meros executores, deveriam ser guiados pelos representantes da administração. As relações sociais capitalistas se baseiam, assim, na separação entre trabalho manual e intelectual. Essa é a base das situações de poder que se estabelecem a partir das relações de dominação burocráticas.
         A burocracia, portanto, não é uma mera forma de organização racional. Ela é uma relação de poder e dominação, uma das formas alienantes de oposição entre indivíduos e grupos. A semelhança estrutural entre a forma-mercadoria e a forma burocrática não é mero acaso, por isso a burocracia se faz capitalista na forma e não nos grupos que a ocupam. Uma organização burocrática, como o Estado, pode ser dirigida por partidos de esquerda e mesmo assim continuar capitalista. As relações contraditórias entre classes sociais perpassam, nesse sentido, todas as organizações burocráticas.
Uma visão ingênua, segundo a qual os erros da burocracia seriam meras disfunções, assume a ideia de que tais tipos de organizações podem ser reestabelecidas em seu curso normal, tendo em vista a manutenção da ordem política institucional. Essa perspectiva funcional e instrumentalista da burocracia esconde interesses de grupos que lutam por poder dentro das instituições modernas, respaldando-se numa ideologia meritocrática. Ela é enganosa, porque esconde os antagonismos entre grupos, categorias e classes dentro do sistema burocrático.
         A forma burocrática, enfim, retroalimenta as relações de alienação que se fazem sentir em diversas esferas da vida social, em especial na produção de mercadorias. A burocracia é profundamente irracional, pois sua base é justamente a luta entre indivíduos e grupos, que por vezes tentam se apropriar dos recursos institucionais, do prestígio e das posições correspondentes, com uma linguagem democrática. A ideologia do “bem público” das organizações burocráticas estatais – a qual resulta da noção de que o Estado deve garantir as propriedades dos indivíduos livremente contratantes na produção de mercadorias – apenas serve para mascarar formas de dominação e disputas internas entre pequenos grupos, invisíveis à grande maioria dos membros das instituições modernas no capitalismo.


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