terça-feira, 10 de novembro de 2015

Apologia de Zaidan

Ensaio
Escrito em 17 de outubro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

Uma pólis sem ágora não tem razão de existir. Os gregos nos ensinaram que a praça pública é o lugar por excelência do exercício da cidadania, do debate público, da dialética e da filosofia. Apenas quando vamos à praça pública defender nossas ideias podemos nos considerar filósofos. Michel Zaidan é um autêntico moscardo da pólis, um intelectual que nunca se isolou na comodidade de sua cátedra, mas que faz da esfera pública um lugar para a construção do pensamento crítico e também para o revigoramento do sentido de comunidade. Apesar do exemplo de Sócrates, ainda hoje o establishment tenta coagir o pensamento crítico utilizando-se de meios coercitivos e ameaçadores para calá-lo e impedir a pólis de florescer com toda sua dignidade política. As tentativas dos donos do poder, para usar uma expressão de Raymundo Faoro, em tentar calar o Professor Michel Zaidan só podem ser vistas como uma afronta à democracia, ao pluralismo de ideias e à liberdade de expressão. Ao assistir a condenação de Sócrates, Platão não se limitou a fazer sua famosa apologia ao mestre, mas desenvolveu a sua República, sua Alegoria da Caverna, uma forma de responder e agir contra os ditames políticos de sua época.
Num brilhante ensaio que compõe o livro A Promessa da Política, cujo título é Sócrates, Hannah Arendt comenta: “Surgiu assim o problema de como o homem, se tem de viver numa pólis, pode viver fora da política”. As tentativas de expulsar os filósofos da política não é um fenômeno recente, mas algo que perfaz todos os regimes ditatoriais, totalitários e autoritários. O que estamos assistindo aqui em Pernambuco deve nos servir de alerta. O conservadorismo recrudesce de forma silenciosa e está incrustado no atual grupo político que tenta perpetuar-se no poder. Reagir contra as tentativas de calar um livre pensador é evitar que uma nova bastilha se forme numa terra historicamente contestatória, cuja tradição libertária remonta à Confederação do Equador, à luta contra a tirania política do Imperador Pedro I. Luta com forte apelo à liberdade de pensamento e contrária à centralização de poder nas mãos de uma minoria arrogante e despótica.
Devemos nos unir em defesa do Professor Zaidan. Intelectual nacionalmente respeitado, filósofo cuja reputação transcende as fronteiras de nosso Estado, grande interlocutor nos meios intelectuais do Brasil, autor de importantes livros e ensaios que inspiraram nossa geração de jovens estudantes e intelectuais. Reconhecemos em Zaidan um porta-voz das ideias mais avançadas de nossa época. Através dele pudemos conhecer de perto de forma didática e, ao mesmo tempo, erudita, a história do movimento operário, dos partidos das esquerdas, os pensamentos de Walter Benjamin, Marx, Freud, Althusser, Foucault, Habermas, Agnes Heller, além de importantes críticas literárias de romances regionais e ampla bagagem no terreno da teoria da história e da crítica cultural.
Zaidan participa da espera pública por paixão. Quem assistiu suas aulas ou ouviu uma de suas palestras pôde experimentar o sentido originário da filosofia, algo que está na raiz etimológica dessa forma de saber tão bem alcunhada por Pitágoras. Amizade pela Sophia, esse é o mundo que Zaidan construiu em torno de si, universo acessível e sempre disposto ao engajamento pelas causas dos excluídos. A presença de Zaidan engrandece não somente a universidade pública, mas a cidade, a pólis. Se para Aristóteles a amizade é mais elevada que a justiça, é porque ela tem o poder de construir um mundo em comum. E somente quem tem amizade pela própria consciência está apto a ser amigo do outro, a construir esse mundo em comum, pois a consciência é a forma suprema de reconhecimento e a verdadeira forma de amizade, algo que Zaidan construiu e que nenhuma forma de coerção irá retirar-lhe: “É melhor estar em desacordo com o mundo inteiro do que, sendo um, estar em desacordo comigo mesmo”.
 

Um comentário:

  1. Somos todos ZAIDAN! Por enquanto, por favor, não bebamos a cicuta...

    ResponderExcluir

Adicione seu comentário.