sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O magnífico reitor

Conto
05 de outubro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

Orpheu Simpatia era adorado pelos alunos, fumava maconha na praça, tinha sido hippie nos anos sessenta, jogava bola na periferia, transava com estagiárias, fazia pegação nos banheiros, programa com travestis e devido seu currículo sentimental foi eleito reitor da importantíssima Universidade dos Arrabaldes do Leste. Seus opositores nunca engoliram tal vitória e não deram trégua na luta pelo reitorado. Após seu primeiro mandato, foi reeleito com grande soma de votos: sua estratégia foi radicalizar na explicitação de suas fantasias eróticas, sua habilidade imaginativa ninguém conseguia deter. Usou as novas tecnologias, as técnicas de cinema e publicidade, praticou sexo virtual, fez filme pornô e, dessa forma, foi reconduzido a tão prestigiado cargo. Os alunos o chamavam simplesmente reitor, e a pompa cerimonial deixou de utilizar o tradicional pronome magnífico de tratamento nas cerimônias oficiais.
Os alunos realizam orgias ao ar livre, promoviam shows com muitas drogas e nada mais poderia escandalizar a conceituada universidade. Orpheu Simpatia foi reeleito para o terceiro mandato e, dessa vez, não precisou de muito esforço performático em suas acrobacias sexuais. Bastou anunciar a mudança de sexo, de nome e de cor para disparar nas pesquisas e quando apareceu no debate completamente nu, ninguém tinha mais dúvida quanto ao resultado da eleição. Seus inimigos desistiram do pleito e Virgínia Soledade foi nomeada reitora. Sua postura transgressora fez a comunidade dispensar o carinhoso título de reitor e apenas Virgínia era a forma de todos se dirigirem à reitora no cotidiano e também nas solenidades.
Diante da iminência da aposentadoria, Virgínia não sabia o que fazer da vida, apesar dos títulos e honrarias. Não achava graça em nada daquilo. Professora emérita, doutora Honoris Causa, até para o Nobel seu nome foi cogitado. Sem nenhum tesão pela vida acadêmica, voltou a dar aula na escola do bairro, seus alunos a chamavam simplesmente de tia, enquanto a comunidade acadêmica não conseguia esquecer a magnífica reitora. Virgínia sentia-se bem na nova forma de vida, os reiterados convites para participar de congressos e entrevistas eram reiteradamente negados. Sua vida sexual ficou mais calma, um amor de verdade apareceu na sua vida, mas isso ela guardou em segredo. Mesmo à revelia, as homenagens prosseguiam, livros e biografias foram lançados em sua homenagem, coisas que a chateavam bastante. A imprensa a perseguia como se ela continuasse a fazer parte da vida intelectual de sua cidade. Ela se perguntava quando seria livre de todo aquele assédio, de toda aquela curiosidade. Resolveu viajar para outro país, assumir outra identidade, fez nova cirurgia para extrair os silicones dos seios, voltou a usar barba e deixar os pelos crescerem por todo corpo. Passou a se chamar Baltazar Coimbra, matriculou-se como aluno no curso de direito, observou o quanto os costumes haviam mudado, que sua influência transcendeu os limites de sua região. Surpreendeu-se com o fato de não haver mais formatura, que extinguiram a concessão de diploma, que haviam abolido o ritual medieval da formatura e que já não existia mais reitorado, os jovens anarquistas dirigiam a universidade. A vida sexual e política andam juntas, algo que Heine, Sade e Foucault já haviam previsto de forma bastante profética e que se concretiza nos dias de hoje. A vida das instituições não é algo abstrato, mas reflete o que se passa nos corpos, nos gestos e nas almas. Baltazar Coimbra sentia-se aliviado, ao menos nas universidades a teoria freudiana do retorno do reprimido não era passível de comprovação.

2 comentários:

  1. Texto irônico e hermético, mas com fantasias muito sugestivas. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas parecem propositais. Só as conclusões são meras coincidências.

    ResponderExcluir
  2. Magnífico conto. Tão sublime no contesto do contexto da alucinada rebeldia sexual em vigor. Confesse: "És um louco"... Portanto: Magnífico escritor.

    ResponderExcluir

Adicione seu comentário.