segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O debate marxista sobre consciência de classe

Ensaio
26 de outubro de 2015
Por Diogo Valença, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

 Há duas posições que poderíamos considerar contrárias no debate marxista sobre a consciência de classe. Certamente, no interior de cada uma dessas duas posições há várias nuances que distinguem diferentes tradições políticas dentro do próprio marxismo. Por isso é sempre preferível falar de marxismos. A primeira posição se aproxima de uma ideologia cientificista, segundo a qual os trabalhadores por si sós não seriam capazes de alcançar uma consciência revolucionária de classe. A teoria revolucionária seria elaborada pelos intelectuais do partido e “introduzida”, a partir de fora, na mente do proletariado. A segunda posição diverge da anterior por perceber o papel ativo dos trabalhadores na própria elaboração da consciência de classe. Não se pode dizer, entretanto, que entre os marxistas não haja soluções intermediárias entre essas duas concepções extremadas. Elas não existem em estado puro.
         Um dos erros mais comuns em relação a Marx é que a conformação de seu materialismo histórico tenha se originado de uma síntese intelectual entre diferentes tradições de pensamento, a dialética hegeliana, o socialismo utópico e a economia clássica burguesa. Mesmo o próprio Lênin parece ter sucumbido a essa interpretação intelectualista. Quer dizer, se não fosse a existência de um movimento operário em ascensão e a participação de Marx e Engels nas lutas de cunho democrático, não teria havido marxismo. Nesse sentido, o texto de Lukács sobre o “jovem Marx” repõe a importância das batalhas políticas para o surgimento do materialismo histórico. A teoria revolucionária surge das próprias condições históricas e não o contrário.
         Haveria na verdade uma simbiose entre o marxismo e a história. É certo que, como diria Lênin, “sem teoria revolucionária não há revolução”. Mas poderíamos acrescentar que sem um movimento operário não teria sido possível a elaboração de uma concepção materialista da história. Esse é o ponto central da nossa discussão. Marx não inventou o marxismo, pois ele atuou como intelectual orgânico do movimento operário e daí o poder de toda sua síntese teórica. É dessa perspectiva que devemos entender o debate marxista sobre a consciência de classe.
         As vertentes do marxismo que estiveram impregnadas muito fortemente por uma ideologia cientificista, positivista e evolucionista, a exemplo da fração hegemônica da Socialdemocracia Alemã (SPD) representada por Karl Kautsky em fins do século XIX, tendem a enxergar a consciência de classe como produzida unicamente pelos intelectuais do partido, inspirados no materialismo histórico. As próprias condições de vida do proletariado, por estarem imersos na luta pela sobrevivência, não lhes permitiriam elaborar uma compreensão teórica global da situação de exploração e de luta política no capitalismo. A consciência revolucionária, produzida no partido, seria impressa de modo mecânico na mente dos trabalhadores. Outras vertentes, como o stalinismo e o marxismo liberal de Eduard Bernstein, também se aproximariam dessa maneira de considerar a consciência de classe. O que há de comum entre essas orientações marxistas seria a crença nas leis objetivas da história, que independem da vontade política organizada das massas. A revolução não seria, portanto, uma construção política, mas um resultado fatalista do desenvolvimento histórico.
         Sociologicamente essa primeira posição pode ser explicada pelo distanciamento dos setores médios, que participavam das atividades de discussão teórica dentro do partido operário, das reais aspirações de luta das classes trabalhadoras. Essa distinção entre dirigentes e massa fazia com que os primeiros se enxergassem como os verdadeiros detentores da consciência teórica do operariado. No caso do stalinismo, a separação entre as castas burocráticas do partido comunista e a base dos trabalhadores conduzia a essa crença nas leis necessárias da história, contra as quais a vontade humana poderia muito pouco, devendo-se obedecer autocraticamente às determinações políticas e ao catecismo teórico dos líderes do proletariado.
         A segunda posição é muito mais rica em termos de entendimento das relações dialéticas entre consciência de classe e elaboração teórica do partido. Aqui podemos incluir o próprio Marx, Lênin, Rosa Luxemburgo, Gramsci e Lukács, apenas para citar alguns dos mais conhecidos. Apesar das diversidades de visão entre esses nomes, o que há de comum entre eles seria o papel ativo das classes trabalhadoras na elaboração de sua própria consciência de classe. A teoria revolucionária só faria sentido se ela fosse produzida a partir das condições concretas de luta dos trabalhadores. Havia, nesse sentido, uma relação dialética entre o partido e a classe. Essas são, em suma, as duas posições no debate marxista sobre a consciência de classe.


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