segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Encontros (2 de 2)

Conto
05 de outubro de 2015
Por Paulo Magon, servidor público e poeta

Para acesso à parte 1, entre aqui: http://www.blogsintese.com.br/2015/09/encotros-1-de-2.html

Comemorou sapateando nos cascos de pés de bode uma música fúnebre do Wagner, que assobiava. Deixava marcas negras no piso do meu pequeno estúdio. Nunca, em minha pobre vida, vi representação mais grotesca. Comecei a preocupar-me seriamente.
Por via das dúvidas procurei deus. Tarefa por demais trabalhosa. Marcava encontros e me gargalhavam trovões nos céus. Eu mesmo gargalhava e deus emudecia por trás das nuvens. Calava-me, e ouvia cantos de sereias. Enlouquecendo de tanta procura, rezei, jejuei, isolei-me em longas meditações. Consultei búzios, dados, cartas de tarô, músicas do Djavan... Depois, esbravejei, rasguei poesias, raspei os cabelos, abandonei os amigos, queimei meus livros de arte, ciência, filosofia e a lógica das academias. Sem respostas e alucinado, escrevi missiva à divindade. Eis o teor:

Olinda, dia tal do mês qual do ano da graça de deus
Bendito sejas
Solicito audiência urgente, mesmo única rápida e fugaz. Pobre diabo me alucina. Ama-me como amo a solidão com quem não converso faz tempo. Busco ajudar, mas eu mesmo é que preciso de ajuda. Já não suporto as visitas diárias de um ser tão assíduo. Desespero com descrições enfadonhas e intermináveis loas das grandezas do inferno; tramas de guerra, pactos de sangue, torturas físicas e psicológicas. Oferece-me noite após noite, ouro, prata, mulheres generosas e cargos de ministro, senador, governador, em troca do meu espírito. Desespero! Decidi-me. Vou matar-me. Queimar-me vivo em plena praça da República da Cidade do Recife.
Esperando breve resposta.
Celestiais saudações.

Selei a carta e a remeti em correio adequado.

Na noite seguinte, duas da manhã, disfarçado de mulher, deus visitou-me.

Enquanto vigiava a porta do estúdio, ela surgiu borboleta enorme brilhando asas coloridas voando sala adentro. Meus olhos arderam. Senti minhas pupilas contraírem-se a ponto infinitésimo mesmo estando prevenido com óculos de alto teor de opacidade. Solicitei ajuste de intensidade e brilho a criatura divina, sendo atendido com um sorriso. Ai! Aí sim! Foi tanta luz que me vi forçado a ajoelhar de cabeça baixa, olhos e mãos cerrados de dor. Rezava fervoroso sem querer. Chorava feito recém-nascido. Encolhi-me na posição fetal rolando assoalho afora até bater com força e fúria na porta do pequeno estúdio. Ali, fiquei soluçando...
Aos poucos as dores foram diminuindo, diminuindo, diminuindo, mesmo tempo que alongava os braços, as pernas, e abria devagar, devagarzinho, os olhos. Fiquei deitado de costas com braços e pernas abertos na posição de estrela. O corpo estava relaxado e sentia imenso gozo. A sensação era que flutuava. A mente não pensava nem pesava e meus olhos estavam fixos num reflexo de luz no teto. Enquanto isso, meu corpo balouçava de lá pra cá e de cá pra lá; embalado...
Pela varanda do estúdio o sol nascia vermelho-amarelo-laranja.
Naquela madrugada, satã não apareceu.
Fiquei calado e colado ao piso por tempo que nem sei precisar. Depois, cambaleante, levantei-me satisfeito. Ela, puro real, continuava nua com seu sorriso de Mona Lisa de lábios cor-de-rosa. Sentada na minha cadeira favorita da varanda olhava-me de soslaio com olhar maroto de criança que fez artes, que fez trelas.
Amoroso, ofereci vinho tinto, broa e azeitonas verdes. Ouvimos silenciosos um jazz brasileiro e conversarmos longa e divinamente. Nunca pensei que dialogar com alguém fosse tão prazeroso.
Em dado momento, delatei questões dum satã que me perseguia. Relatei fatos, tensões, desejos, fantasias do demoníaco; falei em defesa da criatura carente e desventurada.
A borboleta-estrela-mulher observava-me com olhar ardente sensual e enigmática. Levantou-se fazendo volteios de bailarina dançando sala afora e cantando canto mavioso, bailando o “lago dos cisnes” em que ela era ao mesmo tempo lago e cisnes. Nunca em minha pobre vida vi tanta beleza plástica. Encerrou aquela apresentação num meneio de corpo e a aplaudi repetindo: - Bravo! Bravo! Brava!
Estava pronto para declarar meu amor.
Ela sentou-se ao meu lado, acarinhou suavemente meus cabelos, e disse-me com olhar lânguido e misterioso: - Já tens novo amor...
Serenamente, bebeu último gole de vinho. Abençoou-me com olhar suave e beijo na face, ambos inesquecíveis. Voou célere espaço afora sem tempo para mais despedidas. Tentei marcar novo encontro com mãos em aceno, olhos esbugalhados vertendo grossas lágrimas, boca entreaberta escorrendo baba, todo meu corpo revolto em tremores enquanto via a borboleta afastar-se na direção do sol já raiado.
Prevendo fortes saudades lancei grito convicto aos céus: - Vem saber da minha paixão!...
Dormi profundo sono de vasta recordação dos sonhos... Acordei dez horas depois.
Fui então perceber estar mesmo numa enrascada dos diabos. Meus problemas tinham dobrado. Agora, além de ser perseguido por satã estava apaixonado por deus.
Da vez seguinte que o demônio me visitou nem dei tempo dele passar pela soleira da porta. Convidei-o rápido a beber em bar próximo. Pedi ao garçom cachaça e amendoins, ele pediu uísque e batatas fritas; olhava-me com ar desconfiado enquanto conversávamos quase monossilábicos. Em dado momento declarei de chofre:
- Bicho! Não sei como nem porque aconteceu, mas, quero-te o primeiro saber. Estou perdidamente apaixonado por deus.
Mefistófeles olhou-me com seus olhos, ora negros ora vermelhos, injetados dum medo inexplicável. Derrubou a cadeira recuando três passos cambaleantes, mesmo tempo que fazia umas reverências e meneios desajeitados de corpo e mãos em acenos de despedida. Seu rosto sarcástico apresentava estranho riso de quem fez artes, de quem fez trelas. Fugiu, esfumaçou-se, nem pagou sua parte na despesa do bar; nem me disse simples: - adeus!
Toquei meu lóbulo da orelha direita sem nada entender olhando ao redor. As pessoas conversavam animadas rindo-se uma das outras. Ri também. Afinal tinha-me libertado dum ser satânico. Bebi a dose da aguardente pedindo a conta ao garçom que não apareceu. As pessoas ao meu redor desapareceram, o bar simplesmente desapareceu. Tive medo das asas verde-azuladas que começaram a avantajar-se em minhas costas. Corri, melhor, voei de volta ao meu pequeno estúdio.
Enquanto voava, cada vez mais gostava daquele voar.


O Portal da varanda estava escancarado! E a primeira pessoa que vi foi meu amigo Paulo, escritor cego-surdo-mudo, que não via havia tempos. Volteei ao redor da sala para exercitar minhas asas recém-nascidas; estava deslumbrado e contente. Depois, satisfeito, sentei-me na minha cadeira favorita, espreguiçado.
Observei meu amigo no seu escrever ligeiro e frenético, em braile, quase em transe. Ele, às vezes, parava a caneta “observando” o teto; outras vezes “olhava” a porta. D’outras vezes, “mirava fixa e longamente a mim mesmo”. Resolvi não perturbar meu escritor.
O ambiente era o mesmo. Todos os objetos estavam em seus devidos lugares. O livro do Goethe estava exposto e aberto na mesma página lida, na mesinha ao centro da sala. Apenas a porta de entrada do meu pequeno estúdio estava misteriosamente aberta. Não me importei.
Bebi uma dose de absinto em trago aligeirado. Uma lágrima azul rolou-me no canto do olho esquerdo quando vi uma estrela cor-de-rosa aparecer no infinito céu, à esquerda da de Alfa do Centauro. Recostei-me na minha cadeira favorita da varanda. Já não me sentia tão só.
No horizonte... O Sol nascia amarelo-laranja-encarnado.

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