terça-feira, 20 de outubro de 2015

Em busca de um caminho...

Ensaio
20 de outubro de 2014
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista

Percebe-se que, às esquerdas, falta ainda uma maior compreensão do que foram as lutas revolucionárias a partir do século 19, contando com as contribuições de Marx e Engels. E que também é uma verdade que as ideologias ditas socialistas ganharam, desde então, uma série de denominações, tais como: socialismo, anarquismo, comunismo e marxismo, constituindo-se em um novo e rico vocabulário. De outro lado, as conhecidas designações relativas a “marxismo-leninismo” foram citações eventuais que passaram a ser adotadas de forma continuada a partir da consolidação do que se efetivou como stalinismo, formação esta que veio a prevalecer como um arcabouço burocrático dominante na União Soviética. E as expressões até hoje usadas de “partido bolchevique” e “bolchevismo” foram cunhadas por John Reed em seus relatos no livro “Dez dias que abalaram o mundo” ao destacar as importantes intervenções de Lenin e Trotsky, entre outros mais, durante a Revolução Russa de 1917. Isto sem identificar que se tratava da “fração leninista” do Partido Operário Socialdemocrata (POSD) russo, que no processo de lutas alicerçou a sua hegemonia perante outras correntes políticas e, posteriormente, formalizou-se como Partido Comunista após a vitória contra o império Czarista e a dinastia dos Romanov.
         Já a burocracia stalinista, como uma das consequências imediatas da derrota da Revolução Socialista na Europa, passou a pautar as atividades dos Partidos Comunistas em todo o mundo e, em particular, de todas as esquerdas, nos anos 20 do século passado em diante. E com insano ufanismo, se negava as derrotas ocorridas na Alemanha, Espanha, França e Itália, entre tantas outras, justificando-se que a existência da União Soviética, por si só, seria suficiente para manter vivo o “socialismo” e fazê-lo triunfar a partir das experiências de um Capitalismo de Estado disfarçado. O que desarticulou e confundiu por completo o pensar socialista revolucionário que se baseava nas alternativas diferenciadas a serem organizadas e viabilizadas pelo poder popular (Sovietes), estrutura decisória que foi depois esvaziada e desconstruída.
         Na prática, o tal processo político de substituição das massas pelo Partido Comunista Soviético, bem como a sua substituição pelo Comitê Central, e deste por uma única pessoa “iluminada” - no caso, Stalin, o todo poderoso Secretário Geral - liquidou de vez qualquer possibilidade de se encontrar outros meios de se respaldar as lutas revolucionárias em todas as partes do mundo. No entanto, em troca disso, o regime stalinista induziu a todos às lutas reformistas, insistindo na defesa do Socialismo num só país, ao sofismar que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) era um “verdadeiro paraíso”. Enganando assim a maioria dos militantes políticos na perspectiva de um futuro promissor, baseado numa falsa “determinação histórica”. E, pra completar veio a substituir a teoria marxista da luta de classes pelo “conflito” entre países que são exploradores e países que se deixam explorar por submissão, convencendo a todos que “o inimigo vem de fora” e que era preciso se lutar “pela soberania nacional” e a “independência econômica” frente à dominação imperialista, com o apoio das burguesias “nacionalistas”.  
         Então, sem esse necessário entendimento fica muito difícil para qualquer um compreender o que se passou na época e tecer uma análise crítica consistente dos “desencantos do stalinismo, da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS” como se fosse coisas que aconteceram naturalmente e, sobretudo, um dos principais fatores que levaram ao ponto final da “luta sistemática” contra todos os Imperialismos ou, mais especificamente, em oposição aos Estados Unidos. A disputa entre dois mundos, um “Socialista” e outro Capitalista, tendo por propaganda a de que o primeiro seria vitorioso sobre o segundo, não tinha conteúdo e não passava de uma manipulação da burocracia, que se especializou em mentir e enganar a todos. Numa circunstância em que o stalinismo, ao fortalecer o seu poder na URSS, já sem os Sovietes, elaborou a sua própria justificativa ao conceber o termo “marxismo-leninismo” e, em seguida, se colocar como o “único herdeiro” de Lênin, dando uma veracidade a essa combinação semântica como um dogma.
         Hoje em dia, com efeito, outras variáveis estão evidentes, principalmente através das inovações tecnológicas e do avanço de outros conhecimentos científicos, com destaque para as áreas da informática e da cibernética, mas sem que se tenha possibilidade de se encontrar respostas criativas e transformadoras fora do atual regime capitalista em decadência. A real fluidez que se apresenta no presente, em relação “a propostas políticas, ideológicas e programáticas”, está intimamente ligada ao baixo nível de conscientização das populações. Esta consciência é quase zero. E, neste sentido, as esquerdas em geral também não conseguem apresentar nada de novo, mantendo os mesmos chavões de sempre, numa linguagem codificada, hermética, velada. Ou seja, não mais procuram sequer informar, esclarecer e conscientizar as bases, tal como se fazia tempos atrás mesmo de forma às vezes superficiais.
         Por conseguinte, é uma realidade que “a mobilidade da estrutura física aumentou muito a capacidade de barganha das empresas” e que na outra ponta “os trabalhadores fabris e suas representações sindicais se enfraqueceram muito, tanto em número quanto em capacidade de mobilização” numa situação crucial na qual “os valores coletivistas e igualitários cederam lugar para uma pluralização de valores e o individualismo se reforçou como paradigma da existência social”. Mas, como e por que isto aconteceu? Foi por acaso? Claro que não, pois a propensão de “se reinventar, sempre” permite ao sistema capitalista, mesmo vivenciando uma crise sistêmica sem fim, usar de todos os meios para alcançar seus objetivos imediatos de lucros recorrentes e continuar mantendo a exploração eficaz da mão de obra assalariada. E isto é, atualmente, favorecido pela contribuição dada pelas ciências que o subsidiam em todas as áreas, renovando práticas e viabilizando a sua sobrevivência, enquanto as esquerdas não se reciclam e deixam de cumprir com o seu papel revolucionário, de caráter libertário e transformador, nos embates contra o capital, país por país. Não só em contraposição ao imperialismo estadunidense, por exemplo. Daí o grande desafio que se tem pela frente, numa corrida contra o tempo, para se evitar a desagregação, o caos, a barbárie - antes que o Capitalismo destrua tudo ao nosso redor, prejudicando toda a humanidade, tal como já se pode prever em escala mundial.
         Essa é uma tarefa gigantesca que somente poderá ser levada adiante por uma nova (outra) esquerda que seja capaz de concretizar, junto com as massas, a verdadeira transformação, na direção de uma nova sociedade, em substituição à sociedade capitalista atual. Isto é, uma ação consciente e eficaz de resgate dos compromissos históricos da luta pela autodeterminação de todos os povos e pela transformação da vida em sociedade, possibilitando assim a ascensão da classe trabalhadora e dos demais excluídos ao poder político e social, com todo o seu significado plural.
         Todavia, isso requer uma convicção política-ideológica criativa, radical e firme, com base numa esquerda que seja revolucionária e que se pretenda crítica, socialista e anticapitalista, através de proposições inovadoras de profundidade, rechaçando desde já os vícios dos equívocos e distorções do stalinismo que ainda se faz presente nos dias de hoje, impedindo novos avanços.

Uma realidade que precisa ser superada, urgentemente!

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