quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Brasil: crise e manipulação

Ensaio
30 de setembro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL.

Existe uma crise política no Brasil, porém, pior do que a crise é a manipulação da crise. Vivemos algo muito parecido com o cenário que antecedeu o golpe militar de 64. As tentativas de se obter vantagens com a polarização política, sem medir as consequências que a corrida desenfreada pelo poder pode gerar, é algo perigoso e muito próximo à tática da direita golpista que apostou no tudo ou nada para garantir a todo custo um ideário conservador e as regalias do aparato estatal. A violência simbólica imposta pelos setores conservadores no Brasil deve nos deixar de olhos abertos contra a iminência de um golpe cujos contornos já podem ser vislumbrados.
A grande mídia, os ruralistas, a bancada evangélica, os entreguistas neoliberais, os racistas antinordestinos, representam os protagonistas do golpe que vem sendo arquitetado dia-a-dia em nosso país. Não podemos contemporizar nem silenciar diante da conjuntura nefasta imposta pelos grandes meios de comunicação e os moralistas de plantão que com ares de superioridade moral não conseguem esconder sua ideologia, ao mesmo tempo, rasteira e corrupta. O que tenta se impor é uma aposta no velho, no caduco e nenhuma margem para se pensar o novo, o diferente. A crise política está dominada pela direita, e nós não podemos fazer de conta que não estamos enxergando tamanho absurdo em nossa frente.
A direita pensa que somos cegos e que não conseguimos perceber o que está por trás das articulações pró-impeachment. As velhas raposas se sentem donas do Brasil e querem a todo custo o Estado para elas. Como se fôssemos idiotas, pintam um quadro alarmante e vendem a ideia de que apenas um salvador da pátria pode nos ajudar. A solução para a crise não está numa pessoa, nem num partido político, mas encontra-se em nossa capacidade em construir algo novo, para além dos conchavos com as elites e com os setores dominantes tradicionais. Novas alternativas políticas, novos projetos, a refundação da esquerda, eis o caminho que pode nos tirar da crise e o único que não se confunde com o atraso que representa a ordem política vigente.
Sempre tivemos uma esquerda problemática, que nunca conseguiu ser realmente autônoma. De Prestes a Lula, nossas lideranças nunca conseguiram corresponder às tarefas históricas e as demandas e anseios sociais nunca foram atendidos em nenhuma circunstância de nossa democracia indigente. Precisamos varrer o fantasma da direita, e não podemos admitir que os setores historicamente conservadores nos governem novamente. É hora de tirar Marx, Lênin, Gramsci das estantes das bibliotecas e colocarmos em prática as lições básicas do materialismo histórico, a começar pela luta ideológica, pela recuperação dos ideais revolucionários, pela formação politica dos jovens, que sempre resistiram contra qualquer tipo de dominação.
O maior erro do PT foi a ruptura com os ideais socialistas. A despolitização engendrada pelo Partido dos Trabalhadores foi o fenômeno político mais desastroso de nossa politica recente. Reverter esse quadro é a grande tarefa que somos chamados a realizar em defesa do país e das classes oprimidas. Nenhuma concessão aos interesses da direita. Reconstruir os alicerces da revolução brasileira está na ordem do dia. O Brasil ainda é o grande laboratório para a esquerda mundial. Daqui assistiremos o ressurgimento das grandes batalhas contra o capital, e novas lideranças advindas dos meios populares e da juventude farão tremer os fundamentos do neoliberalismo que por hora se sente vitorioso, mas que não conseguirá deter a fúria das massas trabalhadoras e da juventude consciente e empenhada em transformar por completo as estruturas politicas e sociais desse país. Não será com o PT nem com a oposição que iremos mudar o Brasil. Assim como existe o retrógrado, o novo também está sendo gestado. Temos muito a fazer com o avanço da direita no Brasil. Estávamos certos ao não acreditar no PT. Estamos certo ao não acreditarmos no que vem por aí. Esquerdas já. Novas jornadas de junho surgirão e saberão colocar a direita em seu devido lugar.
O desafio da esquerda hoje não é se preocupar em chegar ao poder, mas em não deixar a extrema direita ganhar terreno. Quando o dirigente da CUT afirma que pegará em armas para defender a democracia, sabemos que a práxis desse militante não o habilita a tratar desse assunto. Por outro lado, sabemos que no Brasil existem setores radicalizados e que não irão se eximir de lutar diante do recrudescimento da direita e da crise econômica. A crise econômica é antidemocrática e o povo tem direito de resistir contra as arbitrariedades da burguesia e do capital financeiro. Será inevitável vermos novos confrontos de ruas, e os oprimidos buscarão alternativas políticas e econômicas contra o neoliberalismo impiedoso e desumano.
A onda de refugiados em busca em direção à Europa é um exemplo de retorno do processo revolucionário internacional, as pessoas não aceitam o que lhes é imposto e buscam caminhos contra a opressão selvagem do sistema econômico capitalista. Assistiremos nos próximos meses no Brasil as manifestações de ruas não contra o PT, mas contra o capitalismo, contra a crise econômica e contra o conservadorismo da direita. Esta pauta é a única digna das classes trabalhadoras traídas pelo PT. Não deixar ser manipulado, não substituir a crise do capital pela crise da roubalheira institucional é a tarefa dos militantes e intelectuais engajados na busca de um país melhor e sem injustiças sociais.
Lutar contra a corrupção, mas não fazer disso um pretexto para a direita se locupletar com os aparatos do Estado. Está na hora de dizermos um basta à grande mídia. De enfrentar a ideologia neoliberal com nova agenda política e com processos políticos alternativos capazes de forjar uma política econômica voltada para os marginalizados. Lutar por moradia, educação e saúde é a grande razão para voltarmos às ruas, conscientes que o destino do Brasil é a revolução socialista e não o retorno dos fascistas neoliberais. Queremos um país sem corruptos, mas não serão os neoliberais que farão tal transformação, pois eles representam a causa, a origem da corrupção. Somente o socialismo nos libertará da corrupção, somente a revolução nos conduzirá a um sistema social sem ódio, sem preconceitos e sem violência.

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