quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Utopia, razão e liberdade

Ensaio
30 de setembro de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL

Encontros e desencontros sempre permearam a história da humanidade. Talvez a Fenomenologia do Espírito de Hegel represente a melhor síntese do percurso histórico humano, obra que não apenas precedeu O capital de Marx, mas que certamente influenciou bastante o movimento conhecido dos jovens hegelianos. No mundo contemporâneo os movimentos sociais e políticos expressam bem o sentimento coletivo que almejam um mundo melhor, mas não podemos nos esquecer que as religiões, os movimentos artísticos e iniciativas éticas individuais constituíram a base de nossa consciência democrática e utópica. As utopias nunca deixaram de existir, a liberdade nunca foi circunscrita a um limite pré-estabelecido, nem a um patamar inquestionável em que os homens pudessem se sentir plenamente realizados. Sempre estivemos longe do mínimo, nunca pudemos nos aproximar do máximo. Talvez as tragédias, os romances, as poesia e canções populares puderam expressar melhor essa nossa inconformidade com o real, nossos dramas e aquela insatisfação inerente a todos seres humanos, não apenas justificada, mas imprescindível para a manutenção da dignidade humana em todos os tempos.
No dia a dia somos colocados diante de situações limites, assistimos injustiças e miséria sendo reproduzidas com ares de naturalidade sob o velho jargão de que tudo isso sempre existiu e sempre existirá. As religiões tentam responder a tudo, enquanto a filosofia é ofuscada por não pretender responder a nada. Os iluministas, os românticos, os comunistas eram homens de carne e osso, muito parecidos conosco. Não devemos nos achar distantes dos movimentos emancipatórios que fizeram as grandes revoluções históricas. O mundo necessita de revoluções e cada um de nós somos um pouco revolucionário. Não adianta querer ser um Lenin, um Marx, um Rousseau. Nós somos nós mesmos e isso é suficiente para fazermos uma grande revolução. Se questionarmos a mídia, algo que sempre fazemos em nosso íntimo, se criticarmos o sistema educacional, jurídico, estatal e empresarial já demos um enorme passo rumo à consciência revolucionária.
Ler um livro, discutir em grupo, exigir direitos, tudo isso é revolução. Um texto pode ser revolucionário, um livro pode ser revolucionário, um protesto pode ser revolucionário. Ser revolucionário não é pegar em armas, mas exercitar a consciência crítica, se aproximar de pessoas que se preocupam com outras pessoas, fazer leituras inusitadas sobre a realidade. Gramsci dizia que todo homem é filósofo, nós também podemos dizer que todos somos revolucionários. Se trabalhamos, estudamos, nos esforçamos para sobreviver, isso já faz parte da mudança humana. Nossa existência não pode se resumir a conquistas pessoais. Ao fazermos parte do gênero humano, algo em nós está ligado ao todo, à coletividade. Aprofundar essa relação com a totalidade é ter consciência do papel revolucionário destinado a cada um de nós.
Nossa geração foi obrigada a esquecer a revolução. Precisamos introduzir essa palavra em nosso vocabulário. O capitalismo é antirrevolucionário, e por conta disso é anti-humano. Defender a revolução é defender o humanismo. A existência só faz sentido na luta revolucionária. Enquanto os comunistas do mundo inteiro lutaram para mudar o rumo da história, o capitalismo não hesitou em destruir a existência do planeta por meio de guerras e crise social. Sartre dizia que o existencialismo é um humanismo. Se isso é verdade, apenas na revolução o existencialismo é possível, pois somente ela pode preservar o humano.
A humanidade hoje é sinônimo de revolução. Apenas nos dias de hoje podemos ter a clareza que algo de maior e transcendente só pode ser alcançado coletivamente. O individualismo burguês deixou de fazer sentido. O egoísmo não pode ser racionalmente justificado. Muitos comunistas deram a vida para mostrar essa verdade, algo que pode ser compreendido hoje com um simples olhar sobre a história do século XX. A formação histórica, a educação estética, a consciência política estão na ordem do dia. Não queremos políticos profissionais, intelectuais arrogantes, nem líderes religiosos preconceituosos fazendo nossa cabeça.
É hora de dar um basta à publicidade da indústria cultural, reinventarmos os desejos, exigir o fim da imprensa burguesa e pôr um fim ao faz de conta da existência adestrada e convencional encucada pela lógica totalitária do mundo do trabalho burguês. Ser revolucionário é negar a mais-valia, é não aceitar ser submetido ao horizonte mental das elites que se beneficiaram sempre da divisão burguesa do trabalho. Fazer greve, ocupações, resistir intelectualmente, estes são os caminhos de nossa utopia, algo que aprendemos graças ao movimento dialético da história, único caminho para sermos existencialistas de verdade. Existencialismo sem revolução não passa de submissão. Enquanto os existencialistas passaram a vida toda falando em crise, em decadência, os comunistas tentaram superar as mais terríveis batalhas contra os nazistas, a maior expressão de crise humanitária e decadência humana. E não foi com palavras que venceram os nazistas, mas com a própria vida, sem nunca se queixar de angústia, desespero, ou dor existencial.


Invertamos o existencialismo burguês. Apenas a existência dos trabalhadores faz sentido, fora disso só existe alienação e nazismo. Somente por meio do comunismo é possível compreender criticamente a história. A razão da história é o socialismo, sistema político que precisa ser permanentemente reconstruído e reinventado. Esquecer o comunismo é esquecer a própria existência, a história. A história do comunismo é o alicerce para nossa subjetividade transgressora, revolucionária. Unir-se aos trabalhadores é a única alternativa. Só existe vida onde há trabalho; somente os trabalhadores sabem o que a vida; o mundo do trabalho é a verdadeira universidade, a fonte da filosofia e do pensamento autênticos. Somente a revolução, o trabalho, pode nos ensinar o que é a existência. O existencialismo não é revolucionário, mas a revolução é o verdadeiro existencialismo.

Um comentário:

  1. Caro Gutemberg, bom texto, parabéns! Atrevo-me também a pensar que pequenas e miúdas e micro-revoluções acontecem no dia-a-dia; imperceptíveis aos nossos olhos cotidianos. Mais das vezes um romance, uma poesia, uma pintura, uma escultura, um filme...Ah! os filmes... (dependendo dos filmes)... São mais revolucionários que armas em punho ou vociferações em congressos nacionais; pois que nos falam mais fundo "n'alma". Talvez a Arte é que nos salve de verdade.

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