terça-feira, 8 de setembro de 2015

Nova onda conservadora?

Ensaio
08 de setembro de 2015
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista

Quase todos os dias informações são disseminadas na mídia em geral explicitando que: “a violência contra a mulher e LGBTs é fruto de um Congresso conservador”. Ou que “as votações a favor da maioridade penal são fruto dos interesses conservadores dos parlamentos”. E por aí vão! Não obstante, o mais interessante é que esse mesmo raciocínio é repetido pelos grupos de esquerda sem que se esclareça que a eleição de parlamentares conservadores (vereadores, deputados e senadores) foi resultado das coligações partidárias. Sem nenhuma exceção. Ora, os conservadores estavam em todas elas e com muito dinheiro para financiar as suas próprias campanhas e de amigos. O atual presidente da Câmara, por exemplo, foi eleito numa coligação do PT com o PMDB no Rio de Janeiro. E o do Senado também, numa mesma coligação em Alagoas. E não é por acaso que os atuais ministros da Fazenda, das Cidades e da Agricultura, convidados a ocuparem os seus respectivos cargos, são expressões claras do conservadorismo na política, nas relações sociais e na economia.
Diante dessas ocorrências, pode-se concluir que as contradições inerentes ao neopopulismo brasileiro alimentam um quadro político que gera sempre inúmeros e insolúveis impasses. De outro lado, percebe-se que o modelo de sustentação do social-liberalismo vai aos poucos se exaurindo, pois não dá para se conciliar o capital com o trabalho: juntar empresários com trabalhadores para viabilizar o capitalismo brasileiro diante de uma crise sistêmica que se propaga por todo o mundo, principalmente na Europa. Ou seja, a economia mundial não está mais favorecendo este “tipo de programa” e embora se mantenham as ditas “políticas públicas” em vigor, tudo indica que o “barco está fazendo água”.
Não à toa, o atual presidente do banco Itaú vem a público defender a permanência de quem está à frente do governo federal. Os bancos nunca lucraram tanto... E o agronegócio, idem! Isto, sem se falar das principais empreiteiras que hoje em dia estão encalacradas no “petrolão” e em tantas outras fraudes, mas recheadas de recursos financeiros desviados e acumulados nos últimos anos. Taí a “Lava Jato” desnudando todas estas falcatruas, nas suas sequenciais fases de investigação, consolidando a importância do Ministério Público, bem como de alguns procuradores e juízes, apesar de todas as pressões em contrário.
Portanto, é mais do que evidente que, em situações de crises geradas pelo próprio sistema, com ênfase acentuada nas questões de gerenciamento, as classes dominantes, a burguesia, procuram logo outros atores para ocupar os cargos que não estão sendo bem administrados. O que indica agora a contingência de um possível afastamento de quem está exercendo a presidência, sendo caracterizado ou não como um “golpe branco”. Permutas passam a ser, até mesmo necessárias, devido à perda de credibilidade e da incapacidade de contornar a crise em tempo hábil. E trocar “um pelo outro” não altera em nada o caráter da coligação de centro-direita que pode até discursar contra os imperialismos – em nome de uma “pretensa soberania nacional” – quando no plano interno tenta realizar justamente o que pregam os grupos econômicos transacionais.
Com efeito, o que seria uma “nova onda conservadora” no âmbito nacional reflete tão somente as movimentações cíclicas de uma combinação política fadada ao fracasso, que não promove sequer as mudanças estruturais que se fazem necessárias nos marcos do capitalismo. A direita sempre esteve e continua presente na coligação liderada e patrocinada pela aliança compactuada entre PT/PCdoB/PMDB, acomodando outros tantos partidos em defesa de uma “governabilidade” aparente. E assim, vamos assistindo a uma série de crises que se desdobram em outras no devido tempo, prejudicando especialmente a classe trabalhadora como um todo, que tem perdas de direitos já assegurados porque as conquistas são passíveis de serem modificadas em situações extremas. Que se diga isto com todas as letras, pois as ameaças são constantes.
Todas as vezes que se promovem alguns “ajustes” na economia, sabe-se que a conta será paga por quem trabalha e/ou sobrevive mesmo na informalidade, bem como os aposentados e pensionistas. Não existe nenhuma novidade nestas medidas de caráter econômico com um viés político dirigido aos que vão “pagar o pato” de fato e aos que vão se beneficiar e “salvar” as grandes fortunas e as corporações empresarias, incluindo o agronegócio e os bancos.
Diante disso, se a palavra de ordem em pauta é a de uma greve geral, dá para se perceber que ela não terá mínimas condições de se realizar através das centrais existentes, que estão na maioria comprometidas com os esquemas de coligações partidárias. E muitas delas atreladas aos governos de plantão. Todas elas, atualmente, não têm legitimidade de representação, ao inverso do que pensam simbolizar. À classe trabalhadora, e a todos os excluídos, cabe a tarefa de lutar não só contra as medidas dos “ajustes fiscais” do momento. Senão, em contraposição a todas as mazelas do sistema vigente que prejudicam direta e indiretamente a maioria da população, organizando-se desde já por fora das organizações institucionais, com ênfase na luta anticapitalista.
Nesse sentido, é mais do que preciso organizar os trabalhadores e os demais segmentos populares em formas específicas de organizações autônomas e independentes. Num aprendizado prático de estruturação pela base, livre da tutela e do controle partidário, mesmo que seja de partidos políticos que ainda se dizem de esquerda, mas que mantêm postura e atuação deslocadas da realidade atual e que ainda visam o aparelhamento em geral, inconsequente. Isto impede o amadurecimento das populações e impossibilita a premissa revolucionária de que a libertação política e social do proletariado, e das massas trabalhadoras em comum, deve ser fruto de suas próprias ações conscientes.

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