segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Encontros (1 de 2)

Conto
28 de setembro de 2015
Por Paulo Magonservidor público e poeta

Sendo fato que o escritor
Ama escrever a respeito
Do observado

Se quando o observado
Reflete e ama
Visão do observador
Temos então que
Tal observado vem a ser
O próprio escritor

Silogismo Poético


Sempre sozinho da zero hora às três da manhã acomodava-me em minha cadeira favorita da varanda do meu pequeno estúdio. Costumava observar a bela lua, acompanhado de músicas relaxantes, bons livros, conhaque cinco estrelas, incensos raros, lápis, papéis, e de mim mesmo. Mesmo assim, sentia-me só. Tal sensação foi numa exponencial crescente a cada madrugada até tornar-se tão intensa numa sexta-feira de agosto que, lendo Fausto do Goethe, pensei de passagem ser boa e bem-vinda a visita de Mefistófeles para dialogar; fazer-me companhia.
Da varanda, via lua redonda e branca luzindo no céu e me acalmava de quando em vez. Naquela madrugada ninguém apareceu.
Dia seguinte, duas horas da manhã, bateram a porta do estúdio. Pensando ser meu amigo que conheço faz tempo, e que há muito não me visitava, fui atender:
- Quem é?
- O diabo. E precisando de ajuda.
Olhei pelo olho mágico da porta assustando-me com um rosto tristemente pavoroso. Recuei medroso e petrificado. Sem qualquer gesto meu, vi a porta abrir-se lenta e magicamente mesmo estando fechada com duas voltas de chave. Uma criatura voou célere através do espaço com asas negras-cinzas.  Fez uns volteios esquisitos ziguezagueando em torno da sala e o vi sentar-se na minha cadeira favorita da varanda. Colocou as garras na cabeça olhando fixo o chão em posição desesperante, enquanto batia alternadamente seus pés de bode num som nervoso de ouvir. Aparvalhado, vi toda cena sem mover mínimo músculo, pensando: (Alucinação na certa!)
Fechei os olhos balançando a cabeça em negativo... Depois parei. Abri devagar, muito devagar, devagarzinho, só o olho esquerdo; a criatura estava lá; abri os dois olhos; a criatura continuava lá. Suspirei fundo, rezei três ave-marias, e corpo tremendo fui à cozinha. Retornei com dois copos, uma garrafa de vodca russa e um pires repleto de azeitonas pretas portuguesas. Sentei-me ao lado daquele ser, colocando o repasto na mesinha de centro e falei baixinho e gaguejante:
-Emm quee poosso ajuudaarr?
Respondeu-me convicto brado balançando braços e pernas mirando céus:
- Minha paixão, meu amor, não me quer!
O pobre diabo discorreu dúvidas e certezas declarando-se terrivelmente apaixonado por deus. Verbalizou choramingando que deus não lhe compreendia, que gozava dele e fazia pouco caso de sua poesia mais séria; que lhe deixava "a ver navios" nos encontros marcados fazendo-se de estrela inacessível. O diabo jurou suicídio; estava mesmo desesperado. Eu, já sem tanto medo, tentava acalmar o bicho afirmando ser tolice o ato pretendido. Ponderei que ninguém merecia tal tipo de conclusão. Mas, o desventurado não queria prosa, poesia, nem o ato de ponderar.
Falei que a vida é bela - Que nada! Isso é coisa de cinema - respondia sarcástico. Disse da existência do sorriso, da música, das flores, das mulheres, do sexo - Tudo ilusão! Poesia dos tolos - retrucava triste. Lembrei-lhe das eleições presidenciais que vinham com esperanças por aí; ai! Aí é que o pobre enlouqueceu de vez. Vociferou que beijávamos príncipes que se transformavam em sapos e em sapos que ficavam mais cururus ainda.
Após uns instantes silenciosos afirmei doutoral:
- Mas sempre resta a vida! Não é a vida nosso grande e verdadeiro amor?
O demônio gritou convicto:
- Que vida resta sem se ter o ser da nossa paixão!
De nada valiam meus melhores argumentos àquela criatura decidida a se matar. Adotei novo estratagema:
- Tudo bem! Se tanto queres morrer pelo amor de deus, pensemos ao menos como tal morte se dará; para ser a menos dolorosa possível.
Enumerei:
- Que tal beber arsênico! Mas, dizem, as dores são dilacerantes e demoradas. Melhor não.
- Jogar-se do décimo terceiro andar de edifício qualquer. Não! Hás de ficar deformado. Onde ficaria tua colossal vaidade?
- Afogado? Também não. Se te falta o ar, como poder suspirar nas noites de solidão?
- Cadeira elétrica contigo não funcionaria. Sentirias cócegas.
- Deitar-se aos trilhos à espera dum trem em movimento é romântico. Porém, que pedaço de ti haverias de escolher?
- Tiro na cabeça, cortar os pulsos, enforcamento, guilhotina, adaga na barriga, saíram de moda. Morrer assim não é moderno.
- Melhor morrer vivendo o gozo do dia-a-dia e ressuscitar amores nos sonhos da noite. Afinal, não é isso que somos? Eternos suicidas?
Parei de falar encarando os olhos cor vermelho-sangue do demo. Olhou-me de soslaio com olhar esquisito interrogador e divertido. Senti que satã gostou do meu verbo. Só não gostei quando começou a me abraçar em demasia. Ameaçava amanhecer e ele não fazia menção de partir. Entediava-me sem mais novidades ou melhores lamentações. Tudo indicava ter conseguido meu intento de pretensioso escoteiro das boas ações; impedir um suicídio. Mas, e agora?
Com certo esforço, convenci o estranho visitante; prometendo novo encontro.


Desde então o monstro não mais me largava. Visitava-me incessantemente todas as noites alegando diversos pretextos.
 Numa das suas longas visitas disse-lhe impaciente e de supetão:
- Sabes! Tens razão. Ficar sem o amor de deus representa a morte. Melhor consumá-la rápido e de qualquer maneira ou jeito.
O Cão respondeu-me com olhar lânguido sensual e misterioso, acarinhando suavemente meus cabelos:
- Já tenho novo amor...

Fim da primeira parte

Um comentário:

  1. "Melhor morrer vivendo o gozo do dia-a-dia e ressuscitar amores nos sonhos da noite. Afinal, não é isso que somos? Eternos suicidas?"
    Perfeito!

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