sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Crise para quem?

Ensaio
04 de setembro de 2015
Por Bruno Vinicius Barbosa, estudante do curso de Direito, filiado e militante do PSOL/Olinda-PE.

Todos os dias somos bombardeados com as notícias dos embaraços econômicos que acometem o país: a inflação que está acima da meta; o dólar que passa dos R$ 3; alta da taxa básica de juros (Selic), chegando a mais de 14%, o que reflete nas demais taxas de juros diminuindo o poder de crédito do povo, freando o consumo e o pagamento de longo prazo; os ajustes fiscais e a retirada de direitos dos trabalhadores com o objetivo de preencher os gastos excessivos do governo; o desemprego, que está em alta, graças à falta de investimentos e à retração industrial do país; o aumento da gasolina, energia e produtos básicos, afetando o orçamento das famílias brasileiras, etc.
Mas em todo esse cenário catastrófico, apresentado por nossa mídia e vivenciado pelas camadas mais desprivilegiadas, algo chama a atenção: “O lucro excessivo dos bancos”. Há uma peculiaridade nessa nossa crise à brasileira, algo que foge ao normal em períodos como este, pois em todos os países em que a crise econômica dá as caras, o primeiro setor a sentir os efeitos dela é o setor financeiro, e isso é fácil ser entendido.
Há duas situações que podemos verificar:
1 – sem dinheiro ou possibilidade de continuar com os investimentos, o povo tende a dar calote no sistema bancário, não podendo cumprir com suas obrigações e deixando os bancos no vazio. Foi assim que se iniciou a crise de 2008 nos EUA, quando os bancos passaram a oferecer crédito de forma desregulada. Muitos aproveitaram o momento de baixa de juros para financiar a compra de imóveis, que estavam valorizados pela alta procura. Mas com o tempo, com o aumento dos juros e a diminuição na procura dos imóveis, ocorreu a diminuição do preço destes. Muitos clientes deixaram de pagar os bancos, pois não viam mais sentido em investir em imóveis desvalorizados. Muitos bancos foram à bancarrota, perderam dinheiro e mais de 200 fecharam as portas nos EUA. Neste caso, restava ao governo socorrer as entidades bancárias, o que naquele momento não foi possível;
2- Em outra situação, o governo, sem condições de pagar as obrigações com os banqueiros, veem o calote como única saída, deixando os bancos no vermelho. Neste caso, o governo muitas vezes tenta fazer empréstimos com entidades internacionais, como o FMI ou BIRD, ou praticar a política de arrocho contra o povo, aumentando impostos e cortando gastos em setores essenciais, tentando tapar o buraco deixado pela dívida com os banqueiros. Há até pouco tempo, a Grécia, com a crise que se instalara no país, caminhava para um colapso bancário. Bancos de todo o país fecharam as portas temporariamente por falta de dinheiro, restringindo o saque dos gregos. Na Espanha, logo após a criação do Euro, os bancos passaram a oferecer créditos em excesso. O bem-estar durou até as altas taxas de desemprego atingirem o país e a inadimplência bater nas portas dos bancos, que começaram a quebrar, sendo necessário uma soma 100 bilhões de Euros do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) na tentativa de recapitalizar as instituições bancárias. Onde estou querendo chegar com todas essas informações? É simples!
O caso brasileiro não se assemelha a nenhuma dessas duas possibilidades, pois o crédito fornecido pelos bancos privados é controlado e a inadimplência no setor bancário é baixíssima, e o governo nunca cogitou a ameaça de dar um calote na dívida. Atentem para os dados que irei apresentar: no segundo trimestre de 2015, o Bradesco atingiu a marca recorde de R$ 4,473 bilhões, sendo o maior lucro trimestral da história, com um aumento de 18,4% comparado com o ano anterior. O Santander, o Itaú e o Bradesco, juntos, somaram mais de R$ 14 bilhões de lucro. Mas não estamos em crise? O que há de tão especial nessa crise à brasileira, que possibilita aos banqueiros lucrarem em excesso, diferente das crises dos outros países, onde o colapso financeiro atinge as instituições financeiras com força? É um novo estilo de crise? Ou a crise não é social, e sim “setorial”, direcionada propositalmente para atingir os trabalhadores e as classes mais baixas com o intuito de preencher os gastos irresponsáveis do governo e não mexer nos valores dos juros e amortizações das dívidas, pagando aos banqueiros conforme o “script” ? Eu fico com a segunda opção.
O endurecimento nas regras do seguro desemprego, abono salarial, seguro defeso e pensão por morte, o corte de R$ 9 bilhões da Educação e de R$ 11,77 bilhões na Saúde mostraram claramente a intenção do governo. Enquanto o Imposto Sobre Grandes Fortunas e a volta da CPMF não são nem sequer cogitados, a estratégia de fato é retirar do bolso dos mais pobres, não mexendo nos ganhos dos mais ricos. Se a crise fosse de toda a sociedade, todos sairiam perdendo e o sistema bancário estaria na lama. Mas, longe disso.
De um lado, o governo com suas políticas de arrocho retirando cada vez mais do povo; do outro, o próprio povo sofrendo com as práticas de arrocho do governo; e no centro disso tudo, apenas colhendo os doces frutos dessa guerra de braço, os banqueiros e os grandes investidores, os privilegiados de uma crise que não é “social” como amplamente é divulgada na mídia, mas setorial, atingindo a uma maioria de desprivilegiados. Crise para quem, meus amigos? A elite continua na sombra, água fresca e o bolso recheado de dinheiro.

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