quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A política na ponta da faca

Ensaio
20 de agosto de 2015
Por Érico Andrade, filósofo, ativista dos Direitos Urbanos e professor doutor UFPE

Nos momentos de maior vácuo político, o discurso moralista ganha terreno. Ele dilata-se em falas, gestos e tem como principal função julgar moralmente os adversários. O que se vê hoje nas redes sociais é uma corrida para ver quem mostra a contradição mais patente. Abdica-se das ideias e se passa a julgar as pessoas. São coxinhas, reacinhas, etc. Cada manifestação é vigiada à risca para que a mínima contradição, ainda que da menor parte de um grupo de milhares de pessoas, seja colocada, em letras garrafais, como forma de deslegitimar o processo político. Será que todas as milhares de pessoas nas manifestações de 16 de agosto cabem dentro das caricaturas que estamos acostumados a compartilhar nas redes sociais e menosprezar? As ruas que eram o lugar privilegiado das manifestações da esquerda em geral, como, por exemplo, o grito dos excluídos e as marchas em favor das bandeiras mais vermelhas agora comportam um grupo heterogêneo de atores políticos unificados, de modo um tanto difuso, em torno de um combate à corrupção. A corrupção que aliás é identificada, claramente de modo unilateral, ao PT.
Não obstante o sorrateiro discurso moralista da direita ocultar pretensões de poder, de subtrair o poder do PT, parece que parte da esquerda, mais próxima do governo, defende-se com uma moeda próxima do moralismo e perde a oportunidade de radicalizar uma discussão sobre a própria natureza da democracia brasileira, quando passa a focar em confrontar posições sectárias (apoio aos militares) que devem ser combatidas, mas que são, no entanto, o menor continente no oceano, que a cada dia cresce, da direita. O discurso da direita não pode obliterar, pelo menos para nós, que a crise pela qual passa o governo Dilma não é moral. Ela é política, mas de qual política?
Da política que apostou todas as fichas na democracia representativa e conferiu poderes de realeza aos cargos de presidente do senado e da câmara. Muito se questionou quando Eduardo Cunha colocou para votar novamente a redução da menoridade penal, mas pouco se disse sobre um sistema que além de conferir tantos poderes a uma pessoa, neste caso o presidente da câmara, permite um tipo de manobra sórdida como essa.  Poucas palavras são ditas sobre um sistema político que é capaz de abrigar durante tanto tempo o PMDB, que mesmo sem ter um presidente atravessa todas as presidências na medida em que habita a zona cinzenta, para lembrar a polêmica expressão cunhada por Giannotti, da política, na qual o jogo sujo da troca de favores é a única moeda. Um sistema político que opera e vive apenas das indicações de cargos comissionados, acertos para financiamento fraudulento de campanha e liberação de verbas individuais não poderia resultar senão numa crise quando os ratos decidissem querer mais do que migalhas, ainda que sejam caras migalhas.
Depois de tanto tempo no poder, o PT não conseguiu alterar a política brasileira, mas, pelo contrário, tentou, agora podemos dizer sem sucesso, levar a realpolitik as últimas consequências. Aos seus simpatizantes e militantes restou a tarefa de guardar o espólio, a tarefa de disputar quem roubou mais (PT ou PSDB) ou quem fez mais (ainda que para isso se tenha roubado). Sem nenhum questionamento radical à natureza da democracia brasileira estamos fadados a nadar entre mortos. Se é importante entender que a esquerda perdeu o monopólio das manifestações de rua, é vital reconhecer que estamos arriscando, sem um exame crítico do governo Dilma, perder algo mais valioso: o prumo da utopia.


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