sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A filosofia da mais-valia

Ensaio
28 de agosto de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em Filosofia pela UFPE e leciona na UFAL

“O Olhar sobre a vida transferiu-se para a ideologia,
a qual esconde que não há mais vida”
 A Mínima MoraliaTheodor Adorno

Cada hora de trabalho roubado através da mais-valia é tempo de vida subtraído da classe trabalhadora pelos patrões. A alienação causada pela divisão do trabalho é um reflexo do impacto da mais-valia na vida da classe operária, reflexo que não se limita apenas àquelas horas roubadas durante o trabalho, mas também no deslocamento do operário até o trabalho, bem como nos prejuízos à saúde física e psíquica das classes oprimidas, cujo dispêndio de horas para recompor-se é incalculável. Uma vez conscientes da lógica destrutiva da mais-valia, como podemos suportar um sistema baseado no roubo da vida e da liberdade dos homens e mulheres? Por trás do rigor matemático com que Marx descobriu o funcionamento da mais-valia, encontra-se um apelo à liberdade humana, uma confiança na consciência enquanto instrumento de libertação.

Acerca de como a mais-valia se formou ao longo da história humana, num misto de resistência social e avanços tecnológicos, não podemos deduzir se tal processo foi inevitável ou não, porém, uma vez conscientes de seu funcionamento, não há como justificar os abusos e dominação realizados por um sistema que se mantém graças à expropriação de uma classe que representa a imensa maioria da população do planeta. Esquecer o marxismo é fechar os olhos para o fenômeno da mais-valia. E não há nada mais desejado pela burguesia do que isto: que nos esqueçamos do modo como ela se perdura enquanto classe dominante.
Unir todos os esforços contra a mais-valia foi a grande proposta de Marx. Para chegar até essa conclusão científica ele doou toda sua vida, pois sabia que as suas descobertas poderiam mudar radicalmente o mundo dividido em classes sociais. A dominação de uma classe social sobre a outra não é um fenômeno humano, mas desumano por excelência. Combater a divisão de classe social deve ser o fim último de toda existência. Apenas numa sociedade sem classes poderemos nos considerar realmente humanos. Marx não elaborou uma filosofia para fins imediatos, seu pensamento foi conscientemente construído para durar o tempo em que a dominação capitalista prevalecer sobre a terra. E o que temos observado é que sua opção estava correta. O exemplo de Marx nos ensina que o pensar tem um reflexo na práxis, que vale a pena pensar radicalmente e por si mesmo, e que apenas pensando cientificamente poderemos mudar a ordem de coisas que impedem a vida humana de florescer com toda a sua dignidade.
Não é fácil ser marxista, e não devemos banalizar esta expressão. Devemos partir do pressuposto que a alienação é um fator poderoso, difícil de ser enfrentado. Não será com dogmatismo e leituras precipitadas que mudaremos o rumo das coisas. O stalinismo é um exemplo disso. Até podemos piorar a situação. Ser marxista é ser paciente acima de tudo, não querer mudar as coisas através do imediatismo, mas reconhecer que a construção do socialismo envolve várias gerações.
Não existe socialismo num só país, assim como não existe socialismo através de uma única geração. O jovem Marx usou a expressão ser genérico para designar a construção histórica que representa a humanidade, somos acima de tudo o gênero, a classe, a geração, a comunidade, o partido, a coletividade, a guerrilha e a revolução. Somos mais que um, fazemos parte de uma totalidade da qual devemos estar conscientes e só assim podemos perceber o outro como igual, como ser humano. Lutar pela diferença pressupõe que o outro também seja um igual, e ser diferente não exclui essa igualdade genérica da qual todos fazemos parte. O capitalismo não suporta as diferenças. A violência global simbólica, social e política é a marca do capitalismo.
O marxismo ainda é identificado com uma filosofia que despreza as diferenças. Contra isso devemos demonstrar a crítica de Marx ao absoluto de Hegel, o conceito de mais-valia como liberação do tempo dos homens para serem livres e se constituírem como quiserem. A experiência soviética deixou um grande trauma psicológico, principalmente no leste europeu. Porém, devemos lembrar que sem as organizações operárias, sem os sindicatos, não haveria como resistir à dominação burguesa. O movimento operário de inspiração marxista foi o embrião das lutas emancipatórias em todos os setores da sociedade. O próprio Marx é um reflexo da subjetividade coletiva e revolucionária que os trabalhadores fundaram ao resistir à opressão burguesa.
O marxismo não é a causa da ausência de liberdade, como o discurso burguês tenta insinuar. Mas a mais-valia é contrária aos modelos alternativos de vida. A liberdade econômica dos trabalhadores é a causa mais fundamental, e a razão de sermos trabalhadores é a de que queremos ser livres e independentes. Porém no capitalismo o trabalho aprisiona e impede-nos de ser o que realmente desejamos. Hoje o discurso da diferença exige apenas direitos básicos. Nós, marxistas, queremos mais que isso. Queremos o direito de mudar o rumo da economia global, mudar a forma de organização de trabalho, mudar as relações de poder construindo alternativas realmente democráticas. É dessa forma que o marxismo acredita no florescimento da pluralidade humana.
O tempo por si só degrada o homem. Ainda mais sob o controle da mais-valia. Marx vivenciou a luta pela redução das jornadas no século XIX, conquista que até hoje simboliza uma guinada importante na correlação de forças entre patrões e empregados, talvez a mais poética de todas as lutas dos movimentos sociais, algo que influenciou profundamente a escrita d’O Capital, pois atacava o cerne da dominação burguesa: o poder das elites sobre o tempo das pessoas. Mais do que nunca somos escravos do tempo, seja no trabalho, na universidade, nas relações pessoais: não temos mais tempo para nada, e não percebemos que isso é ditado pela mais-valia.
Lutar contra a mais-valia é lutar pela liberdade de ir e vir, de decidir acerca de como levar a vida. Garcia Marquez talvez seja o escritor que melhor compreendeu a crise da temporalidade burguesa em nossas vidas. Em Ninguém escreve ao coronel, há uma espera infinita por uma carta que nunca chega. Em Cem anos de solidão, o tempo apesar de seu ritmo desconcertante e ilógico, não altera a vida, ou melhor, a solidão das pessoas. Em O amor nos tempos de cólera, o tempo não consegue apagar as marcas nos corações dilacerados dos amantes. Em Memória de minhas putas tristes, a idade não faz sucumbir o desejo, os sentimentos eróticos entre as gerações. Do amor e outros demônios, uma história de amor que não se apaga nem se encerra nas certidões de óbitos, mas vira lenda para sempre. Por trás dessas esperas, dessa demora excessiva, desses reencontros improváveis, está a magia da vida, o poético, os amores impossíveis e, ao mesmo tempo, infinitos.
Não adianta correr contra o tempo, mas explodir o continuum histórico, como nos ensina o marxista Walter Benjamin. Não se deixar levar pela competitividade incentivada em todas as esferas da vida, escolher as próprias leituras e inverter os anseios estimulados pela propaganda consumista e instrumentalizadora dos desejos. Tudo isso não é fácil, mas cada um de nós tem em comum o anseio pela liberdade que só pode efetivar-se coletivamente. Em tempo de crise do socialismo, a consciência de classe é o melhor remédio. Ou somos burgueses, ou somos trabalhadores. A hora é de escolhermos de que lado estamos e juntos reconstruirmos a única classe que pode libertar a humanidade das injunções nefastas da mais-valia. Chega de capitalismo, acabou-se o seu tempo. Só nos cabe buscar uma outra temporalidade, aquela que não é aprisionada, nem roubada pelos capitalistas.

2 comentários:

  1. Querido Gutemberg Miranda... Quando e quanto haveremos de mirar, e suplantar suspeita e concreta visão do símbolo da parva e "paradisíaca realidade". Tontos tristes e poéticos tontos, vingando a mortandade da terrível e ilusória "alma burguesa" aristocrática. Piedade! Piedade! Morte dum tanto então... Uma tranquila e marxista ação, no real poema da ilusão...

    ResponderExcluir

Adicione seu comentário.