sexta-feira, 31 de julho de 2015

Universidade e barbárie

Ensaio
31 de julho de 2015
Por Gutemberg Miranda, que é graduado em filosofia pela UFPE e leciona na UFAL

A universidade pública rendeu-se completamente ao fordismo – algo que demandaria uma crítica como a de Chaplin em Tempos Modernos – voltada exclusivamente para os acadêmicos produtivistas. A existência de uma produção em série no mundo acadêmico passa sem gerar alarde e poucos intelectuais protestam contra esse modelo. As origens de tal modelo remontam à ditadura militar e recrudesceu com os governos de Fernando Henrique, Lula e Dilma. Temos uma universidade pública acanhada, enquanto os empresários da educação escancaram a lógica mercantil de suas instituições por meio da propaganda em horário nobre na televisão brasileira. A educação como negócio tornou-se algo tão natural que já não nos espantamos com a derrocada do ensino superior brasileiro e sua feição conformista e neoliberal.
A lógica da barbárie é o que permeia o ensino das instituições superior. A precarização dos docentes é alarmante tanto no setor público quanto no setor privado. O conhecimento se confunde cada vez mais com a ideologia dominante e o pensamento crítico é encarado como um defeito de fábrica que deve ser descartado ou “consertado” pelos ideólogos de plantão. Tempos difíceis para a universidade, para o ideal da racionalidade crítica. A onda de conservadorismo da sociedade brasileira mereceria um estudo do tipo daquele desenvolvido por Adorno ao refletir sobre a indústria cultural e o fascismo, uma Dialética do Esclarecimento capaz de demonstrar os elementos destrutivos da racionalidade instrumental e o retorno ao mito do conservadorismo que ainda seduz muitos brasileiros. As raízes desses problemas certamente têm a ver com o desmonte do ensino superior e o imediatismo da produção acadêmica atual.
Não se trata de defender um elitismo conceitual, nem de demarcar uma distinção acadêmica. Mas recuperar o caráter humanístico e revolucionário de nossa trajetória intelectual, algo que os militares e o mercado tentaram destruir, e os governos democráticos não se preocuparam em problematizar. A privatização do ensino é o motor do reacionarismo atual, e o controle do mercado sobre as universidades públicas também impede o florescimento de um movimento emancipatório dentro de nossas instituições. Precisamos correr contra o tempo e desenvolvermos uma crítica à logica alienante dos bens culturais. A universidade precisa deixar de ser um monumento à barbárie, e a lógica cultural de nosso capitalismo precisa ser escancarada enquanto forma de dominação e domesticação crescentes. A lógica efêmera do consumismo venceu há muito tempo o embate ideológico no interior das universidades. Cabe-nos desvelar esta realidade e assumirmos nossa fragilidade diante da crise do humanismo de nossas instituições de ensino.
Muitos intelectuais ainda não perceberam que não passam de fantoches nas mãos do liberalismo. Isso porque no interior das universidades somos impedidos de enxergar a lógica destrutiva do produtivismo acadêmico. Os dispositivos de dominação são muitos sutis e a formação de uma oposição a essa lógica neoliberal é bombardeada a cada instante. Basta olharmos o que aconteceu com o marxismo dentro das universidades. São raras as pesquisas que se preocupam com a dialética e o materialismo no âmbito das ciências humanas. A militância social e a crítica cultural devem caminhar juntas contra a conjuntura privatista da cultura. A arte engajada e o pensamento de esquerda não podem se acostumar com o lugar secundário que as elites reservaram para as vanguardas politicas e culturais. Temos poucas alternativas diante do avanço da direita. Precisamos de uma política vanguardista em todos os sentidos, pois o neoliberalismo tomou o lugar que as vanguardas vinham conquistando até serem assassinadas pelo fascismo cultural das elites globalizadas.

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