terça-feira, 21 de julho de 2015

Tempestade perfeita? A oposição de direita e os desafios para a extrema esquerda (1 de 3)

Ensaio [*]
20 de julho de 2015
Por Pablo Polese, doutorando em Serviço Social pela UERJ e UFRJ

"Se há mais de uma década o PT governa o país enquanto esquerda pró-capital, por que o capital quer a saída do PT do poder?".

O texto visa contribuir com a análise de conjuntura. É o resultado de uma pesquisa sobre quais setores capitalistas estão por trás da oposição de direita ao PT. O tema surgiu depois das mobilizações de massa em março e abril deste ano, as quais ocuparam as ruas e colocaram em pauta a saída do PT do poder, tema que segue até o momento. Se há mais de uma década o PT governa o país enquanto esquerda pró-capital, por que o capital quer a saída do PT do poder? Além de levantar os dados de financiamento das campanhas eleitorais de PT e PSDB em 2014, a fim de observar quem já almejava a saída do PT do poder desde as eleições, trago ainda outros dados de inúmeras espécies, sempre no intuito de rastrear as contradições entre capitais influentes no Estado e atuantes (ou querendo atuar) no Brasil. Ao mesmo tempo, problematizo alguns dos desafios postos à extrema esquerda nessa conjuntura em que por um lado temos protestos de massa sendo mobilizados pela direita contra a ex-esquerda e por outro temos essa esquerda pró-capital tentando se legitimar como a melhor opção de governo, seja para os capitalistas (implantando o pacote de medidas de austeridade e de ataques a direitos dos trabalhadores) seja, paradoxalmente, para os próprios trabalhadores, reforçando o medo do “golpe” da extrema direita e a tese de que o PT é o “mal menor”. A extrema esquerda não pode ser massa de manobra nesses atritos entre frações do capital e, por isso, precisa formular sua própria estratégia, o que exige uma realista análise de conjuntura [1].

Introdução
Segundo os dados recentes da economia mundial, a queda do preço do petróleo em todo o mundo, a alta do dólar e o excesso de oferta de commodities – em especial por conta da diminuição da demanda chinesa – criaram a “tempestade perfeita” para queda no preço dessas mercadorias. A título de exemplo, observe-se que de março de 2014 a março de 2015 o preço da soja teve queda de 30,9%, o do milho 21,69%, do trigo 5,29%, do açúcar 25,69%, do café 27,82% e do minério de ferro 58%. Como a economia brasileira está largamente assentada no setor exportador, as implicações econômicas e políticas da desvalorização das commodities (incluída a “commodity especial”, o petróleo) não poderiam ser maiores. Mas a tal “tempestade perfeita”, em sua aclimatação brasileira, vai muito além desse cenário estritamente relacionado à crise econômica, o preço das commodities e a cotação do dólar [2], e não por acaso Paulo Arantes chegou a escrever um ensaio [a] norteado pela ideia.
A tempestade perfeita brasileira aparece já como tentativa de resposta, como engendramento de solução ao problema que emerge, trazendo para o olho do furacão da crise econômica outros elementos, dentre os quais uma “crise institucional” que levou o governo do PT a enfrentar momentos de instabilidade política e, ao que parece, um risco real de impeachment contra Dilma. Ao criar um clima conjuntural confuso e turbulento, favorecendo o manejo social e institucional de pressões econômicas e políticas tanto contra o governo petista quanto contra os trabalhadores, a tempestade perfeita foi uma benção para o capital.
Foi durante a tormenta que um setor do capital abocanhou parte da Petrobras. Inclusive, os beneficiários foram também setores do capital externo, que veio com dólares valorizados comprar os ativos desvalorizados da empresa brasileira, incluindo o pré-sal. Mas a crise da Petrobras não passou de um episódio – importante, é verdade – na configuração da tempestade perfeita. No imediato pré-eleição a empresa estatal era apresentada por analistas do jornal Valor Econômico como uma empresa que, embora apresentasse um alto nível de endividamento, se destacava “com folga” em face das principais concorrentes mundiais do setor “como aquela que mais investe e, portanto, como a que tem as melhores perspectivas em termos de crescimento de reservas e de produção de petróleo para os próximos anos”. Longe do cenário catastrófico que enredou a empresa, em fins de 2014 era previsto que as ações da estatal subiriam no pós-eleição, como resultado das expectativas positivas em virtude da consolidação dos investimentos e aumento da produção, além da perspectiva de um reajuste do combustível e diminuição da exposição negativa da empresa na mídia (cf. Valor Econômico, 20/08/2014). O que vimos foi o contrário: um ataque em massa contra a estatal, ancorado em denúncias de corrupção.
Foi a “tempestade perfeita”, enquanto articulação de crise econômica e crise política amplamente divulgada na mídia, canalizada contra o governo e pesando contra a classe trabalhadora, que permitiu avançar o “pacote de maldades” que inclui a lei da terceirização (ver aqui [b] e aqui [c]) e os ajustes da austeridade à brasileira (aqui [d] e aqui [e]).
Abrangentes, as medidas do “pacote de maldades” englobam os cortes de orçamento [3] estatal em setores ligados ao “social” e a retomada de direitos trabalhistas (por exemplo a MP 664, que limita a pensão por morte, ver aqui [f] e a MP 665, que mudou as regras do seguro-desemprego, ver aqui [g]) visando aumentar os lucros das empresas e controlar um setor potencialmente rebelde da classe, deixando-o em situação ainda mais precária e economicamente vulnerável (ver aqui [h]). Além disso o “pacote de maldades” inclui a mudança na legislação quanto ao trabalho escravo (ver aqui [i]), a indicação e aprovação na calada da noite (depois de rejeitada a proposta no mesmo dia) da redução da maioridade penal (ver aqui [j], aqui [k] e aqui [l]) e outras pequenas, porém significativas pautas de direita que aproveitaram a maré e passaram, com pouco ou nenhum protesto popular. Não por acaso, os dados da Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE, apontam 10% de desvalorização real da força de trabalho, de novembro de 2014 a maio de 2015 (ver aqui [m]). Não bastasse, em início de julho o governo lançou uma Medida provisória autorizando as empresas a reduzir o salário e a jornada de trabalho em até 30%, alegadamente com o objetivo, que não deixa de ser uma ameaça aos trabalhadores, de “reduzir os gastos com seguro-desemprego” e manter a arrecadação de INSS e FGTS (aqui [n]). Assim, impõe-se uma medida drástica e já se alerta, nas entrelinhas: ou aceitam o arrocho ou serão demitidos. Em resumo, a tempestade perfeita do início de 2015 significou um dos piores trimestres da história dos trabalhadores no Brasil.
Dado que muitos desses “pacotes de maldades” já vinham sendo pressionados e já estavam previstos para 2015 independentemente de quem vencesse as eleições, é preciso olhar atentamente para a conjuntura, evitando a fácil e superficial leitura de que o PT fora atacado pela direita e seus interesses. De fato passar as medidas do “pacote de maldades” era de interesse do próprio PT e dos setores econômicos que o sustentam no poder, por isso há que se perguntar se essa tempestade não teria sido aproveitada pelo PT e sua base política e econômica enquanto o clima perfeito de instabilidade conjuntural que permitiria passar várias medidas de interesse do capital e do governo, sem que a classe trabalhadora se rebelasse e conseguisse barrar os ajustes, dado o temor da oposição de direita, do golpe militar e demais fantasmas que ressurgiram com força nessa conjuntura, em parte graças ao papel da grande mídia. Outro divulgador em massa da amedrontadora tese de que se estaria em preparação um golpe militar e um cenário social ainda pior que o atual, foram, evidentemente, os próprios petistas, alarmados e/ou buscando se armar com a tese do “mal menor”, em ambos os casos levando-os a autolegitimar a permanência do PT no poder.
Dada essa hipótese do caráter providencial da tempestade perfeita, ao contrário do que toda a aparência indica, a oposição de direita – embora de fato exista – teria proferido um ataque que acabou criando um ambiente conjuntural útil aos interesses gerais do governo petista: como o PT conseguiria passar o “pacote de maldades” que já vinha sendo gestado desde antes das eleições, num ambiente político de recém-eleição muito apertada e onde precisou-se mobilizar toda a base militante e se levantou fortes expectativas de viragem à esquerda do governo de “Dilma coração valente” etc.? Isso, somado ao fato de que tanto a oposição de direita quanto o governo da ex-esquerda estão se ancorando e encontrando respaldo político e ideológico em estratos da classe trabalhadora, traz à tona uma série de questões e desafios para a extrema esquerda, tanto do ponto de vista da luta social e prática quanto do ponto de vista da elaboração teórica realista que permita uma crítica contundente aos projetos capitalistas em disputa.
Já é contado em décadas o balanço de que o governo do PT é um governo que chega ao poder em 2003 e apresenta uma Carta aos Brasileiros, carinhosamente apelidada de “Carta aos Banqueiros”, progressivamente se consolidando enquanto partido de esquerda pró-capital. Desde então transcorreu uma década de lutas da esquerda contra a direita e contra a ex-esquerda no poder, sendo que o ápice desse processo ocorreu nas Jornadas de Junho de 2013.
Com a recente onda de protestos da oposição de direita ao governo da ex-esquerda, que tiveram seu ápice no dia 15 de março de 2015, ganhou força o tema do impeachment de Dilma Rousseff. Meses atrás, vimos uma vitória apertada de Dilma na disputa eleitoral com Aécio Neves (PSDB), e não restou mais dúvidas de que amplas forças sociais queriam a saída do PT do poder. O que surpreendeu, e deixou a todos com uma pulga atrás da orelha, foi perceber que as próprias classes dominantes queriam a saída do PT. Ora, se o PT vem governando o país há mais de uma década com a mão direita, por que a direita está contra o PT? A questão então nos pareceu ser a de que há direitas, do mesmo modo que há capitais, ou seja, existem divergências políticas e econômicas entre setores sociais das classes dominantes em disputa. Restava então saber: quais são esses setores da direita que estão descontentes com o PT, e por quê? A quem interessa a saída do PT do poder?
Nossa primeira hipótese partia das mudanças levadas a cabo pelos governos petistas no âmbito da estrutura econômico-social. Como o campo do trabalho e da geração petista de empregos deu luz a uma “nova classe média” que labora e recebe tal como qualquer classe proletária de trabalho precarizado, não justificando, portanto, o uso da designação “nova classe média”, voltamos nosso olhar para as alterações no plano do consumo: a chamada classe média tradicional estaria perdendo poder de compra, e as estatísticas de distribuição de renda comprovariam isso. De outra parte a classe trabalhadora estaria ganhando poder de compra, e bastaria ver a evolução real do salário mínimo, no gráfico a seguir, para o constatar. Em primeiro lugar, essa tese já chega torta ao se apoiar no conceito de “classe média”. A nosso ver essa categoria, que aparece noutros pensadores metamorfoseada em “pequena burguesia”, é bastante problemática: nela se engloba tanto os estratos superiores de trabalhadores qualificados quanto os estratos inferiores de gestores e tecnocratas, bem como profissionais bem remunerados dos setores de serviços. Inclui-se num só conceito, portanto, trabalhadores qualificados e capitalistas de baixo escalão. Na leitura da estrutura social que se apoia nessa categoria as “razões” por trás da oposição de direita estariam enraizadas na oscilação das condições de vida no centro da pirâmide social brasileira, e tal oscilação constituiria o lastro material do ganho de expressividade de um conservadorismo que estaria histórica e estruturalmente arraigado nessas camadas médias de trabalhadores de alto e capitalistas de baixo escalão. Esse conservadorismo teria transbordado nos últimos tempos, em especial depois de junho de 2013 acirrar as contradições sociais até então mais ou menos subterrâneas, contribuindo com o delineamento mais nítido das posições políticas de cada classe ou fração de classe nas lutas sociais cotidianas. Alguns analistas que partiram desse modelo chegaram a falar em “nova direita”, a qual seria, invariavelmente, antipetista (ver: aqui [o], aqui [p], aqui [q], aqui [r], aqui [s] e aqui [t]).



















Em suma, nessa hipótese, amplamente defendida e difundida não só pelos petistas, mas também por setores da esquerda que transitam em torno do eixo do programa democrático-popular, seria a chamada classe média reacionária e protofascista brasileira o pivô a empolgar a insatisfação de direita ao governo do PT. Essa vertente de esquerda passou então a defender, mais do que já defendia desde que o PT chegou ao poder, a tese da retomada do programa estratégico democrático-popular, que teria sido abandonado pelo partido, seduzido pelo poder etc.
Quanto aos conflitos no âmbito dos estratos de classe superiores, ou seja, a luta entre capitalistas, notamos que antes de lançar qualquer hipótese seria preciso fazer a análise mais ou menos detalhada do desempenho recente dos setores da economia, uma vez que a prática política é sempre expressão de interesses materiais. Nosso estudo mostrou, por exemplo, que dentro da agropecuária brasileira há tanto setores que vêm se dando muito bem quanto subsetores “na quebradeira”: a safra anual de alguns setores agrícolas pode ser boa, mas o valor de venda não compensar o esforço produtivo etc. Os resultados econômicos é que fornecerão o substrato para a prática política dos setores capitalistas envolvidos. Na indústria o cenário é semelhante ao do setor agrário. Já no setor financeiro notamos a quebra recorde de lucros em sequência, a cada ano de governo petista, o que supostamente os desligaria dos interesses na saída do PT do poder. Deslindar de modo mais aprofundado a relação entre setores da economia e seus representantes no parlamento seria então o passo seguinte fundamental para entender a “crise política atual” e mapear quais são as forças econômicas por trás da oposição de direita ao PT.
Para alguns de nós, da extrema esquerda, o tema talvez pareça sem importância, já que indica tão somente uma disputa entre inimigos em comum e, portanto, nos restaria lavar as mãos e eles que são gregos que se entendam. Mas a coisa se complica quando atinamos que aquele que julgávamos como nosso habitat (se não de jure, ao menos de facto), as ruas, numa continuação extemporânea da Revolta dos Coxinhas (ver aqui [u] e aqui [v]), estão sendo ocupadas, mesmo que minoritariamente, por elementos da classe trabalhadora. Ou seja, atos da direita mobilizando a classe trabalhadora. Ao longo da história isso nunca foi e jamais será um bom sinal. Que maldição é essa, nós da extrema esquerda nos perguntamos, enquanto pensávamos a que se destinava nossa existência (ver aqui [w]).
Então seguimos com a dúvida acerca dos fundamentos dessa conjuntura maluca, convencidos de que respondê-la é importante porque distintos espectros políticos, da extrema direita à extrema esquerda, estão mobilizando a classe trabalhadora, de modo que faz-se necessário, então, compreender o que está havendo, a fim de delinear nossas estratégias políticas com mais realismo e contundência.
Nos parece certo que a extrema esquerda, não apenas brasileira, atravessa uma crise, e que “crise não é mais sinônimo de abertura de oportunidades” (Paulo Arantes), mesmo se a crise em questão for a crise do capital. Ainda assim a porta histórica que se fechou com os sequentes fracassos e derrotas da esquerda mundial segue sendo uma porta, e na busca por caminhos alternativos para abri-la estamos apalpando, ainda aos caquinhos e mais ou menos no escuro, é verdade, mas apalpando, curiosos por saber o que nos atingiu e levemente impacientes. Após a assimilação histórica dos principais órgãos de luta da classe trabalhadora brasileira à ordem do capital, a qual tem em seu centro o principal partido forjado pela classe, o PT, além das principais centrais sindicais (CUT etc.) e movimentos sociais (MST, MTST etc.) restou uma esquerda fragmentada que vem tentando forjar caminhos. Nessas fileiras nos parecem promissores aqueles movimentos e coletivos que estão a buscar uma remodelação crítica dos conceitos de autonomia e de trabalho de base. O que foi que não fizemos, ou que fizemos mal feito, ou que fizemos bem feito demais e nos levou à ossificação e à integração à ordem contra a qual lutávamos? Não sabemos ainda muito bem o porquê desse destino, mas algo deu errado na estratégia, e a crise da esquerda é mais que evidente, já que as ferramentas de luta que historicamente forjamos – teóricas e organizativas – não se afinam mais com as exigências atuais da luta anticapitalista.
Se a paralisia intelectual ou política tem como única consequência relegar-nos à insignificância política, sigamos no desbravamento de vias e fissuras no seio de um sistema assentado em bases políticas sólidas (já as econômicas assentam em homéricas bolhas de crédito – c.f. aqui [x], aqui [y], aqui [z], aqui [a1], aqui [b1], aqui [c1], aqui [d1], aqui [e1] e especialmente o Relatório completo, aqui [f1]). Uma dessas vias, complementar a essa do repensar e refazer do trabalho de base e da nossa prática autonomista, reside na compreensão o mais profunda possível da conjuntura (ver, quanto à estratégia política para os próximos 4 anos “A saída de Gilberto Carvalho e a Frente de esquerda do PT” [g1]; e quanto às recentes medidas de austeridade “Austeridade à brasileira” [h1]). Reside, portanto, em tirar essa pulga de trás da nossa orelha, e entender o que nos trouxe a essa tempestuosa conjuntura onde sugerimos que a classe trabalhadora não fosse às ruas no 13 e ficasse em casa no 15 de março, sem havermos construído qualquer outro ato que canalizasse a insatisfação dos trabalhadores com o status quo. A esquerda sem prática se torna escolástica, mas quê fazer quando ainda se está a compreender o que não se deve fazer, para não repetir os erros recentes do passado?
Não se faz a história como se deseja, e é no rastreio da conjuntura e dos interesses políticos e econômicos em jogo, no rastreio dos motivos ocultos por detrás dessa “tempestade perfeita” em que ganha expressividade uma oposição de direita ao governo da ex-esquerda, que partimos. Esse texto é o resultado provisório, que colocamos na roda para pensarmos em conjunto as saídas da tempestade.

Um rápido resgate histórico
A forma da pergunta determina as respostas possíveis. Quem pergunta se vai chover hoje certamente não ouvirá como resposta que seus sapatos estão embaixo da cama. Saber, portanto, quem quer o PT fora do governo exige entendermos quem, e em quais condições, o quis ou o aceitou dentro do jogo. Do ponto de vista histórico, o PT chegou ao poder em consequência de uma dupla crise apresentada pelo governo do PSDB: crise econômica, no sentido de esgotamento dos potenciais do “projeto neoliberal” de gestão do Estado no capitalismo brasileiro, e crise política, no que tange à incapacidade de contenção dos conflitos sociais no campo, na cidade e dentro das empresas. Nos três últimos anos do segundo governo FHC os conflitos eram reprimidos violentamente, quando o mais interessante para o capital é que eles sejam assimilados e apassivados pela via dos mecanismos de mais-valia relativa. Desde a redemocratização, o modelo de gestão do Estado encabeçado pelo PSDB cumprira sua missão histórica e se tornara dispensável, anacrônico. A continuidade dos projetos do capital para o Brasil demandava, em primeira mão, o apassivamento da classe trabalhadora, a qual desde o fim da ditadura ensaiava formas de retomar um projeto de mudanças sociais potencialmente anticapitalista, interrompido com o golpe de 1964. É por ter a capacidade de manejar de perto a classe trabalhadora, negociando e apassivando seus setores mais rebeldes, que o PT chega ao poder. A defesa de que a chegada do PT ao poder se dá como imposição da classe trabalhadora e impossibilidade dos setores capitalistas repetirem a tática manipulatória da campanha de 1989 (quando em grande medida graças à estratégia da Rede Globo Collor venceu Lula), apenas reforça essa tese, pois assim seria a chegada do PT ao poder a virtual concessão apassivadora dos ânimos mais rebeldes ou potencialmente rebeldes de uma classe trabalhadora que via no PT a expressão de seus anseios e a possibilidade de realização de suas demandas pela via institucional. Foi o caso, por exemplo, do Movimento dos Sem Terra.
Estando dada a aposta da esquerda e da classe trabalhadora em geral em Lula, bastava o capital apoiar a candidatura petista, financiando-a e não lançando mão de subterfúgios manipulatórios tais como aqueles de 1989, para que Lula chegasse lá. E a aposta capitalista foi certeira: com esforços militantes centrados desde 1989 na via eleitoral, a chegada do PT ao poder em 2003 significou arrefecimento das lutas contra o capital, tanto no plano sindical, com a CUT atrelada ao governo, quanto no plano dos movimentos sociais. Com respeito ao MST e demais organizações de luta pela terra, o que se viu foi uma postura de apoio crítico ao governo “em disputa”, com leve aumento do número de ocupações de terra em 2003 e 2004, seguida de uma redução das ações mais radicais a partir de 2005, chegando a apenas 184 ocupações em 2010, o menor número desde 1995. De início, o decréscimo de lutas se deu porque havia a esperança de que a reforma agrária seria posta em prática por Lula, e de fato em 2005 e 2006 houve um número expressivo de novos assentamentos (o ápice foi 2005, ano em que foram assentadas 89.738 famílias). Não obstante, em todos os demais anos de governo petista de Lula a Dilma o índice foi baixíssimo, chegando ao número de apenas 3.904 famílias assentadas em 2010. A partir de 2005 a conjuntura das denúncias do Mensalão deu ao MST novo estímulo ao arrefecimento das lutas, em virtude da avaliação de que um confronto mais radical contra a ordem e contra o governo daria mais força à oposição. A tese do PT enquanto “mal menor” não nasceu em 2014.
Nos dois governos de Lula um conjunto de fatores ainda se somaria ao rol de benesses da gestão petista, para alegria dos capitalistas em ação no país. Em primeiro lugar, as condições favoráveis no mercado internacional dariam ao Brasil potenciais de crescimento econômico via ampliação dos tentáculos de integração econômica para além da clássica dependência para com os EUA e a Europa. Em segundo lugar, uma aproximação com a China e outros países fora desse eixo, especialmente com vistas à exportação de commodities, que apresentavam um “superciclo” de valorização que só agora, em 2015, está se esgotando. Em terceiro lugar, a atração de investimentos estrangeiros lastreados na manutenção de altas taxas de juros e na garantia de estabilidade política que só um partido intimamente ligado à classe trabalhadora podia dar. Em quarto lugar, o comprometimento do Estado brasileiro com o financiamento e a garantia dos lucros dos capitalistas, não só pelas costumeiras medidas de isenção tributária, financiamento e concessões etc., mas pela encomenda de megaprojetos relativos ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como também pela via da atuação incisiva do BNDES no financiamento de megaoperações de grandes empresas. Além disso, havia ainda o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal financiando a produção de pequenas e médias empresas ao mesmo tempo em que oferecia uma sólida linha de crédito aos consumidores; isenções de impostos garantiriam superlucros ao setor automobilístico e eletroeletrônicos. Em quinto lugar, um política monetária de valorização do câmbio e manutenção de uma alta taxa de juros (SELIC) que, aliadas às demais medidas de política econômica garantiram para o setor financeiro não só uma sequência de recordes de lucro dos bancos privados como ainda altos índices de superávit primário e o pagamento religioso dos juros da dívida externa.
Tudo isto enquanto a Central Única dos Trabalhadores (CUT), maior central sindical do Brasil, da América Latina e quinta maior do mundo, se consolidava enquanto central pelega que pré-negociava os ajustes salariais em termos benéficos aos patrões e se convertia, junto aos principais sindicatos, em administradores de fundos de pensão. Um dos mais visíveis indicadores do recuo das lutas coletivas dos trabalhadores, a partir dos anos 1990, foi a diminuição do número de greves, refletindo a passagem dos sindicalistas de uma estratégia de conflito para uma de negociação, de um modelo de sindicalismo combativo e classista para outro de sindicalismo de resultados. Se em 1989 ocorreram cerca de 4 mil greves em todo o país, a partir de então as greves viveram um ciclo declinante: 1.228 greves em 1996, 525 em 2000, 298 em 2002 e 299 em 2005.
A nosso ver o baixo número de greves ainda durante o último governo FHC – na contramão do ascenso de lutas dos movimentos sociais do campo – já está diretamente ligado à concentração de forças da CUT e PT nas eleições de 2002. A conjuntura de altos índices de desemprego e de pesada precarização do trabalho, aliada ao apassivamento dos órgãos sindicais resulta em uma conjuntura de difícil manejo pelos trabalhadores. A conjuntura desfavorável poderia ter sido combatida por meio de práticas mais incisivas, inclusive por fora da estrutura sindical, mas o que se viu via de regra foi o sindicalismo aprofundando sua prática defensiva e conciliatória, onde os interesses dos trabalhadores ficam em terceiro plano. A massa de desempregados foi usada pelos patrões como lastro atemorizante contra os grevistas, e há que se levar em conta também o fato de as antigas críticas cutistas à estrutura sindical oficial terem sido abrandadas à medida em que sindicalistas ligados à CUT passaram da oposição às diretorias sindicais, captando, portanto, os recursos oriundos do imposto sindical e direcionando-os à construção da central (e a outras coisas).
Além do mais, há o fato de a chegada do PT ao governo federal em 2003 ter resultado no direcionamento dos círculos mais altos da estrutura sindical à gestão de fundos de pensão e a cargos governamentais de alto escalão (inclusive ministérios e secretarias de Estado). Nesse processo vimos a transformação da CUT em correia de transmissão não só do PT (o que já era havia tempos), mas do próprio governo, o que foi complementado por uma modificação na legislação sindical que tirou as centrais sindicais da “informalidade” e incorporou-as, efetivamente, à estrutura sindical. Tudo isto, enfim, numa retroalimentação, influiu e contribuiu para a passagem concomitante tanto da CUT quanto dos governos petistas para o centro, e com a aproximação e simpatia, quase amor, que o PT passou a nutrir pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e sua maioria parlamentar no Congresso, a qual garantia a governabilidade do PT no âmbito institucional.
Paralelamente, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o maior movimento social da América Latina, vivenciou um abandono progressivo da combatividade presente na organização maciça de ocupações de terras, que questionavam diretamente a propriedade privada, e que foi sendo substituída por um projeto de associação subordinada ao desenvolvimento capitalista do campo através de parcerias públicas e privadas que promovessem uma agroindústria de menor escala e assentada na produção agroecológica, uma “agroindustrinha” que muitas vezes sequer chegava a isso (ver aqui [i1], aqui [j1], aqui [k1], aqui [l1], aqui [m1] e aqui [n1]). Além disso, o MST vivenciou uma mudança de sua base social, que era majoritariamente de trabalhadores rurais expulsos e acampados, para trabalhadores urbanos expulsos para o campo, o que inclusive levou o movimento a ensaiar experiências organizativas na cidade, como as comunas urbanas, e outros processos que acabaram dando origem ao MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Concomitantemente, a base do MST passou de acampada para majoritariamente assentada, e em virtude disso e de interesses econômicos o movimento passou a focar na luta pela consolidação dos assentamentos via créditos agrários e programas sociais (Luz para Todos, Programa Nacional de Alimentação Escolar etc.), aumentando sua já enraizada relação com o Estado e governos. Defendendo quase incondicionalmente as políticas do PT no governo, com a eventual e pontual crítica à política econômica, o MST viu o agronegócio mudar o perfil dos velhos latifúndios rurais improdutivos que combatia para o avanço avassalador da agroindústria em larga escala, da produção agropecuária com uso intensivo de tecnologia de ponta etc., o que, somado ao quadro geral, contribuiu com o arrefecimento de sua combatividade. Tendo perdido a “mordida” ao longo dos anos, conforme sua base social passava a ser prioritariamente de assentados, e tendo censurado quem entre seus integrantes ainda ousasse “morder”, o MST desde 2011, quando importantes lideranças deixaram o movimento [o1], se vê diante de extremas dificuldades de mobilização, quase paralisado e cercado, atônito pela percepção de que a reforma agrária não viria nem mesmo com “Lula lá” e, face a isso, acaba se mostrando anestesiado tanto pelo fetiche de fazer parte do poder e do governo “em disputa” quanto pela sedução das linhas de crédito agrário para seus assentamentos. O resultado é que desde então o MST é a sombra do movimento social combativo e de massas que um dia foi.
Com todo este cenário, o Brasil sob os governos do PT apareceu aos empresários como algo parecido ao paraíso. Não foi por acaso, aliás, que nessa onda o país acabou sendo escolhido para sediar megaeventos que turbinariam ainda mais os lucros de vários setores, especialmente os da construção civil. De repente, com a descoberta do pré-sal a Petrobras escalou vários degraus no ranking de maiores empresas do mundo. Tudo conspirava a favor e parecia que a velha profecia do Brasil como país do futuro finalmente se realizara. Quando veio a crise de 2008/2009 e o PIB recuou 0,2% Lula lançou a metáfora da “marolinha” e a aparência fora de que o Brasil seguia a mil. No ano seguinte, último dos 8 anos de Lula na presidência, o país chegou à marca de 7,6% de crescimento; estavam dadas as condições para o novo Vargas indicar seu sucessor; foi então que veio Dilma Rousseff, representando a continuidade do projeto, na falta de outro nome depois do estrago que a crise do mensalão causara nas fileiras de quadros do partido, em 2005 e 2006.
Diante do frenesi “neodesenvolvimentista”, mesmo a população foi seduzida pelas benesses do Programa Bolsa-Família (ver aqui [p1] e aqui [q1]), voltado às franjas da extrema pobreza, e da ampliação do acesso a bens de consumo duráveis via linhas de crédito, isenções tributárias, financiamento do ensino superior etc., tanto à classe trabalhadora como um todo quanto às camadas médias. Os dados de desemprego apresentavam bons índices; o salário mínimo foi reajustado continuamente acima da inflação até que uma política de gatilho de produtividade foi pactuada por lei em 2011; tudo isto encobria o fato de que a tal “nova classe média” propagandeada pelo governo era composta de gente pobre que ganhava até 1 salário mínimo e meio por mês (para um panorama da estrutura econômico-social do Brasil recente ver Reflexões sobre a autonomia (6): classe e autonomia na era PT) [r1].
A propaganda governamental da “nova classe média” ocultou também que o trabalho desta “nova classe”, conquanto mais formalizado, se dava em piores condições laborais; que o endividamento entre os trabalhadores crescia vertiginosamente, alimentado pela facilitação ao crédito e a inserção das massas no sistema bancário e creditício formal; que à maior qualificação da classe trabalhadora correspondeu uma degradação laboral e salarial das profissões mais bem remuneradas exercidas por esta mesma classe; ocultava, enfim, que melhorias no nível de vida não significam o fim da exploração capitalista, que a formação de uma “sociedade de classe média” é ilusão ideológica antiga (as literaturas acadêmica e militante sobre o assunto são vastas e antigas) e que mesmo as mais sólidas condições de mercado e economia impulsionadoras deste bem-estar são precárias e provisórias enquanto durar a exploração capitalista do trabalho.
A classe trabalhadora estava historicamente acostumada a ser colocada em situação de “anomia” em face da sociedade civil: além dos direitos políticos podados na prática, os trabalhadores tinham seu acesso ao mercado consumidor interno historicamente reprimido. Nas últimas décadas eles foram sendo inseridos no circuito do consumo, o que, do ponto de vista subjetivo, levou-os a serem facilmente encantados pelas pequenas, mas impactantes melhorias no nível de vida, pelo modesto processo de desconcentração de renda, pelas expectativas de fato abertas de ascensão social via financiamentos estatais de educação (FIES) e qualificação profissional, etc. Na medida em que a classe aproveitou tudo ao máximo numa perspectiva individualista e fragmentária, fortaleceu uma identidade esquizofrênica de classe em que os “guerreiros” e “batalhadores” têm como horizonte não mais alternativas secularizantes, humanas e associativas que foram priorizadas no passado, conquistas de pautas crescentemente progressistas e tendentes à ruptura com o capitalismo, mas alternativas individualistas, plenamente inseridas nos marcos políticos, sociais, econômicos e ideológicos do capitalismo, o chamado empreendedorismo de si mesmo, em detrimento da organização coletiva visando mudar a sociedade. E assim chegamos a alguns dos problemas políticos do presente.

Notas
[*] Publicado com anuência do autor. Originalmente postado em http://passapalavra.info/2015/07/105243
[1] Agradeço ao Manolo pelo apoio e pela ideia da pesquisa, embora eu só tenha conseguido executar metade do roteiro. Obrigado ao João Bernardo e ao Leo Vinicius por terem lido uma versão preliminar do texto.
[2] A queda no preço do petróleo começa em agosto de 2014 com a interrupção da importação do “sweet oil” (“óleo doce”, o petróleo com baixo teor de enxofre) pelos EUA. Se agrava em novembro, quando a OPEP não age contra o excesso de oferta, e o preço do barril cai abaixo dos US$ 50. Essa queda leva à queda do preço das commodities que usam petróleo como insumo, mas também baixa os custos de produção de algumas delas. O petróleo é combustível para máquinas na produção e na distribuição (transporte) das commodities, além de ser base da ureia, um tipo de fertilizante. Os dados apontando a recuperação econômica dos EUA levam à alta do dólar e isso é ótimo para os exportadores, porém o excesso de produção e a desaceleração econômica da China (maior compradora de soja e outras matérias-primas agrícolas, metálicas e energéticas) levam à novo impulso na queda nos preços. Analistas apontam que a China parece estar mudando o ciclo ligado à infraestrutura para um ciclo mais ligado à urbanização, sempre aumentando a população, o que muda o tipo de demanda de commodities, por isso acreditam que a queda dos preços é temporária e faz parte de um ajuste econômico decorrente das mudanças no plano da geopolítica do petróleo e especialmente em relação à economia estadunidense e chinesa.
[3] Curiosamente, em meio aos esforços do ajuste fiscal, o governo – mais especificamente a Câmara, presidida por Eduardo Cunha – passou em quase sigilo uma MP aumentando o prazo de validade da isenção tributária para as Igrejas [s1].

Mais notas
[a] http://blogdaboitempo.com.br/2015/04/10/paulo-arantes-o-nome-da-crise/
[b] http://www.valor.com.br/politica/4017578/camara-conclui-votacao-do-pl-da-terceirizacao-que-agora-vai-ao-senado
[c] http://brasildebate.com.br/dieese-apresenta-dados-sobreas-condicoes-da-terceirizacao-no-brasil/
[d] http://passapalavra.info/2015/03/103142
[e] http://www.ihu.unisinos.br/noticias/543038-europa-se-latinoamericaniza-etroca-estado-de-bem-estar-por-politica-social-a-brasileira-diz-professora
[f] http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/05/saiba-como-cada-deputadovotou-segunda-mp-do-ajuste-fiscal.html
[g] http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/05/emsessao-tumultuada-camara-aprova-texto-base-de-mp-de-ajuste.html
[h] http://passapalavra.info/2015/03/103142
[i] http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOSHUMANOS/486200-COMISSAO-APROVA-PROJETO-QUE-MUDADEFINICAO-DE-TRABALHO-ESCRAVO-NO-CODIGO-PENAL.html
[j] http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/06/1638659-brasil-reve-maioridade-penal-sem-ter-mapa-da-criminalidade-juvenil.shtml
[k] http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/07/camara-rejeita-reducao-damaioridade-para-crimes-graves.html
[l] http://www.cartacapital.com.br/blogs/parlatorio/com-nova-manobra-decunha-camara-aprova-reducao-da-maioridade-penal-4715.html
[m] http://www.valor.com.br/brasil/4119724/massa-salarial-cai-10-no-pais-em-seis-meses
[n] http:/g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/07/governo-lanca-medida-que-permite-reducao-de-jornada-e-salarios.html
[o] http://cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/Marina-a-nova-direita-ea-restauracao-conservadora-no-Brasil/2/31659
[p] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1541085-nova-direita-surgiuapos-junho-diz-filosofo.shtml
[q] http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,no-rio-a-nova-direita-ainda-nao-se-entende,1655343
[r] https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/12/09/nova-direita-nobrasil/
[s] http://operamundi.uol.com.br/brenoaltman/2015/03/31/nova-direitae-inimiga-da-democracia/
[t] http://www.revistaforum.com.br/mariafro/2014/10/31/nova-direitafinanciada-por-corporacoes-deseja-impedir-governos/
[u] http://passapalavra.info/2013/06/79726
[v] http://passapalavra.info/2013/06/79985
[w] http://passapalavra.info/2015/03/103332
[x] http://www.forbes.com/fdc/welcome_mjx.shtml
[y] https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/07/25/divida-pib-da-china-251-eua-260-reino-unido-277-japao-415/
[z] http://data.worldbank.org/indicator/GC.DOD.TOTL.GD.ZS/countries
[a1] http://obeco.no.sapo.pt/tomasz_konicz4.htm
[b1] http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-102/chegada/depois-do-minotauro
[c1] http://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/3011729/economista-americano-preve-fim-milagre-chines-colapso-para-mineradoras
[d1] http://www.economiahoy.mx/empresas-eAm-mexico/noticias/6853470/07/15/El-colapso-chino-y-griego-golpea-a-Carlos-Slim-y-a-Industrias-Penoles-en-bolsa.html#.Kku8uVEgZ3JnRa8
[e1] http://br.advfn.com/eventos/crise-na-china
[f1] http://www.mckinsey.com/insights/economic_studies/debt_and_not_much_deleveraging
[g1] http://passapalavra.info/2015/01/101808
[h1] http://passapalavra.info/2015/03/103142
[i1] http://passapalavra.info/2012/03/53997
[j1] http://passapalavra.info/2012/03/54051
[k1] http://passapalavra.info/2012/04/54095
[l1] http://passapalavra.info/2013/04/75172
[m1] http://passapalavra.info/2013/04/75271
[n1] http://passapalavra.info/2013/04/75301
[o1] http://passapalavra.info/2011/11/48866
[p1] http://www.passapalavra.info/2010/04/21593
[q1] http://passapalavra.info/2010/04/21281
[r1] http://passapalavra.info/2015/05/104053
[s1] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/06/1638436-camara-aprova-aumento-e-isencao-tributaria-a-igrejas.shtml.

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