quinta-feira, 23 de julho de 2015

Feitiço contra o feiticeiro

Ensaio
Escrito em 13 de julho de 2015.
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

O resultado do referendo realizado no dia 05 de julho a favor do “não” refletiu toda a insatisfação do povo grego diante da crise humanitária que se abateu sobre o país, mas sem o devido esclarecimento quanto às verdadeiras causas do processo que ainda está em curso. Em termos de “soberania”, a Grécia não se curvou às pressões externas, embora isto não venha solucionar os reais problemas pelos quais está passando e que afeta direta e indiretamente toda a comunidade. Muito pelo contrário.
Com o prolongamento da crise financeira global e de uma política de “ajustes” severos, alguns dos países do continente europeu, reféns de gestões administrativas desastrosas, perdulárias e abusivas com os gastos públicos, se veem às voltas com os indesejáveis programas de austeridade que passaram a ser aplicados a partir da última década. Receita esta bem conhecida por várias nações de outras regiões, as quais tiveram que apelar para os recursos do FMI no sentido de enfrentar dificuldades idênticas a estas, passando a vivenciar, então, estados críticos constrangedores e desfavoráveis por muitos longos anos de pagamentos das dívidas.
Na atual circunstância, países europeus tais como Espanha, Portugal, Itália e Grécia, encontram-se nessa desalentadora situação e sem perspectivas de viabilizar outras políticas que não as provenientes do mesmo receituário. Por conseguinte, o aumento do desemprego, principalmente entre os jovens, a redução das pensões e aposentadorias, os despejos de inúmeras moradias etc., são alguns dos reflexos que se sobrepujam fortemente a todos estes povos em transe.
Mas, de todos eles o mais difícil e emblemático é o caso grego, no qual uma coligação recentemente eleita tenta emplacar um plano de sugestões intermediárias em contraposição aos programas de ajustamentos financeiros aceitos anteriormente, desde maio de 2010. Isto, sem muito sucesso em restaurar o que ainda resta de uma nação em acelerada desagregação, pois em sentido inverso, cortes profundos nas despesas sociais continuam sendo propostos pela Comissão Europeia (CE), como uma imprescindível necessidade de correção orçamentária e de “salvação” nacional, enquanto o sistema bancário é amplamente protegido porque sem ele não circula o dinheiro e muito menos funcionam as transações de todos os tipos, as negociatas entre as corporações empresariais e, especialmente, as especulações financeiras do dia a dia. E por trás de tudo isso, na raiz dessa persistente crise, está uma dívida de aproximadamente 320 bilhões de euros (mais de R$ 1 trilhão), que o país simplesmente não tem condições de pagar sequer no longo prazo.
A diminuição do valor das aposentadorias na Grécia, durante os últimos anos, alcança 44,5% dos aposentados, recebendo proventos que estão abaixo do limiar de pobreza relativa e, segundo os dados da Eurostat, 23,1% dos aposentados vivem em situações de risco, de miséria e de exclusão. Neste contexto, a tão propalada coligação de esquerda Syriza, que apesar de não colocar em xeque o sistema capitalista na região, provoca uma onda de repulsão por parte de outros governos, principalmente da Alemanha. No entanto, muito pouco tem a oferecer se não algumas contrapostas gerais no sentido de amenizar as imposições dos ajustes monetários e fiscais, num contexto totalmente desfavorável. Mesmo assim, as tais proposições são repudiadas pela CEE, o FMI e o BCE, que querem estabelecer soluções de austeridade a tudo custo sem levar em conta o intrínseco desespero das famílias, dos aposentados e dos trabalhadores, na Grécia e demais países. É tudo ou nada, afirmam os credores das dívidas, sem a menor cerimônia. Não tem o mínimo de sensibilidade ante as pessoas renhidas e nem se incomodam com isso.
Assim sendo, percebe-se que por uma ironia da História, a Europa, berço da civilização ocidental cristã e do atual sistema econômico ainda em vigor, está agora vivenciando um crucial revés pelo que sempre propôs ao resto do mundo como única alternativa para as crises regulares. Isto é, na prática, pode-se afirmar que o “feitiço virou contra o feiticeiro”... E não à toa, este amargo remédio que sempre indicou para a “recuperação” econômico-financeira de inúmeros países, junto com o FMI, passou a ser agora amplamente questionado e rejeitado. Entretanto, o acordo ora firmado, contrariando a votação do referendo, expressa a falta de opções e se traduz em mais um paliativo para a “solução” do problema da dívida grega.
Salvar o capital é preciso! - dizem os detentores dos empréstimos e seus fiéis colaboradores. E que se dane a população, pois nada mais importa, mesmo que isto provoque um alto custo social, com o aumento da pobreza e da miséria, bem como de suicídios tanto de idosos como de jovens, fruto da desesperança e da falta de projeções em melhoria dentro da sociedade capitalista vigente. Aqui, reside toda a essência da querela entre devedores e credores dada a maior importância dos ganhos do capital, porque, em que pese as acirradas contradições entre as partes, elas não levam a um enfrentamento direto contra o capitalismo. Bem longe disso, pois as questões nacionalistas não permitem uma superação maior do problema em si, visto que não existe a mínima possibilidade do sistema ser “ajustado” ou “reformado” gradualmente, através de algumas “mudanças” pontuais.
Logo, diante desses fatos, cabe-nos apelar para que se faça um amplo trabalho de interiorização para além dos referendos, no qual se possa informar, esclarecer e conscientizar abrangentes camadas da população para uma transformação da atual sociedade, em condições de se exercitar o duplo mando - via o poder popular local. É preciso, portanto, que o povo em geral tenha plena confiança em trilhar o próprio caminho, seja no continente europeu ou em qualquer outro lugar, praticando sua inerente capacidade de se organizar nas comunidades, ajuntado com toda a classe trabalhadora e, especificamente, com os demais excluídos de tudo o mais. E isto passa, consequentemente, por um amplo incentivo à associação democrática em todos os níveis, resgatando-se as lutas revolucionárias do século passado em termos inovadores. Ou seja, experimentando-se novas formas de organização horizontal e de participação plural com total isenção e precípua autonomia, evitando-se repetir os mesmos erros e equívocos que nos causaram prejuízos tempos atrás.
Com efeito, é mais do que necessário ter como meta essencial desnudar todas as mazelas do sistema e explicar o que realmente é o capitalismo nas suas entranhas, dispondo-se a incentivar e coadjuvar a ascensão de todos os movimentos de massas, disseminando a luta anticapitalista em todas as partes.

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