quinta-feira, 2 de julho de 2015

Comunidade de fanáticos

Ensaio
24 de junho de 2015
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD/UFPE.

O Brasil vive hoje sob uma cruzada evangélica (e evangelizadora) em nome de Jesus Cristo. Seu objetivo é salvar a alma das pessoas para Jesus ante a ameaça desagregadora de uma sexualidade "perversa" e um modelo "pervertido" de família que contaria com a leniência das autoridades públicas e dos militantes de esquerda, fora e dentro do Congresso Nacional. Os oitenta e cinco parlamentares evangélicos, sob o comando do Presidente da Câmara dos Deputados, e apoiados pela bancada da bala e a bancada ruralista, vem festejando no plenário da Casa cada vitória da sua causa, repercutindo no Legislativo as vistosas "Marchas para Jesus" em favor da família, da propriedade e da liberdade. O ambiente só não é parecido com o pré-1964 no Brasil porque não há consenso em amplos setores da população brasileira sobre a agenda golpista dessas manifestações. Nem os militares se aventuram num novo golpe de Estado. Mas o cenário assusta: não só pelo crescimento do ódio, da intolerância em relação aos diferentes, mas também pelo rolo compressor do conservadorismo no Congresso, liderado por um acólito da Igreja Sara Nossa Terra, sequioso de poder.
Já fui mais tolerante e compreensivo em relação aos religiosos. Tive uma longa educação em colégios católicos romanos e presbiteriano (animado por missionários norte-americanos). Estudei e lecionei em Universidade Católica (jesuíta), mantendo uma longa convivência harmônica e proveitosa com padres e pastores. Aprendi muito com eles. Cheguei a ser vice coordenador de um bispo da Igreja Episcopal na Pós-graduação de Ciência Política por muitos anos. E posso dar o meu testemunho de que eram pessoas de mentalidade aberta e progressista.
Nos dias atuais, venho perdendo a paciência e a tolerância com esses grupos religiosos que disputam votos dos eleitores em nome de Jesus Cristo. Se não fossem tão fundamentalistas e semianalfabetos, recomendaria que estudassem mais a Bíblia. Não para aceitarem acriticamente os costumes patriarcais dos antigos judeus exilados do Egito, em busca da Terra Santa (...) dos palestinos. Sugeriria que pesquisassem sobre o modo de vida dos Essênios, os cristãos primitivos, tomados por Engels como modelo de comunistas. A sua simplicidade, seu despojamento, a sua humildade, o seu exemplo de vida. Em tudo contrário à chamada "teologia da prosperidade" de certa Igreja neopentecostal, ou a amostração espalhafatosa desses cortejos triunfais para Jesus. Nada disso combina com o espírito de humildade, pobreza, simplicidade que os primeiros cristãos ostentavam, sem alarde.
Mas pelo visto o objetivo dessa turma é outro: não é ganhar as almas para Jesus Cristo. É ganhar os votos de eleitores incautos, que confundem o mundo profano da política com o mundo sagrado da Bíblia, tal como é lida e interpretada por esses fanáticos. E é aí onde mora o perigo. Eis "o ovo da serpente" sendo, pouco a pouco, chocado pelas larvas do ódio, da raiva, do ressentimento, da ignorância. Templos apedrejados, perseguição aos portadores de uma orientação sexual distinta, encarceramento de menores, pena de morte: onde vamos parar?

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